Dourado. Verde. Castanho. Azul.

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Engfa tinha o sono leve, e qualquer pequeno barulho a acordava. Ela levantou minimamente seu corpo, os olhos semicerrados, tentando entender de onde vinha aquele barulho. Ela olhou ao redor do quarto escuro, a cortina preta e pesada cumprindo seu papel de evitar a entrada da luz do sol. Era seu celular?
Não. Seu toque de chamadas e despertador eram diferentes.

Um segundo toque ecoou, e foi o necessário para sua compreensão. Era a campainha. Ela nunca havia escutado o som de sua própria campainha desde que havia se mudado, a única pessoa além dela que aparecia no seu apartamento era Aoom, e a mulher sabia a senha, portanto nunca precisou fazer o uso do aparelho.

Ela levantou da cama cambaleando, sua mente ainda meio adormecida, saiu do quarto e foi em direção a porta. Seu corpo estava pesado, como se o período dormido não fosse o suficiente. Quanto tempo havia sido? Ela nem sabia que horas eram.

Ela abriu a porta da sala e sentiu seu corpo inteiro se agitar.

"Bom dia, vizinha!" A voz infantil a cumprimentou, um sorriso brilhante. Malee e sua mãe estavam bem ali na sua porta.

Engfa piscou os olhos rapidamente, sentindo-se primeiro confusa, e depois totalmente alerta. A mulher estava ali para a acusar mais? Já não bastava a noite anterior? Ela se encolheu, lembrando o constrangimento que passou na loja de conveniência.

Quando a mulher saiu com a filha nos braços depois de gritar com Engfa, todas as pessoas na loja se viraram pra ela e os cochichos começaram. Ela esqueceu-se completamente da fome que estava sentindo e saiu depressa do local.

"Bom dia." A voz aguda da mulher ressoou, sem a encarar.

Ela estava com os cabelos soltos, e olhando de perto, na luz da manhã entrando pela janela no fim do corredor, Engfa pôde perceber que os fios tinham tons acobreados, e o rosto emoldurado pelos fios eram... Engfa talvez nem soubesse explicar. Haviam sardas que ela não havia percebido antes, seu nariz tinha a ponta afinada, seus lábios em formato de coração. Engfa sentiu o  próprio coração acelerar, um súbito e louco desejo de tocá-los e verificar se eram tão macios quanto pareciam.

Ao olhar mais detalhadamente aquele rosto, Engfa teve certeza de uma coisa: aquela mulher que a detestava era a pessoa mais linda que ela já tinha visto. Não, a palavra linda não era a adequada.

Acostumada a trabalhar com modelos de todo o país e até mesmo de fora, ela já havia visto rostos medíocres, bonitos e lindos, mas aquela mulher não se encaixava em nenhuma dessas categorias. Seu rosto, sem qualquer maquiagem, era simplesmente perfeito, como se tivesse sido desenhado e redesenhado até atingir a excelência.

Talvez Engfa tenha levado tempo demais encarando a mulher, porque a menina ao seu lado chamou sua atenção.

"Vizinha!" Ela exigiu, sua voz com um traço de impaciência. Engfa desviou o olhar da mulher e o direcionou a criança.

Com uma blusa rosa com estampa de cachorro, uma calça moletom verde com lantejoulas e nos pés crocs tom anil, a menina parecia um arco-íris ambulante. Na noite anterior, seus cabelos estavam trançados, mas agora estavam em dois coques pequenos, presilhas coloridas de frutas completando o visual.

"Presente." Ela sorriu com os dentes brancos e estendeu as mãos. Ali, nas pequenas mãozinhas, havia uma caixa de tamanho médio, fechada com um laço rosa.

O quê?

Engfa olhou para a caixa, para a criança e então para a mulher.

Parecendo sentir sua confusão, a mulher falou gentilmente com a filha. "Diga o que é, Malee."

"Cookies." A menina exclamou, balançando a caixa. "Nós duas fizemos. Mas fui eu quem colocou as gotas de chocolate!" Suas palavras demonstraram orgulho, dando ênfase no seu trabalho.

