O mundo inteiro parecia ter se desfeito. Não havia nada. Nada além de Charlotte machucada. Seu lábio sangrando e seus olhos apavorados.
Engfa estava sentada encostada na parede, olhando fixamente para a porta por onde Charlotte tinha ido embora junto com Meena. Ela sentia todo o corpo tremendo, mas não era frio. Era horror. Engfa estava completamente horrorizada com o que tinha feito.
Ela olhou para as mãos trêmulas, o sangue começando a secar, formando crostas sob as unhas. Ela esfregou as mãos, tentando limpar, mas não saiu, era quase como se todo aquele sangue fizesse parte dela agora. O cheiro metálico era forte e impregnava tudo, a fazendo se sentir ainda mais tonta.
Uma sombra entrou na sua frente e ela levantou os olhos.
Aoom.
Sua boca estava se mexendo, falando algo, mas Engfa não escutava. A voz da amiga parecia abafada demais, como se falasse de dentro de um aquário ou como se Engfa estivesse debaixo d'água, como se o mundo inteiro tivesse sido submergido.
Aoom então se ajoelhou na sua frente e a sacudiu. Uma, duas, três vezes até que Engfa pudesse a escutar. Era algo sobre paramédicos, polícia e advogados. Algo sobre alegar legítima defesa, sobre Heidi ter ido atrás de Charlotte horas antes e Engfa ter ido conversar com Heidi, uma conversa que saiu de controle quando Engfa foi atacada e precisou se defender.
"Eu não me defendi." A voz de Engfa saiu rouca, como se falar fosse um esforço tremendo, mas estava firme. "Não foi legítima defesa, eu vim para matar Heidi."
O rosto de Aoom se contorceu com as palavras frias, e ela fechou os olhos por um instante antes de sacudir Engfa de novo, mais forte dessa vez, chacoalhando o corpo da amiga como se pudesse incutir bom senso a força. "Engfa, os advogados disseram que é isso que você tem que falar. Uma conversa que saiu do controle, legítima defesa. Você precisa dizer que Heidi atentou contra sua vida e você só fez o que tinha que fazer para sair daqui viva, não quis realmente a machucar."
Engfa olhou ao redor, para o caos no quarto, para Heidi caída imóvel, para as garrafas de vidro quebradas. "Mas eu queria acabar com ela."
"Porra, Engfa!" O grito furioso de Aoom ecoou alto demais no silêncio do quarto, e Engfa voltou seu olhar para sua melhor amiga. A mulher estava com a sobrancelha franzida, irritada, os lábios crispados. "Você quer ir para a cadeia? Quer ser acusada de tentativa de homicídio?"
Tentativa? Engfa ficou confusa com a palavra.
"Heidi está viva?" Ela olhou de novo para a mulher imóvel do outro lado do quarto, sangue viscoso ao seu redor. Imóvel e silenciosa.
"Sim. Ela está respirando." Aoom acenou com a cabeça, parecendo aliviada.
Heidi não deveria estar viva.
Engfa tentou se levantar para ir até a mulher moribunda, um resquício de todo descontrole voltando a tomar espaço em seu corpo. Mas Aoom a segurou, tentando forçar seu corpo a sentar novamente, apertando seus braços com a firmeza de quem não ia deixar mais nada acontecer. "Foi o suficiente, Engfa. Por favor, foi o suficiente."
Mas não era o suficiente, porque Heidi merecia morrer. Aquele coração imundo não deveria continuar batendo.
"Por favor, Engfa. Você quer ir para a cadeia? Quer que Malee e Charlotte te vejam algemada?"
Malee. Charlotte.
O peso daqueles nomes fez Engfa se encolher, suas mãos voltarem a tremer, sua mente voltar a oscilar.
Engfa tinha machucado Charlotte.
Charlotte.
Charlotte.
Charlotte.
"Aoom." Engfa chamou com dificuldade, fazendo a amiga a olhar. "Eu machuquei Charlotte." E as palavras foram ditas com raiva e ódio de si mesma, ditas com total desespero. Porque Engfa havia machucado a pessoa que deveria proteger, havia feito sangrar a pessoa que ela mais amava no mundo, a que confiava nela de olhos fechados.
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Saving us
FanficCharlotte é mãe de Malee e vive em um relacionamento abusivo de onde não consegue sair. Engfa cresceu em um lar que não lhe deixou nada além de cicatrizes. O destino das duas está entrelaçado.
