E foi assim que Evelin cresceu, sozinha e isolada com seus cabelos dourados crescendo sem parar. No ano em que ela morou na casa, Edmundo ainda tinha o cuidado de banhá-la e alimentá-la, mas somente com o fruto mágico que havia transformado seus cabelos em ouro, pois o abutre temia que seu efeito fosse passageiro. Porém quando foi para a torre ela teve que aprender a se virar. O abutre aparecia duas vezes por dia, ao nascer do sol trazendo um balde d'água e ao pôr do sol trazendo uma cesta com os frutos, e quando o balde ou a cesta se esvaziavam ele levava de volta, simples assim. Evelin não via mais o velho em sua forma humana e não trocava palavras com ninguém, portanto praticamente não sabia nem falar e mantinha o vocabulário que tinha aos dois anos de idade.
Dentro do armário de Evelin haviam algumas roupas em diferentes tamanhos para que ela usasse durante toda a vida, além disso apenas uma escova para seus cabelos, uma esponja para se limpar e um copo que ela devia usar tanto para beber quanto para tomar banho. O único outro item que ela tinha posse era a manta que usava quando foi dada ao abutre, a manta com o nome dela escrito, mas que ela não sabia ler. Evelin dormia todas as noites com ela em seus braços e aquela era sua posse mais preciosa.
Catorze anos depois, quando Evelin tinha dezesseis anos, seu cabelo de ouro já tinha mais de vinte metros de comprimento. Ela gostava de escová-los e trança-los para passar o tempo. Certo dia após trançar os cabelos ela pegou um fruto da cesta e comeu, e como de costume foi até a janela jogar as sementes fora, só que dessa vez foi surpreendida com a presença de um rapaz lá embaixo que parecia ter mais ou menos a idade dela, então ela correu e se escondeu o mais rápido que pôde, mas o rapaz conseguiu vê-la.
- Ei, eu vi você aí! Tá tudo bem, eu não vou lhe fazer mal! - ele gritou lá debaixo e Evelin não conseguiu entender, mas o susto já havia passado e se tornou curiosidade. Lentamente ela foi se levantando e pondo a cabeça pra fora da janela, depois de dar uma olhada pra baixo ela rapidamente se abaixou de novo e se sentou encostada na parede. O rapaz deu um uma risada lá embaixo.
- Quase consegui te ver agora! Como você se chama? - ele perguntou. - Bom, eu me chamo Benício, muito prazer - completou depois de não receber nenhuma resposta. Evelin então se sentiu mais tranquilizada pelo tom de voz do rapaz e se levantou, olhando para baixo sem se esconder mais.
- Ah, aí está você. Que cabelo... extraordinário - eles se olharam em silêncio por uns instantes, Evelin com curiosidade e Benício com admiração. Era a primeira vez que Evelin via um rapaz com idade próxima a dela e era fascinante o quão diferentes eles eram um do outro. Ela, baixa, magra e com seus cabelos de ouro e ele muito alto, com braços fortes e com um cabelo castanho comum e bem cortado. Benício também tinha um bigode castanho bem claro, porém modesto demais para ser visto lá de cima.
- Você não é muito de falar não é? Me desculpe se te assustei. É que eu queria ver se essa torre existia mesmo. Eu acabei de perder meu pai, nos seus últimos dias ele estava muito febril e dizendo coisas estranhas, e certa vez ele me disse que eu devia ser grato pela torre por eu ter a vida que tenho. No começo não levei a sério, mas quando ele começou a falar sobre as direções de como chegar aqui eu comecei a acreditar e quis ver com meus próprios olhos. Não foi fácil de achar, na verdade não é a primeira vez que tento, mas aí está. Então, é você quem eu devo agradecer? - Evelin escutou tudo atentamente, mesmo que não pudesse assimilar as palavras era bom ouvir o som de voz de alguém que parecia tão gentil. Até que ela olhou pro céu e notou que o sol estava prestes a se pôr e em breve o abutre chegaria com a cesta de frutas. Nervosa, ela tentou alertar o rapaz do perigo fazendo gestos com as mãos pedindo que ele fosse embora.
