Fazê-la pagar

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O sol de fim de tarde iluminava a cozinha, lançando sombras com tons dourados e quase alaranjados por todas as superfícies, a brisa suave preenchendo o ambiente pois a grande porta que dava para o jardim estava aberta, trazendo um vento fresco que deveria ser reconfortante, mas Engfa sentia sua pele úmida.

Ela estava parada em frente ao fogão, seus cabelos castanhos soltos mesmo que fizesse calor, seus braços cruzados, apenas olhando para a chaleira no fogão, esperando seu apito.

Naquele dia, ela havia acordado se sentindo estranhamente inquieta, como se durante a noite, a inclinação da terra houvesse mudado, alterando algo que ela ainda não sabia o que era. O calor oriundo das pequenas chamas no fogão apenas parecia acentuar o aperto incômodo em seu peito, uma sensação estranha que ela não entendia ou sabia nomear. Engfa havia tentado ignorar aquele desconforto durante todo o dia, mas agora, olhando para a chaleira sem nenhum motivo aparente, o sentimento pareceu se intensificar.

E não havia razão para aquilo.

Aquele era um dia raro de folga completa, sem nenhum trabalho pendente. Ela havia sido acordada pelos beijos de Charlotte, como todos os dias, e juntas seguiram sua rotina bem estabelecida, cuidando de Malee e então tomando café da manhã sentadas à mesa, aquele ato marcando o início de um dia como qualquer outro. O trajeto para levar Malee na escola também não teve qualquer adversidade, Malee comentando alegremente sobre como sua apresentação de balé estava chegando e de como ela estava praticando bastante.

Quando Engfa e Charlotte voltaram para casa e se aconchegaram no sofá, porque a mulher também não tinha nenhum compromisso, foi natural que seus corpos buscassem um ao outro. Tudo começava assim entre elas. Olhares intensos que se transformavam em toques delicados que por sua vez viravam beijos desejosos e por fim culminavam na entrega completa das duas.

Mas mesmo naquele momento de amor e prazer, com Charlotte arqueando o corpo contra o dela, ofegante e entregue, e então depois com Engfa sendo tocada por Charlotte de um jeito que fazia todo seu corpo vibrar, algo ainda parecia errado.

Engfa desviou os olhos pela chaleira por um instante, focando no calendário simples e minimalista fixado na superfície da geladeira de inox por imãs coloridos, e então, quando ela percebeu que dia era, um arrepio subiu por sua espinha.

Naquele exato momento, Engfa entendeu a razão de seu desconforto.

Três meses.

Exatamente três meses desde que ela deixou seu apartamento, segurando Malee e Charlotte pelas mãos. Três meses desde que havia assumido por completo a responsabilidade por elas, desde que prometera a Charlotte que ela nunca mais seria machucada, que tudo ficaria bem, que ela e Malee ficariam seguras.

Três meses desde que havia atravessado aquela linha invisível entre querer proteger Charlotte e Malee e então efetivamente levá-las para longe de Heidi.

O nome da mulher surgiu em sua mente como um tormento.

Heidi ficaria no Canadá por dois meses e então retornaria. Mas já haviam se passado um mês além disso. Onde estava Heidi?

Aquilo não era normal, Engfa sabia. Porque Heidi não parecia ser o tipo de pessoa que apenas aceitaria voltar para casa e não encontrar ninguém lá, não era o tipo de pessoa que aceitava ser deixada para trás.

Não, a Heidi que Engfa conhecera através de tudo que Charlotte havia contado não desistiria tão simples assim. A mulher iria atrás de Charlotte e de Malee, iria querer levá-las de volta. Porém, por algum motivo, Heidi ainda não havia feito isso.

Não que Engfa quisesse que Heidi encontrasse Charlotte ou Malee. Nunca. E Heidi não iria, na verdade. Engfa havia se certificado disso.

Engfa não queria fazer aquilo, mas depois de dias tentando chegar a uma solução, ela percebeu que não havia outra saída.

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