MEMÓRIAS
SESSÃO DE TERAPIA
O INÍCIO
- Olá, me chamo Eva Lins, tenho 27 anos e fui casada há 10 anos. Eu morava no interior e conheci Luke Spencer em um rodeio, ele estava na arquibancada assistindo à apresentação com alguns colegas e pessoas de sua família que eram da região. Naquele tempo tudo aconteceu de maneira rápida. Nos envolvemos depois do evento e passamos a nos falar sempre, pois eu morava numa fazenda vizinha e nunca frequentava a cidade.
- O Início do relacionamento foi instantâneo? – Perguntou, e assenti com a cabeça, pronta para continuar o meu relato.
- Tudo era novo para mim, nunca havia namorado antes. Mas meus pais não aprovaram, diziam que eu era louca por cair nas garras de um sedutor vivido que morava na cidade grande. Mas não ouvi os conselhos dos meus pais, tanto que casamos num cartório e fomos para a cidade que o mesmo morava na época. Era um apartamento pequeno, bem localizado no centro, próximo de tudo.
- O que aconteceu depois que vocês passaram a conviver?
- A realidade caiu sobre meus ombros, Luke era um homem ocupado, passou a chegar tarde do trabalho e quando questionado, o mesmo se exaltava. As brigas começaram a ser constantes. Depois de alguns meses decidi que o melhor era me separar e voltar para casa, mas meus pais com certeza não me aceitariam de volta e eu dependia financeiramente dele.
- Você não fez nenhuma amizade no prédio onde morava, ninguém lhe visitava?
- Eu sempre fui antissocial, mas me esforcei a sair de casa algumas vezes e fiz alguns amigos, mas ninguém se metia na nossa relação. Eu evitava falar da minha vida pessoal, não queria que os outros fofocassem sobre a nossa vida na época.
- Vocês passaram 10 anos juntos, não pensavam em ter filhos, formar uma família?
- Várias vezes, mas o sonho era somente meu. Quando eu tocava no assunto, Luke desconversava. Dizia que era cedo, deveríamos focar no trabalho. Isso se repetiu por 5 anos, até que resolvi deixar para lá.
- Então, seu ex-marido não concordava em ter filhos, e você tem alguma profissão, se formou em algo? – Aquela pergunta me fez refletir. Eu vivia em função de Luke e basicamente esqueci que existia, então as vezes me envergonhava de dizer que eu só comecei a viver depois do divórcio.
- Na época eu não pensava nessas coisas. No interior, nós mulheres éramos criadas para viver em função do marido. Então eu passei 10 anos da minha vida apenas sendo uma simples dona de casa.
- Entendo. Quando começou a notar que estava sendo traída?
Ouvir aquela palavra ainda me causava certa ânsia, pois jamais imaginei que Luke fosse tão canalha. Poderíamos ter resolvido nossos assuntos e ficaríamos livres para viver a nossa vida, mas ele era tóxico. Gostava de ter o controle!
- Em uma noite chuvosa, eu estava o esperando para conversarmos sobre a visita que faríamos aos meus pais. Quando ouvi barulhos no apartamento ao lado. No começo eu pensei que não era nada, mas depois ouvi um grito alegre e o nome dele foi citado. Estranhei, nós não conversávamos muito com os vizinhos.
- Então ele se encontrava no apartamento ao lado?
- Sim, quando eu abri a porta do nosso apartamento, ele estava se despedindo da vizinha de um jeito bem caloroso.
- Vocês brigaram?
- Eu não quis me desgastar, apenas arrumei as malas e fui embora. Ele veio atrás de mim querendo se explicar e lhe dei um tapa no rosto. Estava com raiva, por sempre me fazer de esposa troféu, enquanto estava na farra, se exibindo para as outras.
- Existia outras? – Perguntou, seu tom era surpreso.
- Os dias passaram e eu consegui abrigo na casa de uma amiga que conheci por acaso no mercado. E ela me incentivou a descobrir tudo, pois eu precisava de provas concretas para dar entrada no divórcio.
- Ele se negou a dar sua parte?
- Sim. O apartamento era dele, foi herança da avó. Mas existia outras propriedades que o mesmo adquiriu depois do nosso casamento.
- Então presumo que não foi um divórcio amigável. Em algum momento ele pensou em reatar?
- Não foi. Muitas vezes, mas recusei todas as audiências de reconciliação. Não queria mais viver a vida de antes. Meus pais estavam certos quando me alertaram no passado. Eu não deveria ter perdido 10 anos da minha vida com alguém que não me valorizava.
- Mas depois do processo, você conseguiu seguir adiante?
- Sim, com ajuda da minha amiga, ela me ajudou a conseguir um trabalho e com o dinheiro, estudei e entrei para uma universidade.
- O que cursou?
- Fotografia, dentre várias pesquisas, esse curso foi o que mais me agradou. Comprei uma máquina fotográfica e passei a fazer fotos de lugares, da minha casa e até mesmo de mim mesma. Coisa que nunca fazia quando era casada.
- Então pode se dizer que a separação lhe fez bem?
- Sim, confesso que nos primeiros meses foi difícil viver sozinha. Sentindo aquela dependência emocional, mas com a ajuda da Ane, eu consegui superar e seguir em frente.
- O que decidiu fazer com sua parte do divórcio?
- Comprei uma casa de veraneio, perto do mar. Quando era casada, nunca podia ir porque ele era muito ciumento e não queria que ninguém me visse em trajes de banho. Então resolvi adquirir essa propriedade mais que merecida.
- Então posso notar que você está bem satisfeita com sua nova vida. Sugiro que use sua nova profissão para criar novas memorias.
- Como assim? – Perguntei, sem entender.
- Pegue um álbum, faça fotos, cole-as nele. Sinta o poder da lembrança que um dia você terá ao ver esse álbum mais adiante.
O conselho era bom, talvez eu fizesse exatamente isso, pois agora eu era livre para viver o que eu sou de verdade. Sem ninguém ditando sempre o que eu teria que fazer.
Ane sempre me disse que quem vive de passado é museu, então tudo o que farei daqui por diante são novas memorias.
User: BarbaraDark_