- O que foi? Você quer que eu vá? Tudo bem, mais uma vez peço desculpas - Benício virou as costas e mesmo que triste ele se foi. Não demorou muito e o abutre apareceu como de costume.
Depois que o deslumbre passou e o rapaz pensou melhor sobre o inusitado encontro, ele compreendeu que a pobre garota era uma prisioneira, é claro. Não havia porta em sua torre e ela não interagia em conversas com ele não apenas por timidez, mas pela falta de costume, pois não tinha contato com outros.
Por mais livre que fosse, Benício também se sentia solitário desde a morte do pai, a única pessoa da família que lhe restava, já que ele não tinha irmãos e não tinha sequer uma memória da mãe, que havia morrido em seu parto. Portanto ele decidiu voltar na torre no dia seguinte, mesmo temendo a possibilidade de ser expulso novamente.
Dessa vez, Evelin o recebeu com animação e quando ele acenou pra ela, ela sorriu e acenou de volta.
- Vamos tentar de novo. Prazer, eu sou Benício - ele disse e então repetiu apontando para si mesmo - Benício, Benício.
- Benício - ela repetiu apontando para ele.
- Isso! Sou eu, e você, quem é? - ele perguntou, dessa vez apontando repetidamente para ela. O sorriso de Evelin aos poucos se desmanchou, pois ela tinha entendido a pergunta, mas não sabia a resposta.
Para tentar distraí-la, Benício mudou de assunto e começou a falar mais sobre ele e sobre o pai e como eles eram muito amigos. Os dois eram talentosos pedreiros e carpinteiros, e no tempo livre caçavam juntos por diversão. O rapaz mostrou a faca de caça que havia ganhado de presente pouco antes de seu pai falecer. Desde então ele sempre carregava a faca onde quer que fosse, como recordação.
Novamente quando o sol estava prestes a se pôr, Evelin pediu para que seu novo amigo fosse embora e ele assim fez. Benício não compreendia porque ela temia tanto que ele ficasse até mais tarde, mas entendeu que aquilo não queria dizer que ele não era bem vindo.
Por isso ele voltou mais cedo no dia seguinte para que pudesse ficar mais tempo, e continuou voltando dia após dia. Mesmo que eles não se entendessem por completo, era muito bom para Benício ser escutado e era muito bom para Evelin escutar alguém e com o passar do tempo, os olhares e sorrisos começaram a dizer tanto quanto as palavras.
Depois de um mês, mesmo com a comunicação limitada e sem poder se tocar, os dois já estavam apaixonados. Benício achava Evelin tão linda e graciosa que os cabelos feitos de ouro pareciam apenas um detalhe e Evelin estava encantada em descobrir o que era ser admirada e bem tratada e aos poucos começou a admirar o rapaz também. Ele tinha um charme no seu jeito brincalhão e tinha um sorriso encantador.
Evelin já esperava ansiosamente pelas visitas diárias. Quando o sol nascia ela tomava seu banho, escovava e trançava os cabelos, comia a mesma fruta de sempre, jogava as sementes pela janela e se sentava na cama à espera do jovem. Nem sempre ele vinha logo e às vezes ela pegava no sono esperando.
Em um dia desses que Evelin dormiu depois de sua "refeição" a semente que ela jogou pela janela magicamente brotou em uma árvore que até o tempo dela acordar, já estava da mesma altura que a torre e a ponta de um dos galhos entrava pela janela, cheio de folhas vividamente verdes e frutos multicoloridos já maduros . Foi o som de um dos frutos caindo no chão que a acordou.
Ela olhou com surpresa e admiração e passou a mão pelas folhas delicadamente, como se para ver se não estava sonhando.
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Era dos Contos
FantasyEra dos Contos é uma releitura de contos clássicos dos irmãos Grimm e poemas épicos, todos passados em um universo de fantasia, mas aqui a história não acaba no felizes para sempre e nós acompanhamos os personagens durante todas as suas vidas, então...
