Capítulo 4

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Brooklin, Nova York – 14 de Dezembro de 1972.

Naquela manhã de inverno, a neve que caía incansavelmente havia cessado e dera permissão para o sol brilhar. No início do dia, as pessoas ficaram felizes, mas, à medida que a neve derretia e as poças de águas surgiam, exigiam mais atenção e o sorriso foi dando espaço ao franzir da testa.

Seria com o dia assim que o guerreiro de setembro deixaria o berçário do hospital, sendo encaminhado ao orfanato St. Lucas, a poucos metros dali. O orfanato seria agora a nova morada do bebê, que acabara conquistando a todos daquela enfermaria.

Os médicos ficaram espantados ao constatar como o bebê era saudável, algo raro sendo filho de uma moradora de rua – geralmente nascem dependentes químicos como elas – esse não, nenhum traço havia sido encontrado nele. Outro fator que era admirável seu tamanho: grande demais para um bebê que deveria, por sua condição de nascimento, ser desnutridos. Percebia-se que a garota que carregara o pequeno guerreiro no ventre havia cuidado muito bem dele.

Após o nascimento do menino, constataram que nada podia ser feito pela moça. Havia sido gravemente ferida. As facadas atingiram alguns órgãos vitais e ela perdeu muito sangue. Buscaram por identificação, mas não havia nada com ela. A polícia foi informada porque era o procedimento padrão, e o serviço social por causa do bebê, que ficaria sob a custódia do hospital até que pudesse ir para o orfanato.

— Acorda, já são quase sete horas, vai chegar atrasado de novo no trabalho! — a mulher negra de olhos tristes chamava o marido preguiçoso.

— Como estou cansado! Nem parece que ontem foi a minha folga. — o homem se espreguiçou na cama.

— Se tivesse ido dormir mais cedo como havia prometido, não estaria assim. — a mulher foi até o homem, de mesma idade e com fisionomia parecida com a sua, e o beijou na testa — O café está pronto. Preciso ir, senão vou chegar atrasada e hoje é dia em que os bebês chegam dos hospitais.

— Não consigo entender como uma mãe pode abandonar assim um filho. — O homem saltou da cama e começou a se arrumar.

— Nem todos são abandonados. — disse a mulher, dando um suspiro. Seus olhos, já tristes, ficam mais melancólicos.

— Às vezes não entendo esse seu Deus, Clair. Pessoas que realmente querem ter filhos não conseguem, e outras que não se importam acabam sendo abençoados.

— Tivemos o nosso.

— E nos foi arrancado tão cedo. — o homem se trancou no banheiro. Falar sobre o filho era algo que ainda o machucava.

Clair pôde ver nos olhos negros do marido as lágrimas se formando. Ela se mostrava mais forte, mas na verdade estava tão dilacerada quanto ele com a perda do filho de apenas três anos.

Michael e Clair se conheceram na igreja que frequentavam. Os dois haviam praticamente perdido as esperanças de casar e construir uma família, viviam isolados do mundo, até que amigos em comum resolveram juntar o casal.

O que aconteceu com eles não é uma história de amor como são contadas nos livros ou nos filmes. Apenas duas pessoas cansadas de ficarem só resolveram que poderiam fazer companhia uma para a outra. Na relação deles havia muito respeito e companheirismo, porém nunca houve paixão.

O que queriam era ter filhos e o casamento entre eles tinha esse objetivo – que eles demoraram a alcançar. Seriam seis longos anos de espera até que Clair, já aos 36 anos conseguisse realizar o sonho de ser mãe, porém o bebê não nasceu saudável como o esperado. Foram três anos quase todos vividos dentro de um hospital, até que o destino interveio e pôs fim ao sofrimento da criança.

Amargos Segredos [Completo]Histórias para pegar e não largar. Descubra agora