O carro do Caio subia devagar pelas ruas estreitas do morro. Os faróis cortavam uma neblina fina que já começava a descer sobre a cidade. Eu estava encostado no vidro da janela, em silêncio, vendo as luzes do Rio se espalharem como manchas de tinta no asfalto. Era curioso como aquela cidade, sempre tão barulhenta, parecia entrar em silêncio quando a gente estava junto.
Ele parou em frente à minha casa. A mesma construção simples de sempre, com o reboco descascando e aquele cheiro de café vindo pela janela entreaberta. A luz da cozinha ainda estava acesa — sinal de que minha avó não tinha ido dormir.
— Quer que eu suba contigo? — Caio perguntou, com a mão solta no volante e os olhos daquele jeito dele... meio sérios, meio cansados.
— Melhor não. Ela repara em tudo.
Ele só assentiu com a cabeça, pensativo.
— E você? Tá conseguindo dormir?
Demorei pra responder.
— Tem dia que sim. Tem dia que... não. Tem dias que o silêncio pesa demais. Principalmente depois que o Gustavo morreu.
Caio virou o rosto devagar, mas não disse nada. Só deixou o silêncio se esticar entre a gente, como quem respeita a dor do outro sem invadir.
— Antes de tudo… antes da notícia… eu tinha ido visitar ele no Sul. Passei uns dias com a família dele. Num desses dias, saí com um amigo dele. O Wallace.
— Wallace... — ele repetiu o nome devagar, como quem mastiga uma palavra desconhecida.
— Ele era... diferente. Intenso. Silencioso também. Tinha aquele jeito de te ler inteiro sem precisar perguntar nada. Me levou pra um lugar afastado e disse que queria “desligar minha cabeça”. E eu deixei.
— Ele te deu alguma coisa?
Não respondi de cara. Fiquei olhando o painel do carro, depois as minhas mãos. Demorou.
— Eu aceitei. Não me orgulho. Mas naquela noite… foi como se o mundo inteiro parasse. E quando voltei pra casa da família do Gustavo, primeiro fiquei leve, nas nuvens... mas depois fui pro quarto dele e chorei até minha cabeça doer. Apaguei.
Caio engoliu seco. Eu vi.
— Você se culpa?
— Todo dia. Mesmo sabendo que não faz sentido.
Ele soltou o ar devagar e estendeu a mão, apertando meu punho com firmeza.
— Você não tava bem. E ninguém ensina a gente a lidar com perda. Às vezes a gente afunda. Mas o que importa é não afundar sozinho.
Olhei pra ele. Meus olhos marejados, mas firmes.
— Por isso eu te contei. Você é o único que olha pra mim e não finge que eu tô inteiro.
— Porque eu também não tô — ele disse, do jeito mais simples do mundo. — Só aprendi a esconder melhor.
A gente ficou em silêncio por um tempo. Então soltei a mão dele e abri a porta do carro.
— Amanhã eu te mando mensagem. Se minha avó perguntar onde eu tava, vou dizer que dei uma volta com a Fernanda.
— Ela vai acreditar?
— Se eu disser que você tava junto, talvez não. — Ri fraco. — Ela sempre diz que você tem cara de problema.
— E ela tá errada?
— Não. Mas eu gosto de problema.
Caio só saiu com o carro depois que viu a luz do meu quarto acender no segundo andar. Só então deu ré e sumiu pela rua.
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O Dono Do Morro ( Romance Gay)
RomansaUm garoto que tinha tudo e derrapante não tem mais nada. Um cara que acha que tem tudo e descobre que nunca teve nada . Aonde por um acaso do destino tudo se encaixa ou não!. Venha mergulhar nessa loucura aonde o errado parece o certo é o certo pa...
