Capítulo 29

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- Acho que o desconforto já passou - seu olhar não se encontrava com o meu, a garota olhava para baixo, mais exatamente para uma das soluções para seu desconforto.

- Você acha? - arqueio uma sobrancelha para ela, retirando o tecido macio. Ele ainda estava morno pois não fazia muito tempo que repetimos o processo para deixá-lo aquecido.

- Sua avó ficava a noite toda com um pano na sua barriga? - enfim me olhou, seus olhos castanhos cerrados enquanto parecia levemente irritada.

- Na verdade era uma bolsa térmica, irei providenciar uma pra você - ela bufou. - E não, ela não costumava passar a noite toda comigo porque eu costumava agir igual a você - fui clara o suficiente já que ela desviou o olhar. - E me arrependo muito por todas as vezes que agi dessa forma, já que ela foi a única a demonstrar seu amor e carinho por mim.

- E seus pais? - me encarou interessada.

- Nunca tive a atenção deles por mais de cinco minutos, segundo eles precisavam trabalhar - dei de ombros.

- E por que tiveram você então? - parecia indignada.

- Acredite, me faço a mesma pergunta - ficamos em silêncio, ela desviando o olhar e ficando pensativa por alguns segundos antes de me encarar novamente, parecendo querer dizer algo.

Seus olhos pareciam tão inocentes e isso me deu tantas certezas. Confesso que estava na expectativa de ouvir tudo que ela pretendia me falar, mas ainda não era o momento e eu tive certeza disso quando ela desviou o olhar e pediu para que eu saísse do quarto em seguida. Não contestei e fiz todo o processo em silêncio.

Assim que saí olhei para o final do corredor, a porta do quarto de Camila estava aberta e isso me instigou a caminhar até lá. Fui em passos silenciosos pois sabia que os pestinhas já estavam na cama e provavelmente dormindo.

Parei e olhei o ambiente, não capturando minha latina em uma pequena vistoria, franzi o cenho e bati contra a porta mas ela não apareceu.

Será que desceu? Mas falou que iria me esperar aqui...

Sem controlar minha curiosidade entrei no quarto, olhando agora todos os detalhes que me chamavam a atenção. Sua mesa de cabeceira tinha um lindo retrato dela com seus filhos, pareciam tão felizes, cada sorriso largo entregava isso. Parecia ser em uma viagem de família, sem contar que não fazia muito tempo pois estavam praticamente iguais. Segurei o objeto até memorizar cada sorriso e expressão, antes de colocar novamente onde encontrei.

Olhei mais a frente notando uma pequena prateleira de livros, não eram muitos mas fiz questão de dar a devida atenção, afinal ainda não sabia que ler era um de seus hobbies.

A sacada estava aberta mas não foi isso que chamou minha atenção, na verdade foi a visão perfeita de um céu estrelado, e assim que invadi o espaço a brisa fresca me atingiu em cheio, me fazendo suspirar. Fechei os olhos por alguns segundos aproveitando a sensação boa. Quando abri e tive o reflexo de olhar para baixo, tive a visão de um carro bastante conhecido por mim, e foi aí que deduzi a ausência de Camila no quarto: com certeza Lucy e ela já planejavam algo para me manter presa em algum lugar.

Revirei os olhos antes de deixar o quarto e seguir para o andar de baixo.

- Daqui a pouco vão querer trancar ela no sótão - a voz de Verônica era em uma mistura de incômodo e desdém. Cheguei a tempo de pegar o olhar confuso de Lucy para ela.

Talvez minha cunhada não esteja gostando muito da atenção que sua namorada anda me dando, sem contar na preocupação que deve ocupar a mente da minha amiga, e com isso Lucy esteja enchendo os ouvidos de Verônica com o meu nome. Compreensível seu incômodo e também a leve pitada de ciúmes.

- Não duvido nada - falei chamando a atenção das três. - Posso adivinhar sobre o que estão falando? - me aproximei mais, sentando ao lado de Camila.

- Falavam sobre a sugestão do detetive do caso que é...

- Sem chances - Camila cortou a fala da irmã, essa que revirou os olhos em puro tédio.

- Até mesmo Lucy cogitou a ideia - rebateu encarando a namorada, uma sobrancelha erguida para a mesma.

