Eu cheguei em casa igual um idiota apaixonado. Um idiota, sim — mas o tipo de idiota que anda com um sorriso preso no rosto e o peito estufado por uma felicidade que mal sabe explicar.
Abri a porta e, claro, minha mãe estava no sofá. Chinelo no pé, novela na TV e aquele radar de mãe ativado no último volume.
— Chegou agora, Eduardo? — Ela perguntou, sem tirar os olhos da televisão.
— Uhum. — larguei minha mochila perto da escada. — Mas já vou sair de novo.
Ela finalmente desviou o olhar, arqueando a sobrancelha.
— Vai sair de novo? Aonde?
— Um rolê com... um amigo. Ele vai me pegar aqui. Coisa rápida. — Evitei dar detalhes. Não por vergonha. Mas porque nem eu sabia o que seria esse encontro com Caio. Só sabia que queria ir.
— “Amigo”, né? — ela deu aquele sorriso de quem saca mais do que diz. — Volta cedo, hein.
— Volto, juro. — Subi as escadas antes que ela resolvesse investigar mais.
Abri o guarda-roupa como se estivesse entrando num campo de batalha. Queria estar bonito, mas não parecia que me esforcei demais. Depois de trocar umas quatro vezes, escolhi:
•Camisa azul escura de linho, de manga curta, com os botões abertos até o meio do peito.
• Calça jeans preta skinny, um pouco rasgada no joelho.
• Tênis branco limpo, quase novo, guardado justamente para momentos especiais.
Penteei o cabelo, passei um perfume leve — um amadeirado que Caio elogiou uma vez. E coloquei um relógio prata. Sutil. Bonitinho. Sem parecer desesperado. Ou assim eu tentei acreditar.
19h58.
Eu já estava na calçada. 19h59.
Meu coração batia como se tivesse um tambor dentro do peito. 20h00.
Nada. Respirei fundo. Olhei o relógio outra vez.
20h03.
O carro dele virou a esquina.
Quando entrei, vi que ele também tinha caprichado, mesmo fingindo que não. Caio usava:
• Uma camisa preta de botão, com as mangas dobradas até o cotovelo.
•Uma calça jeans escura, bem ajustada.
Um coturno marrom, meio surrado, com aquela pegada meio bad boy, meio largado que só ele conseguia fazer funcionar.
•E o colar do infinito. No pescoço, pendurado por cima da camisa. O meu
também estava comigo.
— Tá parecendo um modelo disfarçado de criminoso de filme indie. — Falei, entrando no carro.
E ele me olhou de cima a baixo, aquele sorriso no canto da boca.
— Tá bonito, hein — disse, enquanto ligava o motor. — Quase parecendo... exclusivo.
— Exclusivo?
— É. Tipo peça rara de coleção particular. — Ele olhou rápido pra mim, depois voltou os olhos pra rua. — Só de uma pessoa, sabe?
Soltei um riso baixo, disfarçado. A forma que ele escolheu pra dizer meu namorado sem dizer meu namorado era tão Caio.
— E essa pessoa tem nome?
— Talvez. — Ele deu de ombros, ainda com aquele sorrisinho idiota. — Mas por enquanto, é segredo de colecionador.
O restaurante era discreto, em Santa Teresa. Pequeno, com luz baixa, e vista para a cidade. O tipo de lugar que ninguém da escola apareceria por acaso, os parcas dele ou alguém da minha família. Ideal pra gente fingir que o mundo não existia.
Sentamos num canto reservado. A conversa fluiu leve, mas meu peito ainda carregava aquela sensação de que o tempo podia azedar tudo a qualquer momento.
Depois de dividirmos uma massa e uma taça de vinho (ele insistiu em fingir que eu era maior de idade), voltamos pro carro. Achei que ele fosse me deixar em casa.
Mas ele dirigiu em silêncio por um tempo e, sem me avisar, subiu as curvas que levam ao Mirante Dona Marta. Era noite, então estava vazio, silencioso e com aquela vista absurda da Baía de Guanabara e do Cristo, iluminado lá no alto.
— Queria te trazer aqui desde aquele fim de semana. — Ele disse, parando o carro e saindo. — Mas fiquei esperando o momento certo. Acho que é agora.
Saí também. O vento estava fresco, não tinha uma necessidade de um casaco uma noite bem cara do Rio.
— Você parece com medo — ele disse, se apoiando na mureta, olhando a cidade lá embaixo.
— Eu tô. De ser feliz e isso acabar.
— Também tô. Mas sabe qual a diferença? — Ele se virou pra mim. — É a primeira vez que eu quero tentar mesmo assim.
Fiquei em silêncio. O mundo todo lá embaixo, pequeno, enquanto o nosso mundo estava começado de verdade nesse momento.
— Então posso te pedir uma coisa? — Ele perguntou.
— Pode.
— Vamos manter só entre a gente por enquanto. Nada de escola, nem de amigo, nem de Instagram. Pelo menos por enquanto. Não é vergonha. É só medo de perder o que nem comecei a entender ainda. Além de que tenho que colocar moral.
Pensei um pouco. Não doeu ouvir aquilo. De algum jeito... fez todo sentido até porque meus pais também seria duro de aceitar além dele ser um cara ainda é um cara da vida errada como diz minha avó.
— Tá. Nosso segredo.
Ele encostou a testa na minha. E ali, com a cidade inteira de testemunha silenciosa, a gente se beijou como quem promete tentar — mesmo com medo, mesmo sem certeza, mesmo sendo só dois garotos tentando ser felizes num mundo que nem sempre permite.
VOCÊ ESTÁ LENDO
O Dono Do Morro ( Romance Gay)
RomanceUm garoto que tinha tudo e derrapante não tem mais nada. Um cara que acha que tem tudo e descobre que nunca teve nada . Aonde por um acaso do destino tudo se encaixa ou não!. Venha mergulhar nessa loucura aonde o errado parece o certo é o certo pa...
