Vivi Dalbo

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Um novo começo

Tinha alguma coisa errada. Noah sabia disso em seus ossos. João Pedro nunca o chamou para almoçar nesse um ano de namoro. E justamente hoje, depois de uma semana tensa com brigas, não era um bom sinal. Ele tentou se preparar psicologicamente para qualquer coisa que viesse.

Ele olhou para a fachada do restaurante e depois olhou de novo para o endereço que o namorado mandou via whats. Não parecia em nada com um lugar que JP iria. Deu de ombros, pagou o uber e pisou na calçada ajeitado a roupa.

A porta do lugar tinha aqueles sinos que tilintam quando alguém entra. E rapidamente um jovem sorridente estava na sua frente. Magro, alto, com um sorriso brilhante e lindos olhos castanhos cor de mel.

– Olá, sou o Lucas, mesa para um?

– Prazer, Noah. Na verdade, estou esperando alguém. – Noah olhou em volta procurando João Pedro e não vendo completou... – Mesa pra dois, por favor.

Lucas o levou para um canto do restaurante onde tinha uma pequena estante de livros e uma janela que dava para um jardim de inverno muito aconchegante.

– Pode ler qualquer livro enquanto espera. Você quer alguma coisa? Um chá? Suco?

Enquanto Lucas falava, Noah dava uma olhada no cardápio. Era um restaurante vegetariano. Olhou em volta mais uma vez e percebeu a decoração alternativa, meio hippie e sorriu. Isso não era nada do que JP gostava. Como ele marcou um almoço aqui estava fora de sua mente.

– O que você sugere?

Lucas pensou um pouco. – Você parece um pouco ansioso. Quer um kumbaya?

– Um o que? – Noah nunca ouviu esse nome antes. Percorreu discretamente o menu de novo procurando uma dica.

– Um kumbaya. É um fumo feito de flores. Tem camomila. Seria bom para seus nervos.

Noah não era fumante. Mas, de repente resolveu aceitar. – Ok, vou tentar. Mas, já aviso que nunca fumei antes.

– Tudo bem. Eu te mostro

Alguns minutos depois o rapaz voltou com um cachimbo marrom rústico e um potinho com as flores secas. O cheiro das ervas era maravilhoso. Ele colocou um pouco no fornilho, riscou um fósforo e deu uma puxada. Passou para Noah. – Agora é só puxar. Se apagar você acende de novo. Tem uma certa arte em fumar um cachimbo. Não deve ter pressa. Aprecie o sabor, o aroma. As baforadas. – Ele sorriu quando Noah puxou e tossiu. – Calma. Vai devagar.

Depois de cinco minutos Noah estava fumando como um profissional. Olhou em volta com medo de olhares reprovadores. Os frequentadores não perderam um minuto em encara-lo. Então ele ficou mais relaxado.

Então ele andou até a estante de livros e olhou os títulos: "O Dilema Vegano", "A política sexual da carne", "Gosto superior". E vários títulos sobre permacultura e ativismo ecológico. Pegou um deles e voltou para sua mesa.

Vinte minutos depois, como JP não chegava ele resolveu pedir a comida. Pediu uma dica de Lucas e comeu uma deliciosa Paella vegetariana. Lá pela metade da refeição João Pedro apareceu. Cara fechada. Dando passos marciais até chegar na mesa do canto onde Noah estava comendo.

– Que lugar horroroso é esse, Noah? – João Pedro franziu o nariz como se tivesse sentido cheiro de lixo.

– Uai, você que mandou o endereço. – Noah mostrou a mensagem. E João Pedro deu de ombros.

– Lugar de maconheiro, credo. Nem vou me sentar. Só vim dizer que acabou. Eu sei que você tinha planos de vir morar comigo no mês que vem. Cancele. Estou vendo outra pessoa. – Ele alisou o paletó como se só de estar naquele ambiente o tivesse sujado.

Noah já sabia o que estava por vir e só balançou a cabeça. – Tudo bem. Você tem certeza? Fizemos um ano semana passada. Porque essa mudança súbita de pensamento.

– Só percebi que não éramos compatíveis. – JP olhou em volta. – E eu tinha razão. – Seu olhar pousou no cachimbo. – E quando você ia me contar que era drogado, meu Deus, só decepção. Adeus Noah. – João Pedro virou subitamente e foi em direção a porta.

Noah olhou João Pedro sair do restaurante meio sem entender nada. Lucas observando o desenrolar dos acontecimentos foi para a mesa do cliente.

– Era esse idiota que você estava esperando?

– Sim. – Noah disse meio sem cor.

– Seu namorado?

– Agora, ex-namorado. – disse um Noah ainda abalado.

– Hmmm... .então, tudo bem se eu der meu número.

Lucas sentou na mesa de Noah e puxou um cartão do restaurante do avental junto com uma caneta. O restaurante estava quase vazio, sinalizando que o serviço de almoço estava quase no fim. Com um sorriso inabalável Lucas estendeu o cartão com seu telefone no verso.

– Se você esperar um pouco eu já já saio do serviço. Podemos tomar um café ou um sorvete. O que você acha?

– Eu tinha tirado o resto do dia de folga. Então, tudo bem. Acho uma ótima ideia. Vou pagar a conta e te espero na frente.

Ele saiu e sentou numa das mesinhas na calçada pensando em como tudo mudou nos últimos minutos. Ele estava praticamente se mudando para a casa de seu namorado, e de repente, não tinha mais namorado, nem casa; já que tinha dado o aviso para a dona do seu apartamento que iria devolvê-lo no final do mês. Noah começou a revisar tudo que ele precisava fazer para salvar o naufrágio que tinha virado sua vida e tentar manter a cabeça na superfície sem se afogar.

Estava tão imerso em seus pensamentos que não percebeu quanto tempo tinha passado. Uma mão pousando em seu ombro o tirou dos devaneios que sua mente agitada o tinha jogado.

Noah ergueu a cabeça espantado. Deu de cara com aquele sorriso lindo e olhos brilhantes e sorriu também. É... sempre que o Universo tira um bocó da sua vida envia um anjo no lugar.

Ele segurou a mão estendida de Lucas e levantou. – Então, que sorveteria incrível é essa que você quer me mostrar?

– É um lugar maravilhoso, com opções veganas. Aposto que nunca tomou um sorvete vegan. Vai ver como é gostoso e não perde nada para o convencional.

E seguiram de mãos dadas pela calçada. Uma coisa que Noah nunca tinha feito com JP nesse um ano de namoro. Passear de mãos dadas. Isso o fez pensar se não tinha feito uma confusão sentimental. Se só ele estava, realmente, comprometido no relacionamento. João Paulo sempre pareceu ser sincero, mas... É como dizem... quem vê cara, não vê coração.

Fim.

User: vividalbo1

Primeiro Desafio de EscritaHistórias para pegar e não largar. Descubra agora