Mais uma vez, Engfa acordou com a sensação de estar sendo observada. Ela abriu os olhos, ajustando a visão para conseguir enxergar algo na semi escuridão e foi saudada por olhos cor de azeviche a encarando.
"Hoje você não roncou." Malee disse baixinho, antes de se jogar em cima da mulher, seu rosto pequeno e delicado no ombro de Engfa. A mulher a segurou, apertando levemente, sentindo o calor do corpo da pequena menina contra o seu. Se todos os dias Malee a acordasse daquele jeito, com aquele abraço, Engfa se tornaria a mulher mais feliz do mundo. Ela olhou ao redor do quarto, constatando que Charlotte não estava ali.
"Bom dia, Malee." Ela se sentou na cama ainda segurando a menina em seu colo e olhando para a menina, sentiu uma súbita vontade de apertar aquelas bochechas. Eram macias.
"Bom dia, P'Fa." A menina colocou as mãos no rosto de Engfa e imitou seu gesto, seus dedos segurando sua bochecha e apertando forte, talvez forte demais, uma força que uma menina de quatro anos não deveria ter naqueles dedos pequenos e gordinhos. Engfa não reclamou no entanto, profundamente feliz.
Ela nunca havia considerado a ideia de ter filhos, por vários motivos. Primeiro, ela não se imaginava grávida. Segundo, ela não se imaginava tendo um relacionamento com ninguém. Terceiro, ela não queria ser responsável por trazer alguém ao mundo que ela considerava tão perverso. Uma família nunca esteve em seus planos, porque ela não acreditava naquela instituição. Não é que ela era pessimista, ela só tinha uma visão mais realista do mundo.
Machucada por quem deveria protegê-la, ela acabou aprendendo da forma mais difícil possível a sempre desconfiar, a proteger a si própria, a esperar o pior.
Mas...
Olhando para aquela garotinha, todas as convicções que Engfa uma vez tivera ruíram de uma só vez. Por conta de Malee, com seu sorriso e sua inocência infantil, Engfa teve uma nova perspectiva, de tudo. Lenta, mas firmemente, Malee havia a enredado. Fazendo Engfa ter uma visão completamente diferente do mundo, bem mais esperançosa. E aquele sentimento, aquela alegria tão pura e infantil da menina, bem, Engfa não podia simplesmente ignorar.
Claro, Malee não era sua filha. Em seu DNA, não existia nada que ligasse as duas. Mas Engfa sentia, bem em seu íntimo, que Malee era sua. Sua para cuidar e amar, para proteger.
"P'Fa?" A menina soltou as bochechas de Engfa, e Engfa fez o mesmo com as bochechas da menina. Ela achava engraçado que até ontem a menina a chamava apenas de vizinha, mas então subitamente havia passado a chamá-la de P'Fa. Era ainda mais fofo do que vizinha, dava a Engfa uma sensação de maior proximidade.
"Sim, Malee?" Ela respondeu, passando uma das mãos nos cabelos pretos da menina, abaixando os fios rebeldes.
"Eu te amo, P'Fa." Malee se inclinou e beijou a ponta do nariz de Engfa, rindo logo em seguida. O coração de Engfa se encheu de felicidade. Sim, Malee era sua.
"Eu te amo mais, Malee." Ela retribuiu o gesto, beijando o nariz fino e pequeno. "Agora vamos, sua mãe deve estar esperando pelo café da manhã."
Ao saírem do quarto, Malee em seu colo, Engfa foi saudada pelo cheiro de comida. Ali, em sua cozinha, Charlotte estava ocupada, andando de um lado para o outro, dividindo sua atenção entre o que já estava no fogo e os ingredientes que ainda estava cortando no balcão.
"Charlotte!" Engfa a chamou, preocupada. No dia anterior a mulher mal conseguia se manter de pé, por que ela estava ali cozinhando?
"Mommy!" Malee a chamou, animada.
Charlotte se virou, os longos cabelos castanhos presos em um coque. "Bom dia!" Ela exclamou sorrindo, e depois desviou o olhar, com vergonha. "Não quis ser intrometida ao mexer na sua cozinha, P'Fa, mas queria fazer café da manhã para nós."
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Saving us
FanfictionCharlotte é mãe de Malee e vive em um relacionamento abusivo de onde não consegue sair. Engfa cresceu em um lar que não lhe deixou nada além de cicatrizes. O destino das duas está entrelaçado.
