Charlotte Austin nunca foi uma pessoa muito ciumenta.
Era estranho, se ela fosse parar para pensar. Em como em seus relacionamentos anteriores, que foram apenas dois, ela não sentia ciúmes. Ela não se importava com quem Tor, o pai de Malee - que ela namorou durante o fim do ensino médio e o pouco tempo que ficou na faculdade - falava ou para quem ele sorria. E ela definitivamente não ligava se Heidi conversava com outras pessoas ao celular, às vezes olhando diretamente para ela enquanto fazia aquilo, talvez em busca de uma reação.
Então quando ela sentiu aquele incômodo nascendo na boca de seu estômago, parecido com o que ela tinha sentido quando conheceu Aoom pela primeira vez, mas muito mais forte, ela tentou resistir. Porque não fazia sentido ou tinha qualquer lógica. E Charlotte estava tentando ser mais racional sobre as coisas. Estava tentando porque sua psicóloga estava lhe ensinando que embora sentimentos fossem inerentes, eles não precisavam e nem podiam comandar seu corpo ou sua mente.
Mas estava sendo difícil, e a cada sorriso que ela via sendo lançado em direção a Engfa, a cada vez que a mais velha retribuía as gentilezas, a cada vez que uma daquelas modelos encostava em Engfa sem nenhum motivo ou razão aparente, apenas por tocar, o aperto em seu peito piorava e Charlotte se sentia frustrada.
E mesmo que ela não tivesse muita noção dos relacionamentos anteriores de Engfa, porque a mulher já havia dito que nunca havia namorado antes e que seus casos eram apenas de uma noite, não entrando muito em detalhes, Charlotte teve absoluta certeza de que a modelo principal daquela campanha de roupas - a que mais sorria para Engfa e a tocava com maior confiança, seus toques se demorando demais - tinha sido um desses casos de uma noite só. E também teve certeza que a mulher queria que fosse mais que isso.
Quando aquela percepção afundou, Charlotte pensou que deveria ter negado a sugestão de Meena.
Sua melhor amiga havia convidado Charlotte para o estúdio externo, localizado nos arredores de Bangkok, insistindo que mesmo que Charlotte não estivesse participando da campanha, ela poderia encorajar Meena e Engfa, e então elas poderiam se divertir assim que o trabalho acabasse.
Ela resistiu. Não que Charlotte não quisesse sair com sua família, ela as amava, mas não queria ir para Bangkok.
Desde que havia se mudado para Phatum Thani, há três meses, ela só ia à Bangkok quando precisava ir até a agência de Aoom, e nas raras vezes que aquilo era necessário - porque de alguma forma todas as suas sessões eram fora da capital e ela sabia que Engfa tinha a ver com aquilo - ela sempre ia acompanhada da namorada. Honestamente, mesmo com toda a confiança adquirida ao longo dos dias e semanas, Charlotte ainda não se sentia completamente segura ali.
Só que Meena falava doce demais, então em dois dias convenceu Charlotte. Seria bom, Meena prometeu, seria divertido. Elas iriam sair da sessão e ir para o Mercado Flutuante de Damnoen Saduak, passeariam por ali e então estariam de volta bem antes do anoitecer.
Mas agora, sentada em uma cadeira colocada debaixo de uma tenda com Malee em seu colo, que comia um maçã e balançava os pequenos pezinhos, e Aoom ao seu lado, dividindo sua atenção entre sua namorada que estava participando das fotos e o tablet em sua mão, Charlotte se arrependeu de aceitar aquilo, porque seu desconforto estava aumentando a cada segundo.
Claro, ela sabia que Engfa a amava. Ela tinha certeza sobre isso. Desde o dia que a mulher revelou seus sentimentos, aquela certeza apenas se solidificava.
Charlotte sentia o amor de Engfa em cada pequeno detalhe, em ações que a mulher mais velha talvez nem soubesse que faziam o coração de Charlotte bater mais rápido. Charlotte sentia o amor de Engfa na forma que a mulher a beijava com saudade mesmo que elas tivessem passado poucas horas longe uma da outra, no jeito que Engfa sorria para ela e deixava suas covinhas tão bonitas à mostra, em como a mulher não passava um dia sem elogiar não só sua beleza, mas sua inteligência e bondade, sua determinação e criatividade. Sentia seu amor quando Engfa a tomava e dizia que a amava olhando em seus olhos, com a voz rouca e falha; como falava seu nome repetidas vezes como em uma oração quando estavam quase alcançando o limite, e como a segurava forte depois que a exaustão as atingia.
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Saving us
Fiksi PenggemarCharlotte é mãe de Malee e vive em um relacionamento abusivo de onde não consegue sair. Engfa cresceu em um lar que não lhe deixou nada além de cicatrizes. O destino das duas está entrelaçado.
