Ravi

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Ravi tinha sete anos quando Bruno, seu pai, foi coroado rei. Ele passou a infância junto de Navina em Caisafi, mas aos doze anos voltou para a corte do pai em Querates depois de muito insistir para sua rancorosa mãe.

Mas ele jamais se sentiu em casa em Querates, pois era um estranho aos olhos dos irmãos mais novos, pouco conseguia se aproximar do pai, tinha um sotaque insistente e não se adaptou tão bem aos costumes moderados do reino como sua mãe um dia havia feito, sendo propenso a gafes e constrangimentos. Diferente também de sua mãe, que era considerada bonita e exótica por conta de sua aparência, o rapaz, que era muito parecido com ela, era visto apenas como diferente e estranho pela população que em sua maioria tinha a pele, olhos e cabelos claros.

Haviam familiares do lado materno da família na corte também, pois após a anulação do casamento foram distribuídos cargos aos parentes de Navina para apaziguar a ira de seu reino, porém não havia ninguém próximo a Ravi em idade, seus primos e primas eram mais amigos de Delfino e Virgínia do que dele, seu tio avô, que recebeu um lugar no conselho, era um velho odioso, sobrando apenas Samir, um tio de quarenta anos que era o tesoureiro do reino e se tornou a pessoa mais próxima dele desde que ele se mudou.

Por passar tanto tempo na companhia de alguém tão mais velho, Ravi acabou se portando como alguém de mais idade, não se interessando por atividades juvenis e preferindo jogar baralho com seu tio, tomando chá e por vezes até o auxiliando com documentos enfadonhos e cálculos.

Quando Ravi tinha dezesseis anos, seu irmão Delfino estava fazendo doze, e foi dada uma grande festa para comemorar, e foi lá que ele viu sua primeira paixão pela primeira vez. Ela era uma menina loira muito bonita, com os olhos azuis e muito simpática. Ao longe, Ravi observava como ela sorria para todos e como sua companhia parecia ser um deleite.

- Gostou dela? - Delfino perguntou o tirando de seu devaneio.

- Ela é bem... interessante, digo... - Ravi gaguejou.

- O nome dela é Josefina, ela é de Canaterra, se não me engano. O pai dela é muito rico.

- Quantos anos ela tem?

- Porque você mesmo não pergunta? - Delfino desafiou com um sorriso zombeteiro, sabendo que Ravi não o faria. E não o fez. Na manhã seguinte era só arrependimento e foi desabafar com o tio enquanto o ajudava a organizar alguns arquivos.

- E o que te impediu de falar com ela, um oi que seja? - foi a única coisa que Samir perguntou depois de seu sobrinho o amolar com a história e o atrapalhar em suas contas.

- Eu não sei como falar com uma garota. Sou estranho, eu falo estranho, às vezes não me entendem.

- Você sabe que é o filho mais velho de um rei, não sabe? Você é alguém importante e isso vai além de títulos.

- Que títulos? Eu sou o filho rejeitado do rei, isso sim - vendo que tinha falhado em animar o sobrinho, Samir sentiu piedade do olhar triste do rapaz e ficou uns segundos em silêncio.

- Ah, como não pensei nisso antes? - quebrou o silêncio - O solstício de verão!

- O que tem? - Ravi perguntou. Por mais tempo que passasse lá não se lembrava dos costumes dali. Ele se recordava que havia um festival de solstício, mas não sabia que grande ideia viria disso, uma vez que ele já tinha falhado em falar com a garota uma vez e isso seria apenas mais do mesmo.

- No solstício de verão é uma tradição que as moças solteiras andem com uma cesta onde os rapazes podiam deixar suas declarações por escrito. Assim você não precisa falar diretamente com ela - aquilo sim pareceu animar Ravi.

- Tio, acho que isso pode mesmo dar certo - ele disse balançando a cabeça positivamente, sem nem olhar diretamente para Samir, pois já estava imaginando o que escrever.

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