AVISO DE GATILHO ESTE CAPITULO CONTÉM CENAS DE MORTE E ASSASINATO DE CRIANÇAS SE VOCÊ É SENSIVEL A ESTE TIPO DE CONTEUDO NÃO LEIA.
Assim que meu pai estacionou o carro, desci lentamente, apoiando-me na porta com o corpo tenso, aguardando a chegada dos outros. Simon desceu logo atrás de mim e se plantou à minha frente, os braços cruzados, o olhar carregado de uma mistura de cautela e preocupação.
—Vai mesmo fazer isso? — sua voz saiu baixa, firme, quase um sussurro duro. — Sabe que sua carreira e a do seu pai podem correr um risco enorme.
—Não me importo — respondi, com a voz cortante como uma lâmina — Eu faço isso por você. E para que esses filhos da puta não matem mais ninguém inocente.
Ele arregalou os olhos, surpreso com o palavrão que escapou de meus lábios.
—Olha o palavrão, mocinha — ouvi a voz bem-humorada de Cordell antes mesmo de vê-lo.
Meu tio apareceu no meio da calçada, com aquele sorriso largo e aberto que parecia capaz de iluminar qualquer sombra. Sem hesitar, corri até ele e pulei nos seus braços fortes, sentindo o conforto imediato de sua presença.
—Tio Cordell — murmurei, quase como um refúgio.
Nossa ligação sempre foi profunda, desde o meu nascimento. Quando tudo desmoronou com minha mãe, foi ele quem se ofereceu para me levar aos Estados Unidos e criar-me ao lado dos seus filhos. Uma chance de vida nova, longe daquela guerra, daquela dor. Mas meu pai recusou com firmeza — queria que eu ficasse ao seu lado, custasse o que custasse.
Tivera uma quase batalha silenciosa com Cordell, que tentava arrancar-me daquele mundo de violência, quase forçado a me afastar do pai para me proteger. Mas ele não cedeu. Meu pai, com sua determinação obstinada, insistiu que me manteria perto, mesmo que isso significasse arriscar tudo.
Não por desconfiança contra Cordell — pelo contrário. Ele dizia que confiava nele, que sabia o quanto meu tio queria meu bem. Mas, para meu pai, estar ao meu lado era uma questão de controle, de segurança. No meio do caos da guerra, dentro da fortaleza de sua base, ele ainda tinha domínio. Do outro lado do mundo, era apenas mais um homem, e eu... apenas uma menina vulnerável.
E assim seguimos, presos a esse pacto silencioso entre sangue e lealdade, entre medo e amor, entre guerra e família.
—Meu Deus, a última vez que te vi, você era desse tamanho — meu tio Cordell aproximou a mão e a posicionou na metade do meu tronco, medindo, quase em reverência, o quanto eu havia crescido desde então. — Ficou uma mulher linda — acrescentou, lançando um olhar para o meu pai, que permanecia de braços cruzados, com a expressão fechada, de poucas amizades. — Não posso negar que cuidou bem dela, Michael... só não entendi essa história dos cabelos pretos. Os seus eram tão lindos — e, fingindo tristeza, fez uma careta que me arrancou um sorriso contido.
Olhei para meu pai, que exibia aquela cara emburrada que eu conhecia bem.
—Por que eu não ganhei um abraço igual ao dele?
Ele bufou, mas não conseguiu esconder o sorriso discreto que surgiu no canto dos seus lábios.
—Eu não passei cinco anos sem ver você, foram só alguns dias — respondi.
Simon permanecia ao lado do carro, imóvel, com a balaclava estampada com uma caveira que ocultava seu rosto. Eu nunca entendi direito o motivo de usar aquilo — seu rosto era bonito demais para esconder. As cicatrizes que marcavam sua pele, longe de deformá-lo, pareciam contar histórias de resistência e dor que só acrescentavam a sua força silenciosa.
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The Ghost's Night
FanficSimon Riley e Alice Walker, amigos de infância, se reencontram como sargentos no exército britânico, lutando juntos nos campos de batalha do Afeganistão. Porém, após seis anos de casamento, o relacionamento é abalado quando Alice desaparece durante...
