O Último Pássaro Dourado

24 2 23
                                        


Muito tempo atrás, uma menina cresceu sozinha em uma torre tendo um abutre como sua única companhia. Quando ela conheceu o amor de sua vida e saiu daquele lugar, os dois deixaram para trás o seu passado junto ao cadáver do abutre e uma árvore mágica.

Por anos e anos nenhuma criatura viva passou perto de lá, até que um dia um par de pássaros pousou na árvore mágica e se alimentou de seus frutos. Eram pássaros majestosos, grandes, com asas largas e a cauda comprida, suas penas eram coloridas e seus bicos negros curvados.

Não vendo nenhuma disputa pelos frutos, os pássaros voltaram todos os dias para se alimentar até serem surpreendidos pela chegada da maior ave que eles já tinham visto. Suas asas negras eram dez vezes maiores que as deles e aquele era certamente um predador mortal. O casal fugiu e não voltou mais.

Mas o tal predador não era uma ave como eles pensavam, e sim uma mulher alada que buscava respostas.

A bruxa da discórdia possuía vários amantes, pois em sua natureza traiçoeira ela sabia que era dos amantes que vinham as maiores discórdias, sua fonte de alimento e longevidade. Mas nem ela era imune ao sentimento do amor e era o que ela sentia por aquele homem abutre chamado Edmundo.

Os dois se encontravam de tempos em tempos nos últimos séculos. Podiam ficar mais de vinte ou trinta anos sem se ver, mas quando se viam compartilhavam da mesma intimidade de antes. Eram criaturas distintas, com objetivos distintos, mas se entendiam, afinal a bruxa não tinha interesse algum na riqueza que o abutre protegia com sua vida e o abutre não se incomodava com as travessuras da bruxa que importunavam os humanos.

Ela o procurou primeiro em sua mansão, onde achou nada mais do que suas incontáveis riquezas, e quando foi olhar o jardim se deparou com os esqueletos de seus cães de guarda, foi então que entendeu. Ele não aparecia fazia muito tempo e conhecendo Edmundo sabia que ele jamais, em hipótese alguma, deixaria seus tesouros abandonados. Sabia que o pior tinha acontecido.

Quando a bruxa chorou, suas lágrimas venenosas caíram no chão e envenenaram o solo de todo o jardim enquanto ela jurava vingança a quem quer que tivesse causado a morte de Edmundo.

Levaram anos até que ela encontrasse aquela torre. Antes disso sobrevoou por outras regiões isoladas, se disfarçou e perguntou, seguiu pistas falsas ou incorretas, tudo para encontrar suas respostas quase que por acaso, enquanto voava sem rumo procurando por qualquer coisa que lhe chamasse a atenção.

Ao lado dos restos mortais de Edmundo tinha a faca usada em seu assassinato e uma manta com o nome da assassina. Finalmente a bruxa tinha provas concretas e pistas para levá-la aos alvos de sua vingança. Com os olhos marejados ela pegou um dos frutos antes de sua lágrima cair ao chão e apodrecer tudo ao redor. A última árvore mágica secou e seus frutos caíram marrons e fétidos no solo infértil.

Já os pássaros, não muito depois de fugirem da bruxa, criaram o seu ninho, onde a fêmea pôs dois ovos, e quando as penas dos filhotes começaram a nascer elas eram feitas de ouro puro.

Desde então, a prole dessas aves possuía penas douradas, e compartilhavam um destino cruel. Alguns foram abatidos por humanos que buscavam arrancar suas penas, apenas para descobrir que elas recuperavam o aspecto normal depois que as aves morriam. Outras eram capturadas e presas também para que fossem depenadas, mas as penas também se tornavam comuns fora de seus corpos, e elas não viviam por muito tempo aprisionadas.

Depois de todas essas desgraças, sobrou apenas um pássaro dourado. Ele estava dentro de uma gaiola sem emitir nenhum som ou se alimentar, e não lhe restava muito tempo.

***

O navio com os netos da rainha e seus respectivos companheiros jamais chegou ao seu destino. Ela ficou desolada e Ângelo permaneceu no castelo para lhe prestar companhia e apoio.

A princípio eles negaram. Mesmo que o navio tivesse afundado, eles, ou ao menos algum deles pudesse ter conseguido se salvar. A rainha ordenou buscas que não levaram a nada, nem mesmo os restos do navio foram vistos.

O povo acendia velas e a família real fez um evento fúnebre para homenagear os desaparecidos. Por mais que não fosse um funeral propriamente dito, foi como se fosse. Ana rezava pelos irmãos todos os dias, Bruno começou a beber demasiadamente, Gisele começou a demonstrar pela primeira vez o desejo de sair de Querates, que ela realizaria em poucos anos, Hugo manteve sua austeridade corriqueira e Ângelo se manteve próximo da rainha, que pedia pouco a pouco a lucidez que lhe restava.

- Precisamos conversar - Virgínia um dia disse ao neto depois de marcar um encontro com ele na conhecida galeria.

- Qual o assunto?

- O assunto inevitável. Você agora é o próximo na linha de sucessão. - Ângelo ficou em silêncio, ainda não estava pronto, mas sua avó esperava uma resposta.

- Vovó, sinto muito se a minha presença aqui causou a impressão de que quero pressioná-la...

- Não seja tolo, não causou tal impressão. A questão é que não tenho muito tempo, você sabe mais do que ninguém que não sei quem será meu herdeiro, mas tudo indica que é você. A menos que saiba de algo que não sei.

- Entendo. É a senhora quem está pressionando então.

- É um jeito de ver. - mais uma vez um silêncio. Ângelo pensava com cautela no que dizer. Nunca em sua vida esperava passar por isso, não só havia a possibilidade de ele se tornar rei, como muito em breve e ele estava tomado demais em seu luto para aceitar de bom grado a responsabilidade nunca esperada.

- Eu sei sobre o diário do rei Hugo, Álvaro confidenciou a mim quando a senhora falou sobre com ele. Eu sempre me perguntei se sabia o tempo todo o que nos aguardava quando fomos à cidade de Evelin. - dessa vez era Ângelo que aguardava uma resposta e dessa vez ela não veio. Virgínia se recusou a confirmar ou negar, pois uma de suas muitas lições aprendidas sobre profecias com a ajuda de Ravi, era que quanto menos compartilhasse melhor. Afinal as profecias aconteceriam de um jeito ou de outro e o instinto de interferir era quase inevitável. Mesmo se tratando de águas passadas, a rainha seguia à risca sua regra. - Enfim, eu posso não ter lidado com tantas profecias quanto a senhora, mas tive tempo de aprender como o destino funciona. Eu e meus irmãos recebemos um chamado em Evelin e eu sei com toda a certeza que meu destino não é ser rei.

- Está bem - a rainha concordou com um pequeno sorriso nos lábios.

- É só?

- Você está certo, Ângelo. Eu sei de certas coisas, mas precisava ouvir de você.

Era dos ContosHistórias para pegar e não largar. Descubra agora