Eu poderia começar aqui contando o quão maravilhoso foi a balada, mas não foi. Fiquei sentada a noite inteira no balcão do bar, vendo Rita dançar até não aguentar mais. Não dancei. É, eu já sei, sou chata. O lugar estava completamente entupido, mais até do que os outros que eu já havia ido na vida, estava escuro e não gosto de não ver o rosto das pessoas.
Vez ou outra alguém pedia para pagar o meu drink e eu recusava, já que teria de dirigir o carro de Rita até meu apartamento, ela dormiria lá àquela noite. As horas se passaram e eu estava tão entediada que estava para entrar na pista, mas não para dançar e sim para arrancar Rita de lá. Já eram quase duas e meia da madrugada e parecia que o lugar só ficava cada vez mais cheio e a música cada vez mais alta. Observei Rita dançar até a hora que ela saiu da pista e sentou-se ao meu lado, suada, falando mais alto do que o normal e com a maquiagem começando a borrar.
- Não acredito que ficou a noite toda aí sentada! – Rita berrou em meu ouvido.
- Estou bem aqui. Tá se divertindo ou já quer ir embora? – perguntei.
- Não sei. Vai ficar aqui ou vai vir dançar? – perguntou.
- Acredite, eu não vou sair daqui. – afirmei.
- Então vamos embora, já são quase três horas e acho que já bebi o suficiente. – afirmou Rita.
E nós saímos do local enquanto outras pessoas nos esbarravam tentando entrar pela mesma porta que estávamos. Peguei o carro de Rita que estava estacionado bem próximo dali e dirigi até o meu apartamento. Rita não parava de cantarolar umas músicas que havia escutado na balada e estava tão irritante que a mandei ficar quieta, e ela ficou.
Dirigi por meia hora e quando chegamos ao prédio precisei ajudá-la a subir cada um dos degraus devagar, apoiando-a em um dos braços e no outro segurando seus sapatos. Não que ela estivesse completamente bêbada, mas dançou tanto que provavelmente estaria destruída. Depois de chegar na porta do apartamento, peguei as chaves na minha bolsa e pedi que Rita se escorasse na parede e ela o fez, mas de repente começou a falar alto, dizendo que eu era chata e que não conseguiria arrumar namorado algum sendo tão sem-sal daquele jeito. Bom, tenho de confessar que talvez ela estivesse certa, mas o que eu posso fazer? Eu sou assim. Sei que sou jovem e só tenho vinte e dois anos, mas gosto de ser na minha, não gosto do fuzuê que a maioria das pessoas da minha idade curtem.
Enquanto eu tentava abrir a porta no corredor pouco iluminado, Rita continuou falando alto e a porta de Oliver se abriu depressa fazendo-o surgir com uma cara de sono terrível e se virando para mim.
- Ella, está tudo bem aí? – perguntou Oliver.
- Sim, Oliver. Desculpa. Essa aqui é a Rita, uma amiga minha, ela tá meio cansada. – expliquei.
- Imagino. Não parece sóbria também. – afirmou.
- Olha aqui seu idiota, fica na sua! E quem diabos é Ella? – gritou Rita.
- Rita, fica quieta! – falei depois de abrir a porta. – Oliver, eu preciso ir... Desculpa aí.
- Tranquilo, Ella. – riu Oliver, sonolento.
- Ei, você tem um nome e nem me falou? Grande amiga você! – gritou Rita, novamente.
- Eu não tenho nome...– falei, entrando no apartamento e deixando Oliver para trás.
Depois que entramos, ajudei Rita a colocar sua roupa de dormir, a se deitar no sofá e depois a cobri. Dali tomei banho, limpei toda a carregada maquiagem dos meus olhos, amarrei o cabelo, vesti a roupa de dormir e fui para meu quarto. Ao me deitar na cama, percebi que mesmo estando tarde, não conseguia dormir, não conseguia pregar os olhos. Eu estava muita pensativa sobre Oliver, sobre o jeito como ele me olhava, sobre o modo como me ouvia... e depois de pensar tanto, acabei por dormir.
Acordei seis horas da manhã e me vesti para o trabalho. Rita já estava de pé. Mesmo sendo uma assídua frequentadora de baladas durante a madrugada, ela tinha o incrível "dom" de não conseguir acordar tarde. Depois de me vestir, fui até a cozinha, dei bom-dia para Rita e tomamos café juntas. Ela já estava arrumada para ir embora e já tinha colocado tudo que usamos de volta na enorme bolsa.
- Obrigada pela festa, Rita. – agradeci, mesmo sem ter gostado muito.
- De nada. Só da próxima vez, dance mais. – brincou.
- Ok, pode deixar. – concordei.
Terminamos de tomar o café e saímos juntas do apartamento. Rita me deu uma carona até a biblioteca e depois foi para casa. Ao chegar no trabalho coloquei o avental e senti o cheiro maravilhoso de café vindo do andar de cima. Sabe quando certas coisas simples depois de um tempo vão tornando-se especiais? O cheiro não me lembrava só o café que faziam na cafeteria. O cheiro de café me lembrava o dia que eu e Oliver estivemos lá e tivemos a chance de conversar pela primeira vez. Foi lá que tudo começou de verdade, foi lá que eu comecei a sentir que gostaria de conhecê-lo mais e mais.
O trabalho na biblioteca não era tão cansativo, mas nem sempre era fácil. Apesar de saber onde cada livro estava, alguns clientes entravam no local e simplesmente folheavam os livros e desfaziam sua ordem, desencadeando em mim um sincero e imenso desgosto, mas nada que não me fizesse querer arrumá-los novamente.
O fato é que naquele dia o meu horário de trabalho pareceu correr bem devagar, me fazendo ficar um pouco impaciente. Provavelmente estive assim por não estar acostumada a trabalhar de manhã, e sim à noite. Mas aguentei as horas se passarem. Atendi todos os clientes muito bem e reorganizei todos os livros fora do lugar.
Após o meu horário, saí da biblioteca e fui andando para casa. Quando cheguei no meu apartamento, encontrei com Oliver. Nossos horários de trabalho começavam e terminavam quase no mesmo período e assim os encontros seriam mais frequentes e talvez eu tenha gostado disso. Talvez.
- Oi Ella! Tudo bem? – perguntou Oliver.
- Sim, está tudo ok. E você? – perguntei.
- Também. Será que dá para você vir aqui rapidinho? Quero te mostrar as pinturas que te prometi. – falou Oliver, sorrindo e apontando para a sua porta entreaberta.
- Claro. – concordei.
E entramos. Sentei-me no sofá e ele pegou na estante de livros uma pasta portfólio e sentou-se ao meu lado. Ele abriu a pasta e me deu. Enquanto eu folheava as divisórias, pude ver que cada um dos seus trabalhos era incrível, caprichado. Alguns eram completamente deprimentes e outros incrivelmente felizes e coloridos, o que é normal, ninguém é feliz o tempo todo. Gostei dos detalhes das suas pinturas, gostei do modo como elas falavam comigo, gostei da sensação que me cobria ao vê-las.
- Já mostrou esse portfólio para muita gente? – perguntei.
- Só para algumas. – respondeu.
E eu me senti especial. Não que isso fosse algo muito importante, mas eu gostei de acreditar que se ele estava me mostrando, era porque queria que eu visse. Ele confiava em mim.
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Minha Querida Sem Nome II
Romansa"Ela", "Você", "Moça" é uma jovem adulta que mora com sua gata Zoé em um apartamento na cidade grande. Ela trabalha em uma biblioteca e gosta de escrever crônicas em seu tempo livre ou então ir a um bar perto de sua casa para beber seu drink favorit...