Capítulo 65

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Pov Elis

A música ainda tocava baixinho quando Chloe encostou a cabeça no meu ombro, os olhos fechados, e seus movimentos suaves acompanhavam o ritmo do jazz.

Chloe: Sabe quando a gente sente que está exatamente onde devia estar?

Elis: Sei... porque eu sinto isso agora. Com você.

Ela se afastou o suficiente para me olhar nos olhos, como se estivesse se preparando para dizer algo importante, algo que vinha guardando há tempos.

Chloe: Elis... tem uma coisa que eu queria te contar. Ou talvez... te mostrar.

Elis: Fala. Você pode me dizer qualquer coisa, Chloe.

Chloe hesitou por um segundo, respirou fundo e então se dirigiu ao armário da sala. De lá, tirou uma caixinha de madeira escura, pequena, com detalhes entalhados à mão. Ela se aproximou, segurando-a com delicadeza.

Chloe: Eu comecei isso há meses, mas só agora senti que era o momento certo.

Ela abriu a caixinha, revelando um pequeno caderno de capa dura, costurado à mão. Era um diário ou algo parecido. Na capa, estava o título escrito em letra cursiva: "Dias com Elis".

Fiquei em silêncio, surpresa, emocionada só pelo gesto.

Chloe: Eu escrevi sobre cada dia nosso. Ou quase todos. Coisas pequenas... nossas manhãs preguiçosas, os cafés da tarde, suas manias, as palavras que você diz quando acha que eu não tô ouvindo.

Ela me entregou o caderno. Abri na primeira página, onde estava escrito:

"Dia 1 - O jeito que ela sorri quando olha para mim como se eu fosse a coisa mais perfeita que existe nesse mundo."

As páginas seguintes estavam repletas de pequenas anotações e colagens.

Elis: Chloe... isso é... eu nem sei o que dizer.

Chloe: Não precisa dizer nada. Eu só queria que você soubesse que cada momento com você tem significado pra mim. Até os mais simples. Principalmente eles.

Me aproximei e a abracei forte, sentindo meu peito se aquecer por dentro. Havia tanta verdade naquilo. Tanta entrega.

Elis: Obrigada... por guardar tudo isso. Por me guardar assim.

Chloe: Eu te amo, Elis. Com todas as páginas que ainda não escrevi.

Nos sentamos no sofá, com o caderno entre nós, folheando juntas os pequenos pedaços da nossa história. Algumas lembranças nos fizeram rir alto. Outras nos deixaram em silêncio, com os olhos marejados.

Mais tarde, já com a noite caída por completo e o vento sussurrando nas janelas, fomos para a cozinha improvisar um jantar.

Enquanto eu cortava legumes, Chloe apareceu atrás de mim, passando os braços pela minha cintura.

Chloe: Que tal... a gente fugir no próximo fim de semana?

Elis: Fugir?

Chloe: Sim. Só a gente. Um lugar qualquer. Um quarto com janela grande, uma cama enorme e nenhum plano. Sem roteiro, sem relógio. Só nós duas.

Elis: Isso soa perigosamente tentador...- sorri sem parar de cortar os legumes.

Chloe: E se eu disser que já andei pesquisando uns lugares?- encostou o queixo no meu ombro.

Elis: Ah, então a senhorita já tá conspirando pelas minhas costas?

Chloe: Pelas suas costas, pela sua frente... por todos os lados. Tô tramando um sequestro romântico.

Elis: E se eu topar? – larguei a faca, me virei e a encarei.

Chloe: A gente desaparece por dois dias. Sem celular. Só vinho, cobertor e talvez... uns mergulhos no meio da tarde.

Elis: Você é terrível.

Chloe: E você adora isso.- sorriu.

Elis: Tá bom. Me sequestra. Mas promete que a gente volta?- encostei a testa na dela.

Chloe: Só se a gente sentir saudade.

Elis: Então vou torcer pra gente não sentir.

Chloe: A gente leva só o essencial. Uma mala pequena, duas escovas de dente... e você.- beijou de leve o canto da minha boca.

Elis: E você leva sua playlist melancólica de estrada?

Chloe: Claro. Não existe fuga perfeita sem trilha sonora dramática.

Elis: Você vai me fazer chorar no meio da viagem.- ri baixo.

Chloe: Mas eu vou estar do lado, te dando a mão. Ou distraindo com beijos.

Elis: Promete que, se chover, a gente dança assim mesmo?

Chloe: Prometo. Com os pés descalços e o cabelo todo molhado.

Elis: Ok... então é um pacto?- fechei os olhos por um segundo e suspirei fundo.

Chloe: É um pacto.

Elis: Então corta você os legumes. Eu vou arrumar as coisas.- abri os olhos e sorri.

Ela me olhou, surpresa e satisfeita, enquanto eu saía da cozinha. Entrei no quarto, puxei o armário com pressa, bagunçando tudo com uma empolgação adolescente. Um colete azul caiu no chão. Peguei ele na mão, segurando contra o corpo.

Elis: Você acha que esse ainda serve?

Chloe: Serve. E se não servir, a gente improvisa. Pode não precisar de roupa nenhuma, se depender de mim.- falou da cozinha.

Soltei uma gargalhada. Aquela mulher tinha o talento único de transformar até os dias mais banais num filme indie de romance inesperado.

Elis: Ousada, hein?

Chloe: Não sou eu que tô jogando tudo na cama como se fosse uma fuga de filme.

Elis: E você? Vai levar aquele vestido vinho?

Chloe: Já está dobrado em cima da cama.

Elis: Então estamos falando sério.

Ela apareceu na porta, com a faca na mão e o cabelo preso de qualquer jeito.

Elis: A gente leva o diário?

Chloe: Se você quiser, sim. A gente pode escrever lá também. Continuar a história fora das páginas.

Elis: "Dia x - Ela dirigia com o braço apoiado na janela e cantava errado a letra da música. Eu queria congelar aquele instante."

Chloe: "Dia x - Ela dormiu com a cabeça no meu colo e o sol pintava o rosto dela como numa cena de cinema."

Rimos juntas, já imaginando os dias que ainda não existiam.

Terminamos o jantar entre risadas, depois da comida, lavamos a louça juntas, dividindo tarefas. Chloe cantarolava baixinho, inventando versos bobos sobre pratos e talheres. Eu deixava a espuma escorrer pelos dedos só para vê-la rir das minhas distrações.

Quando terminamos, fomos deitar, deitamos de frente uma para a outra, dividindo o travesseiro, os rostos tão próximos que dava para sentir a respiração misturada. Me aproximei e a beijei devagar

Sem medo de amarOnde histórias criam vida. Descubra agora