73. Mentiras

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Acordo com o gosto da culpa preso na garganta.

O Sol ilumina o quarto, mas dentro de mim, tudo ainda está escuro.

O pesadelo... não era só um sonho. Eu me lembro.

Eu falei.

Eu destruí ele. Nós.

A cama está vazia, assim como o quarto.

Meu peito aperta de novo e eu levanto em um pulo, ignorando a dor latejante na cabeça.

Pete não pode ter ido embora. Ele está aqui. Precisa estar.

Penso no escritório, me agarro ao mínimo fio de esperança.

Corro.

Quando abro a porta, o vejo. Meu coração falha.

Sentado à mesa, os olhos estão baixos, fixos em algo sobre ela.

O rosto está vermelho, mas não há lágrimas.

Com o corpo trêmulo, o coração acelerado e com a ansiedade crescendo na barriga, me aproximo devagar. Quase arrastando meus pés.

Paro ao lado dele, ergo a mão, mas a desisto no caminho. Sem saber se tenho direito até disso.

Ele inspira fundo, então levanta-se devagar.

E é nesse momento que nossos olhos voltam a se encontrar, colidindo como um choque de realidade assustador. Meu peito se aperta em agonia, medo, receio e angústia.

Diferente de antes, não há mais brilho neles. Estão opacos, esgotados, cansados, exaustos, profundamente negros perdidos no mar da dor.

O oceano jamais chegaria perto das águas que se formam, teimosamente insistindo em querer partir em direção à saída, porém impedida pelo dono das íris que até ontem, alegrava-se ao me ver.

Com todas as emoções esmagadoras que agora me sufocam, meu foco está centrado na minha outra metade à minha frente. Eu não quero perdê-lo.

— Ontem eu recebi um envelope na empresa. — Diz, com a voz neutra, controlada. — Não tive tempo de abrir... porque o Macau me ligou, avisando do seu sumiço.

Congelo.

Minha respiração falha.

Pete ergue um papel até a altura dos meus olhos. Eu encaro.

É o contrato.

A proposta.

Minha assinatura.

Minhas mãos tremem. O ar some dos meus pulmões. O ardume rasga a garganta.

Pete analisa meu rosto.

— Esse é o preço do meu amor? — Pergunta, tão calmo que me desespera.

Sinto o corpo perder a força.

A garganta fechar.

Eu não consigo olhar para ele.

Meu reflexo nos olhos dele não existe mais.

— Pete... — Minha voz falha. — Por favor... me escuta...

Quero tocá-lo, mas minha mão não se atreve. Ele não recua e também não responde.

— Isso... isso foi antes. Antes de te conhecer, antes de te amar. Eu...

Respiro fundo. Sinto que vou desabar a qualquer segundo.

— Eu fui manipulado. Azuma... Eu nem sei por onde começar... Me perdoa, por favor...

Ele volta o papel para si mesmo.

Mentiras - VegasPeteHistórias para pegar e não largar. Descubra agora