A primeira vez que Engfa leu um livro sobre Mitologia Grega, ela tinha sete anos. Seus pés descalços e arranhados a levaram até a pequena e quase vazia biblioteca no centro da província onde morava desde que havia nascido. Ela nunca havia entrado ali, naquele espaço de estrutura simples com letreiros velhos e caídos, mas sempre passava em frente quando saia com a mãe.
Um dia antes dela entrar naquele ambiente pela primeira vez, ela havia perguntado para a mãe o que era uma biblioteca, ao que a mãe respondeu de forma desdenhosa que era um lugar onde as pessoas iam para fugir da vida real. Quando Engfa cruzou aquelas portas velhas de madeira desgastada, ela não sabia bem o que esperar, mas definitivamente não era o que encontrou.
Talvez em sua inocência infantil ela tivesse acreditado nas palavras da mãe, achando que algo ali poderia ajudá-la a fugir de todas os gritos e objetos quebrados e surras. Mas sua esperança foi destruída ao perceber que não havia nada ali além de uma senhora com cabelos brancos demais e estantes e mais estantes de livros empoeirados.
Engfa se sentiu frustrada, mesmo que não entendesse o significado pleno daquele sentimento, mas acabou ficando ali, vagando entre os livros de lombada grossa, porque pelo menos não havia gritos ou dor.
Com sete anos, Engfa já sabia ler, e quando seus olhos pousaram sobre um livro de capa dura e letras garrafais com uma palavra que ela havia escutado mais cedo em casa, ela ficou na ponta dos pés e o pegou.
Vingança.
Aquele era o título do primeiro livro que Engfa leu na vida. Era sobre Mitologia Grega, a história das Erínias, ou Fúrias, como eram mais conhecidas. Figuras mitológicas que representavam a personificação da vingança, moradoras do submundo, onde sua única função era torturar as almas pecadoras e condenadas, as fazendo pagar por tudo de ruim que haviam feito, punindo principalmente aqueles que cometiam pecados dentro da própria família, aqueles que machucavam quando deveriam proteger, odiavam quando deveriam amar.
Naquele dia, tantos anos atrás, uma semente do que Engfa reconheceu como desejo de vingança brotou em seu peito. Assim como as Erínias castigavam os maus, Engfa queria que seu pai fosse castigado, que fosse levado para longe, queria que ele nunca mais voltasse.
Aquilo, é claro, nunca aconteceu.
Engfa foi a pessoa que deixou sua casa para trás, aquela que foi para longe e nunca mais voltou. Porque em algum momento entendeu que ninguém a vingaria, e que ela própria não conseguiria fazer aquilo. Porque era fraca, porque não sabia como se defender, porque era covarde.
Durante anos, aquela semente germinou em sua alma e tomou sua mente, mas Engfa fazia um bom trabalho em empurrar aquele pensamento negativo para longe. Ela era boa enganando a si mesma, dizendo que os maus encontrariam o próprio carma. Em determinado momento da vida, depois de lutar contra si mesma arduamente, aquele desejo de vingança que nutria desde a infância apenas desapareceu como um rio que seca após anos sem chuva.
Mas Engfa percebeu tarde demais que aqueles tipos de sentimento nunca desapareciam por completo, e jamais poderiam ser comparados com algo tão calmo quanto um rio. O desejo de vingança era como um vulcão, que poderia ficar adormecido durante longos períodos de tempo, mas que bastava uma única movimentação para que entrasse em erupção.
A sede de vingança de Engfa ressurgiu depois de anos, mas agora direcionada a outra pessoa que não seu pai, direcionada a uma pessoa que nunca havia feito nada para ela, mas que mesmo assim, ela odiava profundamente porque havia machucado as pessoas que ela mais amava no mundo.
Sua vingança era direcionada para Heidi.
Aquela mulher miserável era a razão da raiva de Engfa, era o motivo do ressurgimento de sentimentos que Engfa tentou afastar a vida inteira, era o porque ela tremia de fúria naquela noite chuvosa.
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Saving us
FanfictionCharlotte é mãe de Malee e vive em um relacionamento abusivo de onde não consegue sair. Engfa cresceu em um lar que não lhe deixou nada além de cicatrizes. O destino das duas está entrelaçado.
