Rachel Almeida

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Dois lados

O sol estava se pondo, eram 5:30 da tarde. Era inverno e o ar do escritório estava forte, mesmo com o casaco e o café amigo, sentia frio. Não tinha terminado as demandas do dia, o trabalho estava uma semana atrasado graças à droga do sistema. Não era minha culpa, mas quem se importava? Dane-se. Fechei o software e enfiei o dedo no power, empilhei os papeis de amanhã, e arrumei a mesa. Tudo na bolsa, levantei para deixar os relatórios na chefia, e parei no corredor. Parava todo dia, a vista era incrível! As janelas de vidro, do teto ao chão, deixavam ver um trechinho de mar no horizonte. Senti uma mão no ombro.

— Alice, que cara esquisita é essa? — era Bárbara, trabalhava comigo, simpática, terapeuta holística nas horas vagas e concursada.

— Nada — coloquei um sorriso profissional, éramos colegas, eu acho. — Hora de ir.

— Ah, mas hoje é sexta, vamos no Shanningan's com a gente? Carolina e Marcos vão também, e o pessoal do jurídico. — resumindo, a elite moradora da zona sul ia.

— Acho que não, Alice, estou tão cansada. — eu tinha 28 anos, não sabia que outra desculpa dar — Mas semana que vem, vou. — sempre semana que vem.

A mulher fez um bico torto, por um momento, acho que ela já tinha notado que semana que vem nunca chegava. Era um bar caro demais, que abria tarde demais para quem não podia demorar, nem gastar demais. Moro há 4 horas do trabalho, em outro município! Não tinha como acompanhar aquele ritmo, não tinha roupa nem cartão para aquilo.

Bárbara me deu três tapinhas no ombro e ajeitou a cara.

— Que pena, ne? Mas semana que vem você vai mesmo. — disse e saiu, com seus saltos finos, vermelhos.

— Claro...

Voltei pra mesa e peguei a bolsa, não havia para quem dar tchau, não se fazia isso na empresa: Interagir. Na porta do RH eu parei e enfiei a cabeça lá dentro, Fabiano já tinha ido embora, poxa... ele sim era meu amigo, mas ninguém sabia. Ele e a Cat, de T.I. eram minha inspiração para sair da cama e atravessar a cidade, todo dia, eles e os boletos.

Desci os 12 andares para o saguão majestoso de mármore cor de rosa e porcelanato. Já estava acostumada, mas aquele lugar, as pessoas e todo o contexto me faziam sentir tão pequena e ridícula. Já na rua, eu não tinha qualquer animação para andar os dois quarteirões até o metrô. Suspirei, eu não queria ir pra casa. Mas que merda de vida.

Atravessei a rua e caminhei em direção a praia. As pessoas passeavam com seus cãezinhos de casaco; os bares, animados, derramavam música na calçada e as luzes, mornas, convidavam todos a ficar, sentar, se divertir. Mas me causavam tristeza.

Era inverno e estava frio, mas o mar era sempre incrível. O céu laranja completava a visão. Sentei em um dos bancos à beira-mar, Copacabana nem era minha praia favorita, mas isso não importava muito. Bárbara estaria fazendo piadinhas agora? Ou comentários condescendentes sobre ela morar longe, sobre nunca almoçar com eles, sobre repetir roupas, sobre ser diferente, "tadinha". Suspirei de novo, me encolhi sob o casaco e peguei o celular, tinha uma lembrança do Google... Amy... Amy e eu.

Now that she's back in the atmosphere

Agora que ela esta de volta a atmosfera

With drops of Jupiter in her hair

Com gotas de Júpiter em seu cabelo

She acts like summer and walks like rain

Ela age como o verão e anda como a chuva

Reminds me that there's a time to change

Me lembra que há tempo para mudar

Since the return of her stay on the Moon

Primeiro Desafio de EscritaHistórias para pegar e não largar. Descubra agora