Avançando pelas ruas ensolaradas como se a tempestade da noite anterior fosse apenas um pesadelo já distante, o carro seguia silencioso.
Charlotte estava encolhida no banco, a cabeça encosta no vidro da janela, os olhos nos outros carros e nas outras pessoas e em todos os edifícios e construções mas ela não prestava atenção em nada de verdade. Uma de suas mãos estava na altura da cintura, sentindo dor ali, e a outra estava estendida, na coxa de Engfa.
Charlotte olhou para o lado. Engfa dirigia em silêncio, nenhuma palavra dita desde que se despediram de Aoom. Os olhos da mulher estavam inchados por conta de tanto choro, os lábios ligeiramente trêmulos.
Encarando o perfil de Engfa, Charlotte prestou atenção em cada pequeno detalhe. Na forma como os fios de cabelo castanhos soltavam do coque mal feito e emolduravam seu rosto, como seu nariz era desenhado lindamente, a linha afiada do maxilar.
A primeira vez que Charlotte viu Engfa, ela pensou que talvez aquela fosse a mulher mais linda do mundo. Agora, ela tinha absoluta certeza. Engfa era tão bonita, tão magnífica. Mas sua beleza não era apenas física, ia muito além do que o exterior jamais poderia mostrar. Engfa tinha uma alma bonita, feita de algo tão belo e raro que era simplesmente inexplicável.
Charlotte engoliu em seco e desviou o olhar, voltando a encarar o lado de fora, porque olhar para Engfa no momento era desolador. A culpa bateu novamente, tão forte e profunda que a fez se encolher mais e afastar sua mão da perna da mulher, porque Charlotte não era digna de encostar em Engfa.
Pensando bem, talvez ela nunca tenha sido.
Infelizmente para Engfa, Charlotte foi egoísta demais para ficar mesmo assim, e agora, depois de meses sendo o motivo da rachadura emocional da mulher, Charlotte por fim destruiu aquilo que era bom.
Fechando os olhos, a memória da noite anterior veio. O momento exato em que voltou ao apartamento de número 503, o instante em que se deparou com Engfa batendo em Heidi, como antes que pudesse sequer pensar, tentou afastar Engfa, a impedir de continuar, a impedir de se perder, e como foi atingida pela mulher que amava. O impacto, a dor, o sangue, o pavor que sentiu.
Por um breve instante, Charlotte ficou apavorada. Não de Engfa, nunca de Engfa, mas de não reconhecer a mulher. Apavorada com os olhos escuros e as mãos ensanguentadas. Apavorada por ver uma versão corrompida da mulher que mais amava no mundo. O medo porém, durou apenas um instante, porque logo foi substituído por um sentimento ainda pior.
O desespero absoluto ao ver Engfa quebrar.
A angústia aterradora ao perceber que Charlotte tinha sido o motivo.
Ali, naquele quarto, com Engfa a segurando e a implorando por perdão, uma certeza aterrorizante se apossou de Charlotte.
Ela tinha arruinado Engfa.
Empurrado a mulher até depois do limite, até que ela quebrasse, até que se perdesse, até que todo controle evaporasse e a raiva e ódio explodissem de forma que não havia mais como voltar atrás.
Charlotte foi o peso que Engfa nunca pediu, a responsabilidade que ninguém deveria ter que carregar. Ela havia forçado seu caminho na vida de Engfa com todos seus traumas e questões não resolvidas e achou que poderia ficar porque Engfa a acolheu e a protegeu e a cuidou, mas desde o começo a história delas estava fadada ao fracasso.
Porque Charlotte nunca tinha tido nada de bom para oferecer, nunca havia sido boa o suficiente para ninguém, e agora, ela havia destroçado a única pessoa que realmente havia a amado.
Talvez a mãe de Charlotte tivesse razão quando disse que a existência de Charlotte não tinha nenhum propósito além de destruir a vida das pessoas ao seu redor.
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Saving us
FanfictionCharlotte é mãe de Malee e vive em um relacionamento abusivo de onde não consegue sair. Engfa cresceu em um lar que não lhe deixou nada além de cicatrizes. O destino das duas está entrelaçado.
