54. Cuidado

134 16 106
                                        

Para alguém cuja vida se encarregou de sobrecarregá-lo com todos os turbilhões de emoções, sentimentos, traumas e medos, é difícil reconhecer o cuidado

Ops! Esta imagem não segue nossas diretrizes de conteúdo. Para continuar a publicação, tente removê-la ou carregar outra.

Para alguém cuja vida se encarregou de sobrecarregá-lo com todos os turbilhões de emoções, sentimentos, traumas e medos, é difícil reconhecer o cuidado.

É complicado compreender que nem tudo é sobre fardos ou pesos. A razão tem dificuldade para entender o que é receber.

Entre a culpa e o cuidado, se encontra uma corda que, embora agora conheça suas mãos, também já marcou seu pescoço.

Você não sente que merece, tampouco deseja conhecer. Você sufoca e continua até que seu próprio corpo te sufoque. É como dar e receber.

Uma vez que machuca seu corpo, ele também irá te machucar, não para se vingar, mas para te mostrar que, assim como você, ele também não merece sofrer.

Cuide-se e, quando não souber como, aceite ser cuidado. Diga um foda-se para qualquer sentimento que te diga que você não merece, pois um dia ele também se sentiu rejeitado por alguém que te fez acreditar no mesmo.

_____________________________

— Desligou... Ele desligou... Nop. — Vegas diz, com a voz trêmula.

— Vai ver caiu a ligação. — Já fechei as janelas e puxei as cortinas.

— Ele... E se algo aconteceu? — O medo é palpável no tom.

— É o Pete, mais fácil ele causar algo. — O quarto está sendo iluminado apenas por nossos celulares. O que me preocupa é justamente o que ele é capaz de fazer. Pelo menos eu sei que ele vai largar tudo para vir para cá, então eu só preciso esperar e tentar acalmar o Vegas até lá.

Eu mal enxergo alguma coisa. Vegas está sentado, encolhido no meio da cama, coberto pelo edredom. O medo surgiu assim que o estrondo ecoou pelo céu, trazendo o apagão. E, assim que a ventania adentrou as janelas da sala, eu corri com ele para o quarto. A chuva derrama forte lá fora e, com ela, algumas rajadas de trovão. O corpo dele sofre o impacto através de espasmos.

— Aí, cara, vai ficar tudo bem. — Me junto a ele na cama.

— Eu... Estou com medo. — De perto, consigo ver as lágrimas molharem o rosto dele.

— Compartilha a coberta. — Ainda trêmulo, ele me ajuda a me cobrir. Passo o edredom por cima das nossas cabeças, como se a gente estivesse se escondendo.

— Nop... Está mais escuro aqui. — A respiração dele está meio pesada.

— Shiii. Aqui ninguém vai pegar a gente. — Sussurro, como se fosse um segredo.

Coloco a lanterna sobre a cama; agora só conseguimos ver o rosto um do outro. Ele abraça as pernas e treme quando outro trovão surge no ar.

— Estou com medo. — Ele está com falta de ar. — Minha cabeça não se cala... — Ele enterra a cabeça em meu ombro e eu o abraço de lado.

Mentiras - VegasPeteHistórias para pegar e não largar. Descubra agora