Capítulo 02 : Olhos nos olhos

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Sienna Cameron

— Acho que estou bêbada. — Confessei, uma risada escapando entre as palavras.

Ele riu junto, o som caloroso fez meus pelos se arrepiarem.

— É, eu também. — Admitiu, e havia uma leveza em sua voz que não estava lá antes.

Cada segundo que se passava, cada pergunta e resposta, cada sorriso. Cada uma dessas coisas fazia com que nossas máscaras se dissolvessem mais e mais dando lugar às nossas verdadeiras faces. E eu gostava do que eu via por baixo da máscara dele.

Mas algo ainda me incomodava, sem me permitir me soltar totalmente. Era como uma coceira instante e irritante. Então, com um olhar mais sério, mas ainda com um brilho de humor, perguntei:

— Você não é daqui, né ? —não era verdadeiramente uma pergunta. Era mais como uma constatação. Eu conhecia cada rosto daquela ilha, cada nome, sorriso e olhar. Mas nada como ele.

Ele inclinou a cabeça, considerando a pergunta. — Não, não sou. —Sua expressão se tornou distante e séria, e eu me amaldiçoei por ter sido a causadora dela.

— Vai ficar por quanto tempo? — Eu era casada, afinal de contas, deveria ficar aliviada pelo homem que mexia com cada átomo do meu corpo não residir aqui na ilha. Mas então, por que eu me sentia tão estranhamente receosa pela sua partida?

— Pouco. Estou apenas de passagem.

Seus olhos se desviaram do copo com a bebida colorida e um canudinho e se fixaram em mim. E naqueles poucos segundos, tão fugazes, eu me senti eterna perante seu olhar que me prendia, me atraía. Diante daqueles olhos castanhos daquele estranho, eu me senti mais viva do que em vinte e cinco anos vivendo. Eu poderia estar morta e decomposta, presa e acorrentada no inferno ou submundo, mas ainda me sentiria viva perante seu olhar que parecia incendiar a minha alma, que brilhava em meio à escuridão que o meu interior havia se tornado.

Ali, presa no seu olhar, eu desejei saber o que se passava na sua cabeça. Se ele sentia essa estranha conexão que nos puxava na mesma direção. Se ele temia tanto quanto eu pelo fim dessa noite. Mas tudo que eu vi foi o reflexo da minha própria curiosidade.

— Acredita em destino? — As palavras escaparam dos meus lábios antes que eu sequer pudesse raciocinar.

— Não sei. — Respondeu honestamente. — Mas se o destino é o que trouxe você para este bar, para este exato momento, então talvez eu possa começar a acreditar.

— Isso é uma cantada? — Perguntei, uma sobrancelha arqueada em desafio, tentando disfarçar o frio na barriga incomum que se instalou.

— Talvez. — Ele deu de ombros, um sorriso travesso nos lábios. — Funcionou?

— Vou precisar de mais uma bebida para decidir. — Respondi, sinalizando para o barman.

Enquanto esperávamos, nossos ombros se tocaram levemente, um contato casual que enviou uma corrente elétrica através de mim. Mas nele foi diferente, seu corpo ficou tenso e uma veia pulsou no seu pescoço.

Eu não sabia o que ou por que ele havia adquirido aquele trauma, mas apesar disso eu respeitava, porque talvez eu tivesse alguns traumas.

Quando alguém elevava o tom de voz em uma discussão, mesmo sem intenção, fazia com que eu estremecesse e me encolhesse. O mesmo acontecia com movimentos bruscos. Qualquer movimento que eu não estivesse esperando me fazia fechar os olhos, esperando pela ardência na pele que nunca viria. Era a reação instintiva do meu corpo.

— E você? — Ele perguntou de repente. — Acredita em destino?

— Acredito em escolhas. — Disse, pegando o copo que o barman havia colocado à nossa frente.

Sentimentos Proibidos : Sendo reescrito Onde histórias criam vida. Descubra agora