Engfa despertou com uma sensação de peso em seu peito, algo quente e inquieto. Ainda na névoa entre sonho e realidade, ela piscou os olhos, tentando se acostumar com a claridade ao redor. Quando sua visão ficou clara, ela encontrou Malee em cima dela, seus cabelos bagunçados e um meio sorriso no rosto.
"Bom dia, P'Fa, teerak." Malee a saudou, se inclinando e beijando seu rosto.
"Bom dia, Malee." Engfa beijou a menina, sentindo suas bochechas gordinhas e se ajustando para uma posição sentada com a criança ainda no seu colo.
"O que você está fazendo acordada tão cedo?" Engfa perguntou, olhando ao redor do quarto e notando a ausência de Charlotte. Ela franziu o cenho e então se lembrou. Charlotte tinha uma aula externa no interior da província, algo sobre a cultura alimentar de cada região.
"Não é cedo." Malee respondeu, suas mãozinhas enrolando os cabelos de Engfa nos dedos, seus olhos travessos. "Alexa disse que já são sete e quarenta."
Engfa sentiu seu coração disparar no peito. Sete e quarenta? Impossível. Ela olhou para a mesa de cabeceira procurando por seu celular, mas não encontrou, então se levantando da cama com Malee ainda agarrada a ela, começou a procurar. Não podia ser sete e quarenta. Não quando Malee deveria estar na escola às sete em ponto. Não quando Engfa havia ficado com a responsabillidade de levar a criança já que Charlotte tinha saído mais cedo de casa.
O celular estava debaixo de uma pilha de roupas no chão, os pijamas de Charlotte que Engfa havia retirado do corpo da mulher tão avidamente na noite passada. Engfa pressionou a tela e a realidade caiu sobre ela como um balde de água fria. Eram sete e quarenta e cinco agora. Malee estava atrasada quase uma hora.
"Puta que pariu." Engfa deixou escapar, tropeçando nos próprios pés enquanto corria para fora do seu quarto, indo em direção ao quarto de Malee.
"Dez bahts" Malee falou com a voz risonha.
Engfa ignorou a cobrança. Era um acordo feito não muito tempo atrás, quando Malee pegou Engfa xingando por qualquer motivo, dizendo que palavrões não eram bonitos de se dizer. Aoom, que estava por perto, disse que Malee deveria cobrar a cada pessoa que ousasse xingar perto da criança, ideia que Malee prontamente acolheu e instituiu. Agora, todos tinham cuidado redobrado, porque Malee estava atenta e seu pote de moedas já estava pela metade.
"Eu não acredito que não coloquei o alarme." Engfa exclamou, indignada com si mesma. "Charlotte vai me matar."
Um som de concordância saiu dos lábios de Malee, o que só aumentou a tensão da mulher mais velha.
A rotina delas pelas manhãs em dias de semana era muito bem estabelecida. Charlotte era acordada pelo som do despertador e Engfa era acordada pelos beijos de Charlotte. Enquanto Charlotte descia para fazer o café da manhã, Engfa ia até Malee, despertando a criança para a dar um banho e a vestir. Charlotte subia para pentear os cabelos da menina e então elas deixavam Malee brincar por dez minutos enquanto elas mesmas tomavam banho - às vezes o tempo de brincadeira de Malee se estendia para vinte ou trinta minutos, quando Charlotte ou Engfa também decidiam brincar um pouco no banho -. Então depois de estarem devidamente vestidas, as três desciam e tomavam café da manhã juntas.
Mas hoje, Engfa deveria fazer tudo aquilo sozinha.
Ela colocou a criança no chão do quarto cor de rosa e foi direto para o guarda-roupa, puxando dos cabides o uniforme. "Rápido, tira esse pijama!"
Malee obedeceu, então a mulher se aproximou e ajudou a garota, a vestindo com pressa, pensando em quão irresponsável era. Quando a menina estava vestida, Engfa olhou ao redor do quarto, localizando os sapatos pretos. "Senta na cama, vamos colocar os sapatos."
VOCÊ ESTÁ LENDO
Saving us
FanfictionCharlotte é mãe de Malee e vive em um relacionamento abusivo de onde não consegue sair. Engfa cresceu em um lar que não lhe deixou nada além de cicatrizes. O destino das duas está entrelaçado.
