Com a xícara de chá quente entre suas mãos, Engfa observou o vapor subir lentamente e então desaparecer, esperando que as propriedades do chá a ajudassem a se acalmar. Ela levantou os olhos, vendo Charlotte bebericar o próprio chá, mas abaixou o olhar rapidamente, sentindo seu coração acelerar.
Ela ainda sentia seus lábios formigando com a sensação do beijo, e suas mãos ainda ansiavam por tocar Charlotte. Ela sabia que deveria se controlar, mas estava sendo dolorosamente difícil, e ao mesmo tempo em que ela se sentia culpada por isso, tinha plena consciência de que não tinha como não ceder às suas emoções. Quer dizer, Charlotte era perfeita. Da cabeça aos pés. E embora ela não fizesse ideia de como era a aparência dos seus pais, e desprezasse a mãe da mulher, ela ainda tinha que concordar que o DNA deles criou uma combinação divina.
Agora que Engfa havia tocado Charlotte, ela sentia como se houvesse uma força invisível a puxando em direção a mulher, quase como a gravidade, constante e firme, inescapável até. Engfa nunca havia se sentido desse jeito, nunca quis tanto alguém, e com Charlotte, não era um simples e passageiro desejo, era amor. Ela não queria Charlotte apenas pela atração - por mais atraída que ela estivesse -, ela queria Charlotte porque a amava com todo seu coração. Engfa queria fazer Charlotte se sentir bem, se sentir amada.
Ao contrário de todas as vezes que Engfa se envolveu fisicamente com alguém, ela não queria somente sexo e prazer momentâneo, ela queria fazer amor com Charlotte. Queria venerá-la, adorá-la, cultuar cada pedaço dela, não somente seu corpo, mas todo seu ser.
E ao mesmo tempo que essa constatação a confirmava sobre seus sentimentos, também a apavorava, porque por mais experiências no passado que ela tivesse tido, nunca houve sentimentos envolvidos, nem minimamente. E Charlotte era tão especial, tão preciosa, que Engfa sentia medo. Medo de errar, medo de não ser o suficiente, medo de a machucar.
"P'Fa."
A voz de Charlotte cortou seus pensamentos, a fazendo a olhar.
A mulher estava com os olhos baixos, uma das mãos segurando a xícara e a outra passando os dedos sobre o tampo da mesa de madeira.
"Sim, Char?"
Os olhos de Charlotte continuaram baixos quando ela falou. "Preciso voltar para o apartamento hoje."
Engfa sentiu todo o seu corpo tremer, a tensão se acumular. O que Charlotte estava falando?
"O quê?"
"Preciso desligar os eletrodomésticos, tirar as coisas da geladeira para que não estraguem, preciso pegar algumas coisas importantes, fotos, alguns objetos pessoais..." Charlotte respirou fundo, e finalmente levantou os olhos. "Preciso pegar meus documentos e os da Malee, preciso da sua ajuda."
Engfa passou o dedo indicador no centro da testa e fechou os olhos, sentindo dor de cabeça instantânea. Ela entendia que Charlotte quisesse pegar tudo aquilo, mas precisa ser naquele momento? Depois do que tinha acontecido há poucos instantes?
A mulher não havia voltado para o apartamento desde que Engfa a tirou de lá, alguns dias atrás. Estar lá de novo não a faria mal? Engfa sentiu uma pontada no peito, e não conseguiu impedir sua mente de a fazer ter pensamentos de Charlotte indo para o apartamento ao lado e não voltando mais. Ela não queria que Charlotte fosse, não queria que Charlotte entrasse novamente naquele apartamento e então decidisse que ficaria ali, saindo de sua vida.
Claro, era um pensamento completamente intrusivo, com raiz em sua insegurança. Charlotte já havia dito que a amava, havia dito que ficaria ali com ela, que queria ficar. Mas Engfa... sentia medo.
"P'Fa." Charlotte a chamou novamente, sua voz baixa. Engfa abriu os olhos e abaixou as mãos, a direita indo para o bolso da calça, sentindo a fita de cetim.
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Saving us
FanfictionCharlotte é mãe de Malee e vive em um relacionamento abusivo de onde não consegue sair. Engfa cresceu em um lar que não lhe deixou nada além de cicatrizes. O destino das duas está entrelaçado.
