Capítulo 1- Início de tudo

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Foi em maio de 1994 quando ele se aproximou de mim no recreio, era uma das crianças mais esquisitas que eu já tinha visto. Por causa das orelhas de abano, os outros costumavam chamá-lo de dumbo, inclusive eu já me referi assim a ele mentalmente, mas nunca o chamei assim na cara. Minha mãe dizia que não era educado chamar as pessoas por nomes ofensivos.

"Oi" disse. Sorriu. Seus dois dentes da frente tinham um espacinho no meio.

"Oi" respondi, meio a contragosto.

"Me dá uma?" pediu, apontando para o meu pacote de bolachas recheadas Trakinas.

Peguei e estendi um biscoito até ele, com má vontade. Mamãe falava para nunca negar meu lanche pras crianças mais pobres. Eu sabia que ele morava na parte mais ferrada da cidade. Um lugar com cheiro de esgoto.

Não sei o porquê, mas isso parece ter soado como uma aprovação para que ele se sentasse ao meu lado no banco.

Depois disso, todos os dias ele vinha se juntar a mim no recreio. Cheirava a naftalina. Seus olhos eram pequenos e desproporcionais ao rosto, o que me fazia lembrar um ratinho.

Apesar do desprezo inicial, eu nunca o proibi de se juntar a mim. Não tinha amigos. As outras crianças me achavam esnobe. Não que fosse mentira, mas eu não me importava.
Com o tempo, percebi que ele gostava de me fazer rir. Odiava admitir, mas sempre dava certo.

Não sei quando aconteceu, mas com o passar dos meses eu passei a ansiar sua companhia ao meu lado. Quando ele faltava, me sentia muito só.

Foi só o começo da minha história com Julian.
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Ele se sentava do outro lado da sala e gostava de desenhar enquanto os professores passavam a lição. 

Ele ia muitas vezes à sala da diretoria por coisas assim, mas nada além de advertências. Julian não mexia com ninguém, só ficava fechado em seu mundinho de desenhos.

No meu primeiro aniversário sendo amigo de Julian, ele me deu um desenho numa folha de caderno pautada de alguma animação que eu não conhecia. O desenho não era muito bom, o rosto estava assimétrico e os olhos tortos, mas ele pareceu feliz e orgulhoso por me dar um presente. Eu sabia que a família de Julian não tinha muitas condições, então acabei ficando feliz por tabela. 

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Eu nunca tinha ido até a casa dos Souza. Julian não me convidava e eu achava que seria inapropriado pedir para ir até lá. Além disso, mamãe achava perigo pelas taxas de criminalidade naquele bairro. 

A primeira vez que fui até a casa dele foi logo após o que aconteceu com sua mãe. Ficava em uma rua sem saída, perto de um lugar que, descobri mais tarde, era uma boca de fumo.

Lembro de achar que a casa tinha um leve cheiro de mofo e acho que havia algo apodrecido na cozinha. A água estava com gosto estranho e o copo era um daqueles de requeijão. 

O pai de Julian tinha um olhar triste. Eu o vi poucas vezes antes da tragédia, mas sempre achei ele meio sisudo, meio caladão. Parecia muito com o Julian, mas tinha cabelo preto. Ou o Julian se parecia com ele. Não sei. 

O irmão dele, José, era um sujeito um pouco mais velho e bem alto que estudava numa escola perto da nossa. Tinha os traços do pai, mas a beleza da mãe. Confesso que senti um pouco de medo dele, pois às vezes eu o pegava olhando para mim, como se estivesse à espreita. Mesmo depois da situação toda com a mãe deles, parecia que havia algo de errado com aquele garoto. Tinha o olhar ferino, malicioso. 

A mãe deles, Marta, era uma senhora boazinha que buscava Julian na escola e sempre apertava minhas bochechas. Tinha as palmas das mãos quentes. Cheirava sempre a farinha de trigo, o que me fazia pensar que ela assava pães, mas posteriormente descobri que estava errado. Seus olhos eram cor de mel e, se não fosse pela pele meio envelhecida por excesso de exposição ao sol e aquele corte de cabelo horroroso, acho que ela poderia ser uma modelo. 

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Oi, pessoas, espero que vocês gostem da minha história.
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