Ainda meio esgotados da expedição através do sistema solar, João e Maria,
de volta à Terra, dão um pulo no H-Bar para tomar uns drinques refrescantes. João
pede o de sempre — suco de mamão com gelo para ele e vodca com água tônica
para ela — e se afunda na cadeira, com as mãos atrás da cabeça, desfrutando de
um charuto recém-acendido. De repente, ao puxar umatragada, não sente mais o
charuto na boca e, perplexo, vê que ele desapareceu. Pensando que o charuto de
alguma forma escorregou de seus dentes, João se senta na ponta da cadeira,
esperando encontrar um buraco de queimadura em sua camisa ou em suas calças.
Mas não encontra nada. O charuto sumiu. Maria, reagindo ao movimento brusco de
João, corre os olhos pela sala e acha o charuto do outro lado, atrás da cadeira de
João. "Estranho", diz ele, "como é que pode ter caído ali? Só passando por dentro
da minha cabeça — mas a minha língua não se queimou, nem eu tenho nenhum
buraco novo em mim." Maria o examina bem e tem de admitir que a língua e a
cabeça parecem perfeitamente normais. O garçom trazos drinques e João e Maria
dão de ombros, incluindo o charuto caído na lista dos pequenos mistérios da vida.
Mas a loucura continua no H-Bar. João olha para o suco de mamão e repara que os
cubos de gelo não param de se mexer, chocando-se uns contra os outros e contra o
vidro do copo, como os carrinhos de batidas de parque de diversões. E dessa vez
ele não está só. Maria ergue o seu copo, bem menor do que o outro, e tanto ela
quanto ele vêem que os cubos de gelo de seu drinquese agitam ainda mais
freneticamente. Mal se podem distinguir os cubos, de tal maneira eles se
confundem, formando uma espécie de massa gélida. Mas o melhor é o que está por
vir. João e Maria ficam estáticos, diante dos gelostrêmulos, com os olhos
esbugalhados, e vêem que um dos cubos passa atravésdo vidro do copo e cai no
bar. Pegam o gelo e vêem que ele está absolutamentenormal. De algum modo
atravessou o vidro sem produzir nenhum dano. "Deve ser alucinação pós-viagem
espacial", diz João. Eles enfrentam com coragem o dinamismo dos cubinhos e
engolem os drinques de uma vez, para ir para casa descansar. Não chegam a
perceber que, na pressa de sair, tomam por verdadeira uma porta pintada na
parede. Mas os freqüentadores do H-Bar já estão acostumados a ver gente
atravessando as paredes e nem se incomodam com o súbito sumiço de João e
Maria.
Cem anos atrás, enquanto Conrad e Freud iluminavam o coração e a alma
das trevas, o físico alemão Max Planck dirigia o primeiro raio de luz sobre a
mecânica quântica, um esquema conceitual que proclama, entre outras coisas, que
— na escala microscópica — as experiências de João e Maria no H-Bar não têm por
que ser atribuídas a falhas das faculdades mentais.Acontecimentos assim, bizarros
e estranhos, são na verdade típicos da maneira comoo nosso universo se comporta
nas escalas extremamente pequenas.
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O universo elegante
AléatoireEsse é um livro científico, porém eu recomendo também para leigos, por usar analogias diversas e procurar expor da maneira mais clara possível algumas das idéias dos maiores contribuintes da física e da matemática , além de expor claramente a loucur...
