Engfa e Charlotte estavam com as mãos entrelaçadas na frente do portão de ferro da escola de Malee. Já era tarde, início da noite, e o vento quente noturno passeava entre elas, balançando as árvores ao redor e seus cabelos.
A mais velha olhou para o relógio no pulso, verificando as horas. Eram seis e dez, onde Malee estava? As aulas de balé terminavam às seis em ponto. Engfa estava com saudades. Para ser sincera, Engfa sempre estava com saudades da pequena menina, mas aquele sentimento se intensificava em dias como aquele, quando a menina ficava até mais tarde na escola para aulas extracurriculares. Malee agora fazia aulas de natação, balé e muay thai.
Era incrível, simplesmente incrível como a garota era boa em tudo. Nas aulas de natação, Malee já estava quase aprendendo a nadar sem qualquer auxílio; no balé, ela tinha um equilíbrio invejável, seus passos graciosos e suaves; e no muay thai, a menina parecia uma pequena fera, distribuindo socos e chutes com agilidade com sua luva cor de rosa.
Nas aulas de muay thai, entretanto, a pequena garota apenas aprendia os golpes e os fazia nos sacos de pancada ou os praticava com o professor - quando ele estava com todas as proteções - se recusando veementemente a treinar com as outras crianças, dizendo que não queria machucar ninguém mesmo sem querer. Engfa sabia o motivo da decisão da garota, mas se recusou a pensar muito sobre. Era óbvio que tudo o que Malee havia vivenciado, mesmo ainda bem pequena, a afetou.
Aquilo ainda angustiava Engfa. Como mesmo longe, aquela infeliz da Heidi ainda conseguia se fazer presente na vida delas, mesmo que de forma sorrateira. Ela se lembrou do dia na piscina, quando Charlotte teve uma crise de pânico, se recusando a abrir os olhos e sem conseguir respirar. Foi desesperador. Engfa se sentiu extremamente impotente. Porque por mais que Charlotte e Malee estivessem com ela, seguras, Heidi ainda mantinha um pedaço de suas mentes em cárcere, mesmo que de forma inconsciente.
Por isso Engfa havia conversado com Charlotte uma noite depois do episódio de pânico. Ela expressou sua preocupação e perguntou o que Charlotte achava de procurar ajuda médica, porque embora Engfa pudesse manejar as crises de Charlotte, ela não queria que a mulher sequer tivesse que passar por isso. Charlotte hesitou, mas então aceitou, e agora, tanto ela quanto Malee tinham acompanhamento psicológico. Aquilo deixava Engfa mais tranquila, menos apreensiva. Ela havia feito questão de procurar os melhores profissionais, porque era o que Charlotte e Malee mereciam.
Com sua mão ainda segurando a de Charlotte, Engfa deu passos para frente quando avistou Malee.
Era uma explosão de rosa.
O collant, a saia, a meia calça, as sapatilhas e até mesmo a rede do cabelo da menina eram rosas, tudo escolhido por ela mesma. A garota se destacando positivamente na pequena multidão de crianças do seu tamanho, alguns professores atrás.
Quando a menina as viu, ela correu, suas pequenas perninhas velozes, um sorriso grande no rosto, seus braços já abertos. Engfa sorriu também, espelhando o sorriso da garota, e quando a menina chegou perto o suficiente, ela gritou.
"Mamãe P'Fa!"
E sem dar tempo pra Engfa se preparar, pulou em seus braços, Engfa soltando a mão de Charlotte para conseguir pegar a menina, a segurando com força, a apertando e a abraçando. Engfa fechou os olhos por um instante, o que Malee disse ainda ressoando em seu ouvido. Ela não achava que algum dia iria se acostumar. Ter aquela menina a chamando de mamãe parecia demais. Bom demais, bonito demais, emocionante demais.
"Oi, mamãe P'Fa." Malee cumprimentou, fazendo Engfa abrir os olhos para a olhar. Com os cabelos presos num coque, Malee parecia uma boneca, seus lábios e nariz e olhos perfeitos.
"Oi, amor." Engfa beijou suas bochechas gordinhas que estavam levemente vermelhas.
"Oi para você também, Malee." A voz de Charlotte soou levemente indignada, mas Engfa sabia que aquele sentimento não era real.
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Saving us
FanfictionCharlotte é mãe de Malee e vive em um relacionamento abusivo de onde não consegue sair. Engfa cresceu em um lar que não lhe deixou nada além de cicatrizes. O destino das duas está entrelaçado.
