A Solidão
Essa é Bia. Seu rosto é sério quando anda, mas se torna brincalhão quando comete um de seus típicos desastres. Era recreio, e por todos os lados havia alunos conversando, rindo e se divertindo. Para as pessoas, Bia é estranha, diferente, e não chama muita atenção. Ou, por vezes, chama atenção até demais, mas não da forma como gostaria. Ela é desastrada e ri de suas trapalhadas, o que faz as pessoas a considerarem irritante. Era como se estivesse sempre fora de sintonia com o resto do mundo.
Certa vez, enquanto andava com um copo de suco na mão, tropeçou e derrubou um pouco no chão. Só que, em vez de tentar evitar o desastre, ela exagerou e tremeu a mão de propósito, para que a situação parecesse pior do que realmente era. O suco se espalhou, e as risadas abafadas ao redor logo começaram.
"De novo aquela menina", diziam algumas garotas, enquanto reviravam os olhos. Tinham uma expressão de nojo, talvez não fosse de propósito, mas deixava Bia desconfortável. Ela logo se arrependia até de existir naquele espaço, naquela escola, naquele momento. Mas, como sempre, tentava rir da situação, como se fosse tudo uma grande piada.
O pátio estava lotado, e Bia só queria paz. Ela procurou um lugar sem ninguém, longe das risadas e dos olhares. Mas não existe isso em uma escola, não quando você é Bia. Com sua cabeça criativa, logo achou um lugar que parecia adequado. Ela se sentou no mato da escola, entre algumas árvores, sem se importar com os olhares curiosos que lhe lançavam. Ali, não precisaria lidar com ninguém, não precisaria fingir ser alguém que não era. De alguma forma, ela odiava multidões, mesmo que, ao mesmo tempo, desejasse desesperadamente fazer parte delas.
Porém, garotos irritantes a perturbavam enquanto ela comia, zombando de sua escolha de lugar. "Por que você é tão esquisita?", diziam. Para afastá-los, ela se irritou e os agrediu com a manga de sua blusa, que parecia ter botões de ferro escondidos. Quando os atingia com força, doía, e isso os fez recuar. As pessoas achavam que Bia era uma garota cruel, que gostava de ver os outros sofrerem. Ninguém entendia o que se passava dentro dela, nem se importava em tentar.
Mas o que ninguém sabia era que Bia não se importava em ser perturbada porque, no fundo, se divertia. Era uma diversão amarga, é claro, mas ao menos assim, ela sentia que existia. Ela não escolhia o mato por gosto, mas porque era o único lugar sem ninguém. Estar ali sozinha era um meio de se distanciar da solidão, mas também de se esconder dela.
Bia estava sempre sozinha. Nos intervalos, desenhava personagens que inventava ou lia livros de aventura e fantasia. Esses hobbies ajudavam a distrair sua mente, a preencher o vazio que sentia por dentro. Algumas garotas até a chamavam para sentar junto, mas, depois de um tempo, ela começou a recusar. "Por que ela recusava?", pensavam. "Que esquisita! Será que não gosta da gente?" A verdade é que Bia queria aceitar, queria muito, mas o medo de não se encaixar, de ser julgada, era maior do que sua vontade de se conectar.
Todos os dias eram assim para Bia. Ninguém sabia que ela era extremamente solitária. Não conseguia fazer amizades, não por falta de vontade, mas por ser incapaz de superar o medo. Não era só tímida, era extremamente tímida. Conversar era um terror para ela; as palavras simplesmente não vinham. "Mas por que ela agia de maneira tão esquisita? Pessoas tímidas tentam se esconder, não chamar atenção", pensavam os outros.
A verdade é que a solidão de Bia era insuportável. Ela era realmente desastrada, mas exagerava nas suas ações, tentando fazer as pessoas rirem. Queria existir, mostrar que estava ali. Mesmo que fosse de um jeito torto, ela queria se conectar, ser ouvida. "Mas por que não aceitava ficar com as garotas? Poderia fazer amizade assim."
A diferença entre estar sozinha e se sentir sozinha é que, mesmo quando você está rodeada por pessoas, se não houver uma conexão emocional, o vazio permanece. As garotas a chamavam, mas não interagiam de verdade. Não sentia que tinha local de fala, e se sentia excluída. Bia ria e zombava de si mesma para tentar não se sentir só. Mesmo que por um curto momento, rir junto com os outros a fazia se sentir melhor. Os julgamentos que a rotulavam de esquisita e metida só tinham sentido para aqueles que não a entendiam.
Um dia, algo mudou. Julia, uma garota novata que fazia amizades rapidamente, começou a prestar atenção em Bia. Vendo-a sozinha, Julia a chamou para sentar junto e conversava com ela. Era uma diferença sutil, mas para Bia, significava o mundo.
"Oi, senta aqui com a gente. Eu sou a Julia, e você?"
Julia parecia ser amigável e falante. Ela disse que já a tinha visto em uma escola anterior. Já Bia, por sempre olhar para baixo, nunca a havia visto.
"Meu nome é Beatriz", disse Bia com muita vergonha. Sua voz era baixa e trêmula. Ela se sentia nervosa facilmente ao conversar com novas pessoas. Não esperava que alguém fosse falar com ela. Sentiu até uma pontada de esperança nascer.
"Posso chamar de Bia?"
"Claro."
Bia se autodenominava "a fantasma", por parecer invisível aos outros. Ela se emocionou ao encontrar alguém que a enxergou depois de muitos anos.
No início, Bia desconfiava da amizade, mas com o tempo, começou a se soltar. A conversa fluía, e Bia sentia que finalmente tinha uma chance de ser ouvida. Em suas interações, as risadas das duas podiam ser ouvidas de longe. Bia foi ganhando novas cores, mostrando aos outros quem realmente era: uma garota divertida e engraçada, meio doidinha, mas com um grande coração.
E assim, aos poucos, Bia foi ganhando mais amigos. Marcavam de sair para se divertir, algo que ela nunca tinha feito antes. E juntos, misturavam suas próprias loucuras com as dela. Sua solidão começou a desaparecer, e ela percebeu que, mesmo que fosse esquisita aos olhos dos outros, sempre haveria alguém disposto a vê-la além das aparências. Não é porque você tem um jeito estranho de fazer as coisas, que é pior que os outros. Não é porque você tem algo de diferente, que não é capaz.
A sua diferença é o que te faz único e especial. Bia entendeu que podia ser ela mesma e se abrir com alguém, mostrar a verdadeira forma de seu coração. E assim como ela, você também pode encontrar sua Julia. Seja encontrando uma pessoa que te entenda, ou seja você se tornando uma Julia. No final, o que realmente importa é a beleza do seu coração.
User: TERUUUU01
