Príncipe Hugo - Parte III

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O aniversário de vinte e nove anos de Hugo foi alguns meses depois do naufrágio. Ele recusou uma celebração, mas aceitou um jantar apenas para os familiares que lhe restaram, pois apesar de não estar com o coração em clima de festa, ainda via a necessidade de passar um tempo com seus entes queridos.

Depois de terminar sua refeição, Hugo decidiu ficar a sós no salão ao lado da sala de jantar enquanto os outros comiam a sobremesa. Alguns minutos depois, seus tios Ângelo e Ana vieram ao seu encontro.

Ângelo tinha alguns fios brancos entre os castanhos, que um dia já haviam sido escuros, mas clareavam cada vez mais. Se vestia de maneira rica e nobre e tinha uma bolsa atravessada no ombro. Continuava esguio e com suas famosas olheiras. Já Ana se vestia sempre com seu robe azul escuro e o capuz de mesma cor, na sua cintura uma corda branca amarrada indicava que agora podia ensinar e supervisionar as noviças da civita.

- Eu rezo por você todos os dias, sobrinho. Rezo para que encontre luz e sabedoria diante do pesar e escuridão que lhe rodeiam - Ana disse segurando as mãos de Hugo. As mãos dela eram calejadas e ásperas devido ao trabalho duro que fazia servindo comida aos pobres e doentes, isso sem contar a limpeza da civita e todo o trabalho durante os eventos religiosos. Hugo já tinha ouvido falar sobre como sua tia era mimada e cheia de caprichos quando mais nova, mas não conseguia a imaginar desse jeito.

- Obrigado, tia. Significa muito para mim - agradeceu e se voltou para o tio, imaginando que ele também teria algo a lhe dizer, mas este apenas o abraçou. Hugo o escutou fungar durante o abraço, e quando se soltaram, Ângelo limpou suas lágrimas.

- Nós temos algo para você - o tio disse, enfim. Ao mesmo tempo, Ana tirou do bolso de dentro de seu robe, e Ângelo de dentro de sua bolsa, cada um uma luva. As famosas luvas de Ágata, que seu filho apenas tinha ouvido falar. Hugo imaginava que as luvas mágicas teriam algum tipo de brilho sobrenatural ou uma aura que pesasse o ambiente, mas olhando para elas, eram apenas luvas completamente normais.

- Como você sabe, sua mãe nos entregou essas luvas para que ela nunca mais roubasse novamente. Nós cumprimos nossa promessa de não deixá-la saber onde estavam, mas agora... - Ana parou de falar para conter o choro que estava por vir. - Agora achamos que elas devem ficar contigo. - Hugo pegou o par de luvas, uma de cada vez, e as calçou na hora. Foi então que sentiu que não eram luvas normais, sentiu que agora suas mãos eram tão leves e rápidas quanto o próprio vento, mas mais do que isso, sentiu uma conexão com sua mãe que não imaginou ser possível desde que ela havia desaparecido no mar. A sensação de usar aquelas luvas era algo que só eles dois sabiam como era, e ter aquilo era como conhecê-la mais de certa forma. Não havia no mundo presente melhor. Seus tios já estavam com os olhos marejados, e logo ele ficou também.

- Eu não sei como agradecer.

- Tem mais uma coisa - Ana disse enquanto puxava parte de seu capuz para trás, revelando parte de seu cabelo ruivo e grisalho. De lá tirou um grampo de bronze e estendeu para Hugo, que o pegou. - Isto também pertencia à sua mãe. Ela me deu no dia que comecei meus trabalhos na civita, me disse que guardava para me presentear no dia do meu casamento, mas que o que eu estava fazendo era quase o mesmo - disse e deu um riso nostálgico.

- Tia, eu não posso aceitar.

- Por favor, aceite. Sinto que precisa disso mais do que eu - disse Ana.

- Sua mãe gostaria que tivesse essas coisas - Ângelo completou e Hugo não insistiu, a verdade era que queria se apegar a toda e qualquer recordação possível e parecia que Ângelo e Ana sabiam disto.

Logo após seus tios se retirarem, Bruno chegou para conversar com Hugo. O rapaz também havia perdido os pais, mas este preferia não tocar no assunto e nem transparecer nenhuma tristeza na frente de ninguém, preferindo falar trivialidades, beber ou jogar, ao contrário de sua irmã Gisele, que estava inconsolável. Esta passou brevemente para cumprimentar o primo e foi embora para os braços de Amélia, que era com quem desabafava. Quando estavam apenas os dois rapazes novamente, foi a rainha quem chegou.

- Que bom encontrá-los, quero falar justamente com vocês dois - disse ela. - Estou cansada e preciso me deitar então serei direta, o assunto é a minha sucessão. - Tanto Hugo como Bruno ficaram confusos com esse tópico sendo jogado repentinamente sobre eles e os dois se entreolharam em silêncio, como se esperassem que o outro perguntasse o que estava acontecendo.

- O que se tem a dizer sobre isso? Tio Ângelo é seu sucessor, naturalmente - foi Hugo quem quebrou o silêncio.

- Ele renunciou ao título - Virgínia disse como se fosse óbvio.

- Então... - Bruno começou, constrangido. - Acho que seu sucessor seria eu. Sou o primeiro filho do seu primeiro neto.

- Pode ser, pode ser - ponderou a rainha, olhando para o nada.

- Bisa, o Bruno está certo. Eu ficaria feliz em servir ao reino de outras maneiras.

- O meu sucessor será aquele que me trouxer um pássaro feito de ouro - ela disse como se fosse a frase mais corriqueira do mundo e novamente os primos se entreolharam, mas desta vez nenhum deles soube o que dizer, causando um silêncio constrangedor que foi quebrado pela própria rainha. - "A rainha centenária passará sua coroa para o príncipe que lhe trouxer o pássaro feito de ouro", a rainha centenária sou eu, os príncipes são vocês. "A rainha centenária passará sua coroa para o príncipe que lhe trouxer o pássaro feito de ouro", "A rainha centenária passará sua coroa para o príncipe que lhe trouxer o pássaro feito de ouro"... - tornou a repetir dezenas de vezes, a princípio olhando para os bisnetos, mas em seguida para si mesma, diminuindo o tom de voz até se tornar um sussurro, enquanto se retirava a passos lentos e arrastados.

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