Quando Engfa não fez nenhuma menção de pegar a caixa estendida, ainda completamente perdida com a situação se desenrolando na sua frente, tentando decidir se era um sonho ou realidade, a mulher falou mais uma vez.

"É um presente pra você. Por favor, aceite." Suas bochechas ficaram levemente coradas, suas mãos estavam juntas e seu corpo levemente encolhido.

Após a mulher falar, Engfa ficou ainda mais confusa, e se lembrou da história de Alice, que acordou do seu sono e então de repente foi parar em um universo pararelo. Como que horas antes a mulher estava gritando com ela no meio da loja e hoje simplesmente apareceu com cookies, dizendo para Engfa, por favor, aceitar?

Engfa, porém, não teve chance de desvendar o mistério em sua frente.

"Gato!" Malee soltou um grito alegre e estridente, empurrou a caixa de cookies para Engfa, que os segurou para não cair, e passando pela mulher mais velha (quase a derrubando no processo), entrou em sua casa.

"Malee!" Os dedos finos e longos de sua mãe tentaram segurar a menina, mas já era tarde demais.

Engfa se virou, observando com perplexidade a garotinha correr dentro de seu apartamento como se já tivesse feito aquilo milhares de vezes, indo em direção ao gato, que se espantou e correu também. Era Bombay, o gato de Aoom. O bichano estava lá havia dois dias, porque Aoom estava em Chumphon, viajando a trabalho.

"Eu..." a mulher falou novamente, e Engfa a olhou. Embora ela tenha feito uma tentativa de impedir a menina de entrar no apartamento de Engfa, ela não pareceu muito preocupada em chamá-la pela segunda vez. Ao invés disso, ela permaneceu parada, parecendo evitar o olhar de Engfa propositalmente, encarando o chão. "Sinto muito por ontem."

Naquele momento Engfa teve certeza que havia acordado em outra realidade.

A mulher continuou. "Quando chegamos em casa, Malee me explicou o que havia acontecido e como você ia levá-la de volta até mim."

Engfa engoliu em seco, sentindo a garganta áspera, a névoa do sono não totalmente evaporada, mesmo com a situação singular. Ela olhou para dentro do apartamento, onde a menina perseguia o gato, e olhou para a mulher na sua frente, ainda de cabeça baixa. Sem querer ser percebida, ela beliscou o próprio braço rapidamente, esperando que aquilo a acordasse do sonho estranho.

No terceiro beliscão, ela finalmente caiu em si. Não era sonho ou realidade paralela. A mulher que antes era aversa a presença de Engfa estava ali na sua porta pedindo desculpas.

Engfa pensou em dizer para a mulher ir embora, ignorar sua fala, a memória do vexame da noite anterior ainda fresca em sua mente. Ela abriu a boca para fazer isso, mas então tudo desapareceu da sua mente no segundo que a mulher levantou o olhar.

Dourado. Verde. Castanho. Azul.

De alguma forma, os olhos da mulher eram todas aquelas cores, uma combinação que a lembrou do espaço, como se todos os planetas e estrelas e sóis e luas estivessem bem ali, reunidos naquele olhar.

Engfa sentiu seus joelhos ficarem fracos, e com a mão livre, ela segurou no batente da porta. Seu coração acelerou, batidas irregulares, como se um baterista iniciante e inexperiente estivesse treinando ali, houve um alvoroço forte em seu estômago, parecido com um tornado. Ela sentiu a cabeça girar e quase perdeu o equilíbrio, a gravidade da Terra havia sido alterada? Engfa desviou o olhar e piscou, sentindo a visão turva.

"Vim pedir desculpas. Você aceita?" A voz da mulher fez Engfa a olhar novamente, e então toda a agitação e palpitação e alvoroço pararam de uma só vez.

"Sim." Engfa se ouviu dizendo.

Sim.

Ela aceitaria o pedido de desculpas da mulher. Engfa aceitaria qualquer coisa. Engfa faria tudo que aquela mulher ali na frente a pedisse, mesmo que ela nem soubesse seu nome.

Porque quando aquele olhar que a lembrou do universo a encarou, Engfa sentiu no seu corpo, mente, coração e alma, que estava apaixonada.

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