Príncipe Hugo - Parte II

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Era um hábito de Hugo ir visitar o túmulo de seus entes queridos no cemitério. Ele fazia tudo exatamente igual, primeiro visitava o túmulo de seus avós paternos e fazia uma oração, em seguida visitava o túmulo dos avós maternos e cantava uma canção que Ülv lhe ensinou na infância, era um cântico para homenagear os mortos. Ranullr tinha muitos costumes mórbidos, pois a morte era algo comum em terras tão hostis e Hugo, mais do que sua mãe ou seus tios, sempre teve interesse na cultura do povo do avô.

Por último ele visitava o túmulo da esposa e do filho e perdia a hora em meio aos seus desabafos em voz alta. Ele se sentava no chão e contava tudo para Cordélia. Contou sobre o baile do centenário da rainha e sobre como Bruno e Gisele conheceram o amor no mesmo dia. Contou que ambos tinham comprado casas para suas respectivas amantes e que a felicidade deles era contagiante.

Foi aí que pela primeira vez em quase uma década que ele fez algo diferente do habitual, pois viu algo diferente. Começou com um som suspeito, o príncipe olhou em volta e nada viu. Então se levantou e ouviu novamente, mas dessa vez viu um animalzinho correndo para trás de uma lápide.

A curiosidade o venceu e ele foi ver o que era. A raposa o olhou nos olhos como se quisesse ser encontrada. Deu dois passos para frente, o olhando com a cabeça erguida e sem mais nem menos voltou a correr. Hugo não seguiu desta vez, apenas a observou partir. Mas o animal depois de se distanciar alguns metros parou e olhou para trás, e acabou por convencer o príncipe de que tinha algo para mostrar.

A raposa corria se esgueirando pelas lápides e árvores, dando pequenos saltos como se estivesse contente e enquanto a seguia, Hugo ouviu um choro de mulher ecoando pelo cemitério. Pensou ter sido coisa de sua cabeça até o animal se sentar a poucos metros de uma moça que se lamentava ajoelhada com as mãos no rosto.

A primeira coisa que Hugo viu foram seus cachos castanhos avermelhados, já que a moça estava de costas. Ele se aproximou aos poucos, e ao ouvir seus passos, ela se levantou, virando-se para ele.

- Vossa Alteza - cumprimentou, sutilmente passando um lenço sobre o rosto para limpar as lágrimas.

- Me desculpe, não queria atrapalhar. Estava apenas... - ele ia mencionar a raposa, mas ao olhar por trás do ombro da mulher não viu o animal. - Espera, acho que já te vi em algum lugar.

- Eu estava no baile do centésimo aniversário da rainha - quando ela respondeu, Hugo se deu conta. Era dela que ele falava com Gisele e Bruno no dia do baile. Tinha os cabelos e o nariz inconfundíveis, e agora mais de perto e sem a máscara, Hugo notava que ela tinha olhos azuis com sardas abaixo deles.

- Sim, agora eu me lembro, mas não tive a oportunidade de saber o seu nome.

- Dolores, Vossa Alteza - ela falava com um sotaque valastão.

- Eu fiquei sabendo que está noiva do rei Carlo. Lhe desejo felicidades.

- Acredito que seu desejo não será realizado - ela disse sem pensar. - Esse era o meu verdadeiro amor - ela mostrou a lápide em que estava lamentando anteriormente. Ricardo era o nome escrito nela, "coração valente" no seu epitáfio acima dos anos de nascimento e de morte. Faleceu aos dezenove anos.

- Eu entendo sua dor, Dolores. Meus pêsames.

- Ele era um soldado queratiano. O conheci na Valástia, me mudei para cá por ele e fomos casados por dois breves anos até Ricardo morrer na guerra. O rei Carlo já fazia suas investidas em mim quando eu morava na minha terra natal e ao saber da minha viuvez pediu minha mão em casamento para meu pai, que não pôde negar, é claro. Não faz sentido, minha família nem é dona de muitas terras - ela disse com os olhos azuis marejados olhando para o príncipe, mas se distanciando até que na última frase encarava o vazio, como se falasse sozinha. - Me desculpe, você não precisava ouvir tudo isso.

- Não precisa se desculpar. Como disse, a entendo. Você diz que meu desejo não se tornará realidade, mas eu acredito que irá encontrar felicidade, Dolores.

- Obrigado, Vossa Alteza. Se me der licença - ela se despediu.

- Espero vê-la de novo - Hugo disse sem hesitação, mas com o coração palpitando em seu peito. Dolores lhe respondeu com um sorriso e assentiu com a cabeça, então se foi.

O casamento de Carlo e Dolores foi marcado, e a família real de Querates foi convidada. A rainha, por não ter condições de encarar a viagem, decidiu por mandar seu herdeiro Álvaro no lugar, junto de sua esposa, Aelin. Túlio viu no evento uma oportunidade diplomática e decidiu ir também, levando Ágata.

Eles optaram por ir de navio. Levavam tapeçarias e porcelanas de presente e partiram logo ao amanhecer de uma manhã ensolarada.

Na manhã seguinte em que seus netos partiram, a rainha acordou com o som de corvos crocitando em sua janela. Tinham quatro corvos em sua varanda e ela os espantou com os braços, fazendo com que eles deixassem suas penas negras espalhadas pelo chão. Logo que suas empregadas terminaram de a vestir, ela recebeu a notícia de que Ângelo estava no castelo querendo vê-la com urgência.

O príncipe vivia em seu próprio castelo a três dias de viagem e correu o mais rápido que pôde levando consigo apenas um quadro recém pintado e se recusou a falar com qualquer um que não fosse a própria rainha. Virgínia dispensou as criadas e viu que seu neto a esperava na porta. Assim que elas saíram, ele entrou.

- Me desculpe, vovó, por entrar em seus aposentos dessa maneira, mas não pude esperar - ele estava suando e aflito. Os cabelos grisalhos bagunçados e as olheiras marcadas. Ângelo desde sempre sofria com insônia e nos últimos dias não havia dormido quase nada para chegar o quanto antes na capital.

- O que é tão importante que não pode esperar?

- Meus irmãos já embarcaram para o casamento?

- Eles partiram na manhã de ontem - a rainha respondeu e só então notou o que Ângelo segurava e entendeu o que estava acontecendo - Me mostre.

A pintura mostrava um céu escuro com uma lua minguante como a da noite anterior sobre um mar tempestuoso e violento, e apenas a proa de um navio visível, com todo o resto submerso. A rainha sentiu suas forças indo embora e sua visão ficando turva. Só não bateu com a cabeça no chão ao desmaiar porque Ângelo jogou o quadro no chão para segurá-la.

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