Capítulo 46

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- Sabe o que me deu vontade de comer? - encarei Camila ao meu lado na cama, observando ela deixar seu notebook de lado e me encarar.

- Contanto que não seja as rosas do jardim como na última vez, talvez eu possa providenciar - sorrio.

- Chocolates - senti minha boca salivar tamanha vontade. - Muito chocolate - ela sorriu. - Sorvete de chocolate, bolo de chocolate, chocolate e chocolate - ela sorriu mais ainda.

- Vou trazer tudo que eu encontrar, prometo - me beijou antes de levantar e sair do quarto logo em seguida.

Suspirei em antecipação, já pensando em saciar toda a minha vontade repentina.

Também me levantei, disposta a me distrair com qualquer coisa ou ficaria mais ansiosa do que já estava, e como eu sabia que os pestinhas já estavam na cama a esse horário, decidi me certificar que todos dormiam.

Passei pelo o quarto de Jenna e nem me dei o trabalho de tentar entrar, já que depois que Camila entrou sem pedir licença, e lhe pegou em um momento mais "quente" com Edward, a garota agora sempre trancava a porta.

Passei pelo o de Juan e estava com a porta entreaberta, apenas verifiquei se ele realmente estava dormindo e fechei logo em seguida.

O de Miguel e depois Manoel também estava tranquilo, com cada um dormindo perfeitamente.

Entrei no de Noah e sorri, seu abajur ainda estava ligado enquanto ele dormia, e por isso decidi desligar.

- Não - tomei um pequeno susto, pois parecia automático já que sua voz saiu assim que tudo se tornou escuro. - Não desligue, por favor - liguei novamente, notando ele já sentado sobre a cama. - Eu tenho medo - coçou os olhinhos.

- Medo? - me aproximei.

- Sim, do lobo mau - acabei soltando um risinho.

- Meu amor, o lobo mau das histórias não existe - passei uma mão por seu rosto.

- Não? - franziu o cenho.

- É claro que não, tudo não se passa de um simples conto, é apenas uma ficção - me encarou como se estivesse buscando uma confirmação.

- Você promete? - ergueu um dedinho.

- Claro que prometo, jamais mentiria para você - me aproximei mais. - Agora que tal voltar a dormir? Eu fico aqui até você pegar no sono - puxei seu cobertor e alinhei em seu corpo, deixando o garotinho aquecido.

- Lolo?

- Hm? - lhe encarei. 

- Você também é minha mamãe? - suspirei. 

- Você acha que eu sou? - pareceu pensar antes de assentir. - E o que te faz pensar isso? - seus olhinhos pareceram brilhar e isso fez meu coração palpitar.

- Porquê você é igual a mama - sorrio. - Cuida de mim e eu gosto - senti meus olhos começarem a arder.

- E o que eu faço que você mais gosta? - tento controlar a voz.

- Quando fala que me ama, porque eu também amo você - fechei os olhos deixando algumas lágrimas escorrerem por meu rosto, antes de fungar e abraçar meu pequeno da forma que eu podia.

- Amei você desde a primeira vez que te vi, nunca se esqueça disso - beijei seus cabelos. - Você é meu príncipe preferido, e eu vou amar ser uma figura importante na sua vida, se assim você permitir - não sei se ele conseguia entender, mas dei todo meu melhor para que em mim ele encontrasse tudo que um dia vá precisar.

Agarrei seu corpo até me certificar que ele dormia, mas antes que eu saísse totalmente do quarto, fui agraciada com o som sonolento da sua voz.

- Você também é minha princesa preferida, mamãe Lo.

Fechei a porta do quarto de Noah devagar, deixando apenas um fiapo de luz do corredor entrar, como se quisesse garantir que nenhum “lobo mau” ousasse se aproximar do meu pequeno. Encostei as costas na madeira fria, respirando fundo, tentando processar a força das suas palavras que ainda ecoavam em minha mente.

Senti meu peito inflar, mas ao mesmo tempo doer. Era como se aquele amor inocente, tão puro, tivesse o poder de curar partes em mim que eu nem sabia que estavam machucadas.

Segui pelo corredor silencioso, tomando cuidado para não fazer barulho, até ouvir passos apressados vindo da escada. Camila surgia com duas sacolas lotadas, o sorriso orgulhoso iluminando seu rosto.

- Missão chocolate cumprida! - sussurrou em uma animação contida e ergueu as sacolas como um troféu.

Não contive a risada diante do exagero, e quando ela se aproximou, a abracei sem demora. Talvez de forma mais intensa do que esperava.

- Obrigada - minha voz saiu falhada.

- Ei... o que aconteceu? - ela rapidamente procurou meus olhos.

- Não é nada, só os hormônios da gravidez - sorri secando algumas lágrimas. - Acredita que Noah me chamou de mamãe pela primeira vez? - A expressão de Camila suavizou instantaneamente.

Primeiro foi uma surpresa, depois ternura, até que seus olhos também se encheram de lágrimas. Ela soltou as sacolas no chão sem se importar e segurou meu rosto entre as mãos.

- Ô, meu amor... Então finalmente ele falou o que já sente há muito tempo - sua voz era firme, mas carregada de emoção. - Você já é parte dele, Lo. Ele só estava esperando o momento certo para dizer isso em voz alta - Senti o nó na garganta apertar.

- E se eu não for suficiente? - deixei escapar, quase como um segredo. - E se eu não suprir não só as necessidades dele como as dos demais? - Camila franziu o cenho e colou sua testa na minha.

- Você já é mais que suficiente. Sempre foi. Para mim e para eles - beijou minha testa. - Será uma mãe maravilhosa, e quanto a isso não precisa se preocupar - Sorri de leve, permitindo que aquela sensação de pertencimento me envolvesse, ainda que de forma tímida.

- Então acho que vou precisar de muito chocolate para segurar tanta emoção - brinquei, limpando rápido as lágrimas.

- Sorte a sua que eu trouxe um estoque para um batalhão inteiro - ela piscou, me puxando de volta para o quarto.

E ali, entre risadas abafadas, pedaços de bolo de chocolate e colheres disputadas de sorvete, percebi que não eram apenas os laços de sangue que faziam uma família. Era o amor, o cuidado, o reconhecimento silencioso que crescia nos pequenos gestos e, quando menos esperávamos, explodia em declarações inesperadas, como a de Noah naquela noite.

E pela primeira vez em muito tempo, senti que eu já não estava apenas de passagem. Eu estava, de fato, construindo um lar.

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