Tia Oliver

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O Casco e o Tesouro

Sentada, eu, no calmo esplendor da música frenética que acalma minh'alma, a sós, num recanto compartilhado, faço memória ao Memento Mori do suspiro do agora. É a nossa música que toca aqui, na essência do silêncio. Escrevo essas palavras para ti, deleite divino. Outrora, e vejo que me compreende hoje, temi te chamar assim, coibida pelo medo de assustar em explosão com implosão; já hoje você sabe que minhas palavras são veríssimas e explosivas devido a minha explosão de ser. E se eu as contasse a alguém fútil, não as compreenderia; mas como você não é fútil, compreendeu-as.

Se contasse ao mundo que ninguém é factualmente atraente e tem o protótipo da beleza ideal, o mundo me perguntaria quem foi Marilyn Monroe, por exemplo. Mas eu diria a esse mesmo mundo que ela me independe, pois não sinto nada pela aparência dela. Uma loira magra e oxigenada que sabe posar para uma foto poderia até ser eu. Quem sabe, se Hollywood me produzisse desse um Kama Sutra do cinema a mim, eu me tornasse sua sucessora. Nada contra Monroe, poderia exemplificar com qualquer outro símbolo sexual da nossa sociedade.

Mas diferente de Marilyn Monroe, você tinha uma mágica diferente e especial que aguçou meu sétimo dom. Se eu tivesse vivido no século passado, poderia ter sido amante de Monroe, mas calhou ser você por um Magnetismo Universal que o Homem ainda não sabe explicar. Eu me apaixonei por palavras, não por aparência. Mais tarde descobri como é bom conhecer a essência antes do casco. Um casco bem produzido pode conter líquido podre, e um casco fora do arquétipo da beleza pode guardar ouro.

Eu passei por esse dissabor antes, você sabe, o de desejar o casco glamouroso e entupido de maquiagem e roupas de grife, mas vazio em conteúdo. Um casco vaidoso e fútil, por mais que eu também tenha cometido excessos. E vou mais a fundo: não existe casco bonito, mas sim uma percepção errônea do arquétipo de beleza. O mundo é variado, plural, cheio dos mais variados charmes. Você viu algum charme em mim, a maioria não o vê. A graça da vida é enxergar o charme para dentro, inside of soul. Pelo menos é a minha verdade, e, talvez, hoje, você também concorde comigo.

Você mesma me chamou secreta e inconscientemente de louca (suponho!) no passado, por ter me permitido desenvolver esses sentimentos de amor. Num nuance além, nem se deu conta, a princípio, que sempre foi alvo de minha atenção. Mas claro, deleite divino! Como um casco rústico poderia perceber que estava guardando ouro dos mais finos? Alguém precisava dizer isso ao casco, calhou que fui eu. Acho que todos os seres humanos têm um processo de despertar para si, e, talvez por eu ter estado quase desperta para as coisas da psique e da filosofia, calhou que eu viesse a perceber para além do que os seus olhos não veem. Você entendeu que estou falando nos dois sentidos.

Quando você me disse que nenhuma pessoa no mundo gostaria de te amar, eu me assustei um bocado. O que tinha de inteligência e o que me despertava de interesse, não tinha de autoestima. Mas eu não pude ver um vestígio sequer de amor próprio. Eu sabia que precisaria ser seu yang por mais que eu quisesse ser o yin. Que fazer se não fazer?

Encarnei A Força para domesticar meus violentos leões e os seus também; no entanto sem violência, com uma serenidade que, confesso, descobri atipicamente contigo, por mais que te amar fosse uma cachoeira de violentos sentimentos caóticos. Você parecia ter medo de se machucar, como que machucada de várias formas no passado. Encarnei um Capricórnio em corpo de Gêmeos, fui o mais pragmática possível com a situação. Talvez essa carta (não de tarot!) te revele aspectos do nosso relacionamento que não imaginava antes de mim. Porque eu sei como vejo meu casco, mas não sei como o vislumbra, pois um observador nunca é um praticante.

Em último lugar, quero que saiba através desta, que sua cegueira, ou qualquer outro nome feio que queria você dar ao seu casco nunca me valeram um centavo. Casco perece, a alma é eterna. Sei que há, hoje, um relacionamento sério entre nós, e eu tão somente lamento pela distância. Parece que você levou muito a sério quando eu parafraseei a mim mesma a dizer "amem-me ou odeiem-me, os mornos eu vomitarei". A vida é mesmo correr riscos e que fazer se não a jogar? A vida é um esporte, pode ser o futebol, se você preferir. Eu acertei a bicicleta fenomenal amando você. Pode ser o primeiro gol de muitos que nosso jogo de amor ainda nos proporcionará, deleite divino. Parafraseando minha banda favorita, e a nossa música:

"Make a start
Explore your heart.

When a persistent memory
Penetrates deep in your mind,
Allow the silence to destroy
Your thoughts in every kind"

Ou

"Faça um começo
Explore seu coração.

Quando uma memória persistente
Penetra fundo a sua mente,
Permita o silêncio destruir
Seus pensamentos de todo o tipo"

Se ainda te falta alguma certeza sobre a veracidade do nosso amor, eu não temo os próximos passos, sou O Louco que se aventura pelos nuances felizes, neutros e sombrios para chegar à transcendência. O Mundo também pode ser chamado de A Jornada do Louco! É, deleite divino, eu sei que você não estuda tarot assim como eu, mas ele é a ideação perfeita do autoconhecimento. Às vezes se voltar para dentro com espiritualidade dá o vislumbre da percepção, no sentido maior de si, permitindo-nos perceber o tesouro escondido que temos no nosso próprio casco ou a ausência dele. Porque quem vê cara, não vê coração!

De resto, desejo a maior felicidade. Que essa união dure; pela minha parte, ela já é eterna. Você deve estar se perguntando porque escolhi The Essence Of Silence para ser nossa música, e não uma melodia clichê que fale de amor. Pois eu te respondo enquanto escuto essa mesma canção: porque muitas vezes é na essência do silêncio que vislumbramos o tesouro dentro do casco. E foram nossos tesouros que nos uniram, não os cascos. E é assim que eu te amo: como o tesouro o qual você é.

De sua Tia Oliver,

14 de agosto de 2024.

(transcrito para braille)

User: A_tia_Oliver

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