"O amor não é o que esses poetas idiotas como McKuen querem que você pense que é. O amor tem dentes; morde; as feridas nunca cicatrizam. Nenhuma palavra, nenhuma combinação de palavras pode fechar essas mordidas de amor."
-O corpo (Stephen King)
🍇🍇🍇
Julian demorou a chegar, mas enfim apareceu. Já eram quase dez horas.
Ele parecia tão lindo. Tingiu o cabelo de preto e deixou a barba crescer um pouco. Aquela visão passou a ser uma das minhas coisas favoritas.
Ele era esquisito. E sexy. Tudo ao mesmo tempo.
Como seria maravilhoso...
Senti tanta vontade...
Céus, eu estava igual um maldito cachorro no cio.
Fiquei ansioso enquanto o esperava chegar até minha casa e bebi um pouco. Talvez um pouco demais.
"Oi", ele falou
"Oi", respondi, soltando um arroto sem querer, por causa dos refrigerantes "meu Deus, perdão"
Ele só balançou a cabeça.
Ficou um clima meio sem graça.
"Você quer entrar?"
Ele envolveu um braço em volta do meu ombro e voltamos para dentro de casa.
Ele falava próximo a meu ouvido, por causa dos sons altos dentro de casa.
Ouvir sua voz rouca mexia com meus sentidos.
Comemos e bebemos pelo resto da noite. Bebemos um pouco demais. Acho que Julian percebeu que eu estava meio alto já, porque me envolveu em seus braços e disse que me levaria até meu quarto, embora ele mesmo estivesse quase tão bêbado quanto eu.
Às vezes nós tropeçávamos pelos corredores.
Meu coração palpitava forte. Senti um calor de súbito ali, sentindo o toque quente da pele de Julian contra a minha. Havia algo de erótico naquilo.
Era a maldita bebida. Bastava tomar alguns goles para sentir vontade de arrancar a cueca.
Chegamos no meu quarto. Ele me deitou na cama.
"Tá tudo bem agora, pode dormr"
Tirou meus sapatos e meias.
"Tá muito calor aqui dentro", falei, mal conseguindo formular a frase.
Ele abriu a janela.
"Agora dorme", disse, dando meia volta para sair do quarto.
"Julian"
Ele se virou.
"Deita aqui um pouquinho, por favor. Só até eu dormir"
Pareceu pensar no assunto e resolveu se deitar ao meu lado, tirando os sapatos antes de subir na cama.
Ficamos de frente um para o outro. À luz da lua, Julian parecia ser a pessoa mais bonita que eu já tinha colocado os olhos. Mesmo suas orelhas de abano pareciam charmosas.
"Julian"
"O quê?"
"Nada"
Queria ter dito o que sentia. Muitas vezes as pessoas passam pela nossa vida sem ter a mínima ideia de como nos afetam. A gente sempre acha que, de alguma forma, elas sabem o que sentimos, mesmo que não cheguemos a verbalizar. Quando temos a oportunidade de expressar nossas emoções as palavras não saem do jeito certo, travam na boca e enroscam até que apenas uma mísera fração dos sentimentos reais ganham vida. O resto morre na garganta, deixando um gosto amargo na boca.
Ficamos em silêncio durante algum tempo, enquanto o barulho dos carros na rua e os sons da festa lá embaixo se misturavam e faziam minha cabeça alcoolizada girar mais ainda.
Uma música que eu não reconheci de imediato tocava em algum lugar. Depois consegui identificar. Time after time da Cyndi Lauper.
Julian tinha fechado os olhos mas eu sabia que ele ainda estava acordado.
Senti meu coração pulsar firme dentro do peito.
Fechei os olhos também e me aproximei de seu rosto. Senti seu hálito quente. Segurei seu rosto com uma mão. Experimentei a maciez de seus lábios pela primeira vez. Explorei o interior de sua boca com a língua, em desespero. Como se fosse a última vez em que fôssemos nos ver. Tinha um leve gosto de gim, mas algo se sobressaía. Então, aquele era o sabor de Julian. Amoras.
Senti a mão dele tocar meu ombro, me afastando.
Abri os olhos e percebi o que havia feito.
Ele olhava pra mim. Primeiro, a confusão. Depois, compreensão. Por fim, aceitação.
"Me desculpa", falei, sentindo as lágrimas ameaçarem escorrer.
Julian me olhava, estático. Quase pensei que, daquele momento em diante, me odiaria pelo resto da vida.
Ele começou a descer pelo colchão devagar.
Subiu em cima de mim.
Então, começou a desafivelar meu cinto, as mãos trêmulas e desesperadas.
Eu não conseguia acreditar no que estava acontecendo. Parecia uma cena saída de um sonho.
Observei espantado enquanto ele abria minhas calças. Descia a cueca.
Então, ele me olhou brevemente. Acho que sorriu. Não tenho certeza.
Meu coração batia disparado, ansioso pelo que estava prestes a acontecer e meio confuso ao mesmo tempo.
Os lábios de Julian eram quentes.
Eu fiquei olhando para o teto, enquanto sentia a leve sucção do meu amigo de infância lá embaixo, pensando em quanto aquilo era bom. Muito melhor do que todas aquelas vezes em que eu tentei me aliviar sozinho.
Mordi o lábio inferior.
"Caralho!", soltei, de forma meio irracional.
Precisei me segurar para não gemer alto. Lá embaixo havia gritos e risadas, enquanto minha família comemorava. A porta estava apenas encostada. Havia algo de excitante em imaginar que poderíamos ser pegos a qualquer instante.
Era extasiante.
A língua de Julian explorava lugares sensíveis, lugares onde nem eu mesmo sabia que sentia.
Então, meu corpo se enrijeceu.
"Julian, é melhor você parar agora..."
Eu não queria que Julian parasse realmente, só estava com medo de sujá-lo.
Não tive tempo de completar a frase. Um espasmo tomou conta do meu corpo e eu senti que desmanchava dentro da boca dele.
Depois, meus músculos voltaram a relaxar, gradativamente.
Olhei para baixo, onde Julian estava limpando a boca com a mão direita.
"Você cuspiu?", perguntei, um pouco preocupado com a sujeira. Seria constrangedor explicar aquilo para minha mãe, já que ela provavelmente acharia que eu fiz aquilo sozinho em um momento de descuido.
Ele negou com a cabeça.
"Isso é nojento!", falei, rindo.
"Cala a boca!", respondeu, fingindo estar bravo, enquanto me vestia outra vez.
Eu ri.
Julian se deitou de novo ao meu lado. Sorrimos um para o outro.
Não falamos mais nada. Eu não queria me iludir. Sabia que aquilo provavelmente não significava nada para ele, que ele talvez só quisesse me consolar, já que ele me afastou do beijo. Preferi não pensar muito no assunto. Foi bom. Era só o que importava.
Logo nós dois adormecemos, com os sons da despedida lá embaixo ainda altos.
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O amor tem sabor de amoras
RomanceJulian perdeu a mãe e sente que já não é mais o mesmo. Sua sanidade se esvai enquanto conta números incessantemente. Para manter um pouco de si, se segura em seu melhor amigo, o garoto de grandes olhos castanhos. Eduardo sente algo diferente quando...
