Destino entrelaçado

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Engfa Waraha se concentrou no líquido no recipiente de vidro, girando e girando o copo, mas sem realmente beber. Era sua quinta cerveja, e ela estava começando a sentir os efeitos da embriaguez em seu corpo. Inclinada contra a parede, ela murmurava para si mesma, repassando sua discussão com Aoom. As palavras da melhor amiga ecoando em sua mente, não a deixando em paz.

Agora, Engfa estava duvidando de seus próprios sentimentos. Obviamente ela nunca havia se apaixonado, nunca havia sequer pensado que o amor valia a pena, o termo para ela sendo apenas sinônimo de dor e sofrimento. Em seu coração, um muro havia sido construído há anos, moldado por tudo que havia passado em sua infância e adolescência, tudo que havia presenciado entre os pais.

Para ela, o amor era nada além de uma tempestade furiosa que destruia tudo ao seu redor, como um furacão não avisado que pegava a todos desprevinidos, causando caos e confusão, uma força da natureza sobre a qual não tinha nenhum controle. As lembranças de seus pais, de toda da aquela violência e brutalidade constante, aquilo não podia ser amor. Aquela palavra, dita tão facilmente por tantas pessoas lhe parecia apenas um convite para o desastre. Com profunda repulsa, então, Engfa Waraha se fechou completamente para tudo relacionado aquela palavra que tanto a atormentava.

Ela bebeu o líquido do copo de uma vez, sentindo a cabeça pesada, mas não tanto quanto seu coração. Levantando a mão, ela sinalizou para um garçom que passava por entre as mesas, um gesto para pedir mais da bebida. Ela olhou ao redor, percebendo que não sabia nem o nome do bar. Ela dirigiu a esmo pelo que pareceram horas, até decidir que seus pensamentos estavam altos demais e parou no primeiro bar que ela viu na rua. O local era simples, com mesas e cadeiras de madeira, um cheiro misto de bebida e gordura no ar, poucos clientes no local. Seus olhos então focaram numa máquina de jukebox que ela não havia reparado antes, no canto esquerdo do bar.

Sua mente automaticamente voltou para a noite em que Charlotte e Malee cantaram no restaurante da mãe Kiki.

Charlotte. Malee.

Sua cabeça doeu ainda mais, pensando nas duas. Será que Aoom tinha razão? Será que seus sentimentos eram nada além de pena? Que sua vontade de estar perto das duas era apenas uma forma distorcida de sua mente de projeção de seus próprios desejos misturados com compaixão por saber de tudo que elas passavam? Tudo parecia obscurecido pela dúvida.

Ela se lembrou dos momentos que passaram juntas, mas especialmente sobre o último encontro. Durante todo aquele dia, Engfa não havia pensado em seu passado nem uma única vez, focada demais na felicidade que estava sentindo, em todos os sentimentos que ela nem sabia descrever, mas sabia que estavam ali por conta de Charlotte e Malee, as duas a proporcionando uma paz que ela não sabia que poderia alguma vez alcançar.

Não.

Não era pena. Como poderia ser? Quando apenas o pensamento de Charlotte a fazia se sentir bem? Quando ela sentia seu coração apertar e então bater descontroladamente apenas lembrando do sorriso da mulher? Da forma que ela falava, do tom de sua voz, da cor dos seus olhos e do toque delicado dos lábios de Charlotte em sua bochecha? Havia Malee também, a doce criança que havia conquistado seu coração logo no início, com aquele sorriso carinhoso e puro, seus abraços firmes embora fosse tão pequena, sua inteligência e vulnerabilidade.

Era amor.

Engfa tinha certeza. E ela não deixaria nada com que nada nem ninguém a fizesse duvidar do que estava sentindo.

Sobre Charlotte, sobre a mulher não sentir nada por ela, aquilo não a incomodou tanto, a memória de Charlotte se abrindo com ela e daquele beijo na bochecha a deixando segura. Embora se conhecessem há pouco tempo, Engfa tinha a certeza absoluta que Charlotte não era o tipo de mulher que se sentia confortável com outras pessoas a ponto de contar sobre sua família, muito menos de permitir ser tocada ou tocar sem que houvesse qualquer sentimento. Talvez não fosse com a mesma intensidade que Engfa, mas ela sabia que havia algo ali, que o que havia acontecido significava algo. E isso era o suficiente para Engfa, porque ela estava determinada a fazer Charlotte se apaixonar por ela.

O garçom apareceu novamente de repente, servindo Engfa de um jeito ágil e indo embora em um instante. A mulher bebeu, sentindo o mundo girar.

Charlotte namorar não era um impeditivo para ela, Heidi era uma filha da puta abusiva. Tudo o que a mulher fazia era provocar sofrimento, e o lugar de Charlotte e de Malee não era com Heidi, num ambiente cruel. Charlotte e Malee mereciam tudo de melhor que o mundo tinha a oferecer.

Um sentimento de posse se infiltrou quando ela teve esse pensamento. O lugar de Charlotte e Malee era com Engfa. Porque somente ela poderia oferecer o que as duas mereciam, somente ela poderia cuidar e ama-las do jeito certo. Engfa poderia mostrar que o amor não precisava vir acompanhado de dor. Porque foi isso que ela descobriu com as duas. O amor poderia ser fácil, leve, tranquilo, poderia significar felicidade na sua forma mais pura.

A determinação se solidificou em seu íntimo, o pensamento de Charlotte e Malee presas a alguém que só as machucava a deixando furiosa. Não, Engfa não permitiria aquilo. Porque por mais que ela nunca tenha acreditado em destino, agora ela acreditava. E o destino delas estava entrelaçado.

Charlotte e Malee pertenciam a Engfa, e o que quer que fosse necessário para tê-las, ela faria.

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