Amor amaldiçoado
Ao despertar com a alvorada, diante do véu matinal que envolvia a Serra do Mar em um manto celeste, a luz suave dançava entre as folhagens da floresta tropical. As árvores ancestrais, imponentes, pareciam murmurar os segredos mais antigos da humanidade, enquanto a atmosfera vibrava com uma energia que poucos poderiam sentir.
No coração dessa selva verdejante, em uma caverna oculta adornada por cristais brilhantes, Giovanni, um jovem mestiço de dragão, despertava com os primeiros raios de sol que invadiam a entrada de seu lar. Seus olhos, de um profundo tom de violeta, eram salpicados pelos raios dourados da manhã, revelando um brilho ansioso. Era um dia especial, pois hoje seria o dia em que ele se declararia para seu amado, um humano de beleza celestial e sorriso enigmático.
Ele se levantou, os músculos poderosos e as escamas brancas com penas azuis cintilando à medida que se preparava para descer a montanha. Cada passo fazia o chão tremer suavemente, e o som do vento entre as folhas entoava uma sinfonia repleta de promessas e esperanças. Giovanni respirou fundo, sentindo o frescor da manhã invadir seu peito, embora isso não aliviasse sua ansiedade crescente. Após certificar-se de que estava apresentável, começou sua descida.
Em sua mente, o jovem dragão se perguntava se, o amor poderia ser tão imortal quanto prometido. Será que teria a chance de ver o sorriso de seu amado voltado para ele? Seria o amor que nutria há anos correspondido? O desejo por uma eternidade juntos poderia se tornar realidade? Mesmo preso em dúvidas e incertezas, ele seguiu determinado pelo longo e sinuoso caminho, cada passo o aproximando não só fisicamente, mas também emocionalmente de seu destino.
Após uma hora de caminhada, agraciado pela bela paisagem e pela presença dos doces animais que o saudavam, Giovanni finalmente chegou à entrada da aldeia.Parou por alguns instantes para acalmar o coração ansioso, limpando o suor das mãos na pele amarrada à sua cintura. Respirou fundo e colocou uma máscara de serenidade no rosto. Ele adentrou a vila exalando determinação e logo começou a procurar por seu querido Alexandre, enquanto passava cumprimentando alegremente os aldeões, que lhe respondiam com a mesma emoção. Depois de horas de uma frustrante busca sem sucesso, Giovanni decidiu pedir ajuda a alguém. Avistando um grupo de crianças, aproximou-se e disse:
— Olá! Tudo bem? Algum de vocês poderia me ajudar?
Parando de correr, uma garotinha se aproximou dele, com um enorme sorriso.
— Claro, senhor Gio! O que aconteceu?
— Ah, para! Não me chama de senhor, porque eu sinto que tô velho...
A garotinha soltou uma risada infantil tão doce e contagiante que até ele começou a rir, antes de dizer:
— Enfim, você sabe onde o Alexandre está?
— Você tá me procurando?
Uma voz grave e melodiosa soou atrás de Giovanni, arrancando-o da conversa e fazendo-o pular de susto. Ele se virou rapidamente, o olhar abismado se fixando na figura que estava perto demais, tão perto que sentiu o calor subir ao rosto. Era o jovem de cabelos cor de ébano, aquele que sempre o fazia sorrir de maneira boba. Ele estava parado à sua frente, com um sorriso divertido nos lábios. A proximidade inesperada fez Giovanni dar um passo para trás, e o mundo ao seu redor pareceu girar, dissipando todos os seus pensamentos em um instante.
— É-É, e-eu... queria conversar c-com você em particular...?
Ele falou, incerto, sentindo o rosto queimar ainda mais ao perceber a própria gagueira.
"Que fofo..."
pensou Alexandre, ignorando o desconforto evidente do mais baixo. Cruzando as mãos atrás de si, ele se virou, fazendo um gesto com a cabeça para que Giovanni o seguisse. Este, ansioso, quase tropeçou no próprio pé, mas conseguiu igualar os passos de Alexandre, ignorando as risadas das crianças que haviam parado para assistir àquela breve interação.