E agora todas nós encaramos a advogada, eu sem entender nada já que ainda não sabia sobre a tal sugestão.

- Pensando apenas por um lado que é pegar logo aquele desgraçado e ficar livre de toda a loucura dele, sim seria ótimo seguir todo o protocolo sugerido - passou uma mão por seus cabelos antes de me encarar de volta. - Resumindo tudo, eles querem que você volte para sua casa, onde terá alguns polícias fazendo sua segurança e qualquer movimento suspeito eles entram em ação - consegui ouvir um som de insatisfação vindo do meu lado, mas continuei com meu foco em Lucy. - Só querem pegar logo Henry e eles sabem que vão encontrá-lo onde quer que você esteja, mas estando "sozinha" as chances são bem maiores - pressionou os lábios. - Ele está transtornado e não vai desistir até conseguir o que quer - deu de ombros.

- E o que ele quer? - fiquei sem entender.

- Oras Lauren, não seja boba.

- É óbvio que ele está desesperado porque está sem nada - Camila se prontificou a explicar, e isso me fez lhe encarar. - Quer se reaproximar de você como se ninguém fosse perceber sua real intenção - revirou os olhos. - Ainda mais com as abordagens que escolhe - sorrir sarcástica. - Ele é doente e eu não vou deixar você se submeter a loucura dele - pareceu firme com suas palavras, mas eu já havia tomado minha decisão e apenas queria entender melhor toda a situação.

- E a... - suspirei olhando para Lucy. - A...

- A vagabunda da amante dele? - pareceu me ler tão bem. - Meteu o pé na bunda dele assim que descobriu que ele estava sem nada - fiquei surpresa. - Não sei qual dos dois é pior - revirou os olhos.

- Mas ela estava grávida...

- Fiquei sabendo que nem na cidade ela está mais, parece que foi ficar um tempo com os pais e isso é tudo que sei - deu de ombros.

Soltei um longo suspiro.

- Tudo bem - murmurei. - Irei seguir com todo esse plano do detetive.

- O que?! - a voz de Camila se sobressaltou, me fazendo lhe encarar de imediato. - Não - falou com o rosto contorcido em uma careta.

- Se for para pegar Henry, sim, irei fazer - e antes que ela negasse mais uma vez, continuei. - Não foi você que me disse o quanto ele é doente? - ela bufou cruzando os braços. - E eu não quero viver assim pra sempre - fiz uma careta. - Mudando de casa em casa porque não posso me dar o luxo de dormir tranquilamente na minha cama pois tenho um ex-marido louco que me persegue - deixei meu corpo encostar confortavelmente no sofá.

- Ela tem razão - a fala de Verônica foi a única ouvida dentro de alguns minutos.

Elas pareciam pensar, principalmente Camila que parecia manter uma boa briga interna com ela mesma. Mas a questão é que nada do que qualquer uma das duas fale irá fazer eu mudar de ideia. 

- Certo - ergui uma sobrancelha para minha latina. - Mas irei contratar outros seguranças.

- Terá polícias rondando a casa - Lucy refez sua fala de minutos atrás. - Sem contar que ele não pode ver nada suspeito ou o plano pode ir por água à baixo - encarou Camila. - Ele não é bobo, com certeza já vai estranhar Lauren retomar para casa após dias ausente, então se ver algo suspeito aí sim podemos nos preocupar, pois não sabemos do que ele é capaz - percebi seu rosto mudar de expressão, tornando duro e com isso me fazendo pensar se ela pensou o mesmo que eu.

Todo meu corpo se arrepiou.

- Vou querer acompanhar tudo de perto - parecia exigir como se fosse alguma moeda de troca, já que suas outras exigências foram descartadas. 

- Acredito que se mantendo longe eu até posso conseguir que fique ciente de todos os detalhes - pareciam firmar um acordo, continuando a conversa como se pudessem decidir tudo por mim, sequer me incluindo em qualquer sugestão.

- Parece que as duas estão muito ocupadas, você quer ir até a cozinha? Podemos passar um café - mesmo tentando cutucar as duas de alguma forma, elas pareciam não se importar e isso fez Verônica revirar os olhos e levantar, me olhando em um novo convite mudo. Assenti me levantando e lhe acompanhando até a cozinha.

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