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[Autumn]

Já tinha dado cerca de duas voltas à escola e parecia não haver maneira de encontrar a sala C10. Acabei por me render e fui ter com uma funcionária antes que ficasse mais confusa do que aquilo que já estava.

- Sabe dizer-me onde fica a sala C10?

- Claro, querida - respondeu - Sobes estas escadas, é ao fundo do corredor.

- Muito obrigada - agradeci e a simpática senhora sorriu.

Fiz tal como ela me tinha dito e encontrei a tal sala. O mais interessante é que eu ia jurar já ter passado ali e o mais provável era ter passado mas não ter reparado na sala. Típico.

Fiquei ali à porta uns minutos e tive de aguentar todos os olhos postos em mim. Ser a miúda nova não ia ser nada fácil, isso estava mais que claro. O toque de entrada soou e logo outro grupo de pessoas se aproximou. Novamente fui olhada de alto a baixo. Era normal que o fizessem, eu era a única pessoa nova numa turma onde todos já se conheciam.

Um homem alto, com os seus 35 anos veio na nossa direção e percebi que ia ser o meu professor de Inglês. Só espero que seja simpático. Esperei que todos entrassem e só depois entrei eu, sentando-me no único lugar livre que havia.

Mais uma vez senti-me observada mas tentei ignorar. Por muito que eu odiasse ser o centro das atenções era normal que eu o fosse durante uns dias, até que um assunto novo aparecesse para as pessoas comentarem.

- É bom ver-vos novamente, turma - o professor que eu ainda não sabia o nome mas que parecia simpático começou a falar - Estou a ver que estão cá todos e até temos uma cara nova. Como te chamas? - perguntou sorrindo.

- Autumn - respondi o mais alto que consegui naquele momento.

- Então, Autumn, eu chamo-me Adam. E tu decidiste mudar de escola, foi?

- Sim.

- Bem-vinda. Turma, hoje vamos fazer um teste diagnóstico. Ver as coisas que se lembram e aquelas que estão mais esquecidas, pode ser? - perguntou e toda a gente disse que não queria, como era óbvio.

O professor foi distribuindo as folhas e enquanto isso tirei o meu estojo da mochila. Assim que ele me entregou a minha comecei a preencher a folha. Passados uns minutos já tinha terminado. Olhei em volta e percebi que era a única.

Como não tinha mais nada com o que me entreter, peguei num caderno e comecei a escrever. Escrevi apenas sentimentos, descrevi a volta que a minha vida tinha dado em apenas alguns meses. As palavras saíam naturalmente e, por momentos, a ideia de ter um diário não me pareceu muito má. Costumava ter um quando era mais pequena e ajudava-me bastante. Quando escrevo aquilo que sinto é como se finalmente alguém me compreende-se. Por mais estúpido que pareça faz-me sentir melhor.

- Já terminaram todos? - o professor que eu já não me lembro o nome perguntou. E depois de todos confirmarem, este começou a recolher os papéis.

- Sendo assim podem sair mais cedo - o professor disse. Logo toda a gente desapareceu da sala numa questão de segundos.

Eu arrumei calmamente as minhas coisas, ninguém estava à minha espera e não tinha nada para fazer. Saí da sala e peguei no meu horário. A aula seguinte era História na mesma sala, então decidi ficar por ali.

Encostei-me à parede e fiquei a ouvir música.

- Olá - um rapaz qualquer que aparentemente estava na minha turma disse.

- Olá - respondi.

- Eu só te queria dizer para me avisares se precisares de alguma coisa. Eu percebo que não é nada fácil ser a rapariga nova.

- Obrigada - sorri.

- Já agora, sou o Nash.

- Autumn.

- Vemo-nos por aí - Nash despediu-se e eu voltei para aquilo que estava a fazer.

Passado uns minutos o toque de entrada soou novamente. Esperei mais um pouco e aquela que ia ser a minha professora de Espanhol apareceu. Mais uma vez deixei que todos entrassem primeiro.

- Podes ir primeiro – disse um rapaz qualquer sorrindo.

- Obrigada – agradeci.

Entrei e sentei-me no mesmo sítio que estava anteriormente. Só aí é que reparei que esse rapaz e o tal de Nash estavam mesmo ao meu lado. Para ser sincera na aula anterior nem tinha olhado à minha volta. Sentia-me demasiado tímida para o fazer. Continuo a sentir-me assim mas desta vez é diferente. Já não há aquele impacto de ser a primeira aula na escola nova.

Mais uma vez eu fui o centro das atenções porque outra professora estava a perguntar quem eu era. Os olhos de toda a gente estavam postos em mim, outra vez. Por mais que me sentisse desconfortável ia ter de me habituar. Apresentei-me e a professora acabou por falar de outras coisas, acho que percebeu que eu não me sentia bem sendo o alvo das atenções. Respirei de alívio por ter passado mais uma apresentação. Hoje só tinha mais uma aula, o que me fez sentir muito bem.

A professora, ao contrário do que eu pensava, não deu testes diagnósticos. Apenas ficou o tempo todo a falar dos objetivos para este ano e esse tipo de coisas. Eu peguei no meu caderno e continuei a fazer o mesmo que estava a fazer na outra aula. Rabiscar ideias, desabafar sentimentos. Por muito estúpido que isso possa parecer, estava a ajudar-me bastante. Se me tivesse lembrado disto mais cedo, talvez não tivesse sido tão difícil na altura. Por muito tempo que já tenha passado, continua a magoar-me. Vai-me sempre ficar marcado a maneira como toda a gente me virou as costas quando mais precisei.

A campainha tocou de novo. Parece que a aula passou a correr. Distraí-me com aquilo que estava a fazer e nem dei pelo tempo passar. Parece que sou melhor a escrever do que aquilo que eu pensava. Parecia estar a ser transportada para outro mundo onde nada me poderia incomodar. Onde apenas existia eu e esses meus pensamentos.

Peguei nas minhas coisas e mais uma vez levantei-me. Saí da sala e encostei-me à parede. Senti os olhos de umas raparigas em mim porém tentei ignorá-las. A tarefa não estava a ser nada fácil porque elas nem sequer estavam a ser discretas e não paravam de apontar e segredar coisas sobre mim.

Passei mais um intervalo sozinha. Até agora houve duas pessoas, para além dos professores, que falaram comigo. Não vou mentir, a ideia de não me conseguir adaptar e de não conseguir fazer amigos estava a assustar-me muito. Vai ser um longo ano, sem dúvida.

Autumn | MEOnde histórias criam vida. Descubra agora