HARVEY
Naquela noite vibrante, sob o manto escuro e extasiante da boate, meus olhos encontraram uma cena que, por um breve momento, me fez esquecer a razão de estar ali. Paulie e Sidney, entrelaçados em um canto privado, compartilhavam um beijo que para qualquer outro poderia parecer o início de uma promessa eterna. Eu observava com um mesclado de surpresa e indiferença. Não era a raiva ou o ciúme que esperava sentir; esses sentimentos eram estranhos a mim, para ser sincero. Meu coração, acostumado a bater no ritmo calculado dos negócios e da sobrevivência, hesitava em nomear o que via.
Refletindo friamente sobre a cena, percebi que meu espírito pragmático e desapegado se encontrava novamente no controle. Que diferença fazia, afinal, quem beijava quem na obscuridade de uma boate? As emoções, pensei, são como areia escorrendo entre os dedos, impossíveis de segurar firmemente.
Mas, à medida que a interação entre Paulie e Sidney se intensificava, um sentimento desconhecido e indomável começou a se infiltrar em minhas veias, algo que minha mente racional e fria não conseguia catalogar ou compreender. Foi uma força estranha, que me arrancou do meu habitual estado de observador distante e me impulsionou com uma urgência que eu não reconhecia. Sem conseguir mais reprimir ou ignorar essa coisa interior, meu corpo agiu por vontade própria, movendo-se para intervir, como se tentasse preservar alguma ordem no caos emocional que se abatia sobre mim.
A surpresa inicial deu lugar a uma raiva fervente ainda pior, um sentimento que eu não esperava que Sidney pudesse ainda despertar em mim. Fui movido por um impulso que não consegui controlar, uma necessidade de intervir, de separá-los, mesmo que minha lógica interna gritasse que aquilo era uma interferência sem sentido em vidas que não deveriam mais me concernir.
Quando empurrei Paulie, senti uma clareza momentânea em meio ao pandemônio das minhas emoções. O olhar de Sidney, a tensão no ar, tudo contribuía para uma sensação de realidade distorcida. Eu estava ciente da atenção indesejada que atraíamos, mas algo dentro de mim precisava fazer aquilo, como se pudesse de alguma forma reafirmar um controle que já não existia mais.
As palavras de Sidney, tão seguras e desafiadoras, atingiram-me com a força de um soco no estômago. Ela estava certa, é claro. Nenhum de nós devia satisfação ao outro, mas aquela verdade não aliviava o peso do que eu sentia. A revelação de seu momento com Paulie, algo que eu desconhecia, acrescentou uma camada extra de complexidade à situação. Meu olhar inadvertidamente fixou-se na tatuagem dela, uma lembrança, uma promessa, permanente de um tempo que tínhamos compartilhado, e por um momento, todo o resto pareceu desaparecer.
O comentário de Paulie, sua sugestão implícita, foi como um despertar. A realidade do momento atual, da minha posição ali, tudo se chocou contra mim com uma claridade brutal. Sidney havia seguido em frente, livre das amarras do nosso passado, enquanto eu, aparentemente, ainda estava preso a elas.
Ao ouvir Sidney defender sua independência, sua voz cheia de sinceridade e desafio, senti uma mistura de admiração e frustração. Era evidente que ela não era mais a pessoa que eu havia conhecido; ela havia crescido, mudado, e eu... talvez eu tivesse permanecido o mesmo. O ato de sair dali, de deixá-la após aquele breve e intenso confronto, foi simultaneamente um alívio e uma derrota. A noite havia tomado um rumo completamente inesperado, revelando verdades que eu talvez preferisse nunca ter enfrentado.
Sidney tinha razão. Ela era livre, e eu... eu estava apenas começando a entender o significado disso. Porém, nesse jogo de liberdades, eu percebi que também possuía a minha própria — uma liberdade que me permitia lidar com Paulie da forma que eu julgasse necessária. No instante em que suas palavras zombeteiras cortaram o ar, como uma lâmina afiada destinada a me provocar, minha resposta veio na forma de um soco, calculado e frio, que encontrou seu alvo com uma precisão. Paulie vacilou, um passo atrás, enquanto Sidney, com um encolher de ombros indiferente, nos deixou à nossa sorte. Ela partiu como se nossa maneira de resolver aquelas tensões fosse insignificante, um mero detalhe em sua vasta realidade de liberdade.
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Vortex
Storie d'amoreImpelida a afastar-se de sua carreira como agente do FBI, Sidney Pryor retorna à sua cidade natal disposta a recomeçar sua vida. Contudo, o destino a reconduz ao epicentro do vórtex que acredita nunca ter deixado. Envolvida em um redemoinho de amor...
