4. Loucura microscópica

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Ainda meio esgotados da expedição através do sistema solar, João e Maria,

de volta à Terra, dão um pulo no H-Bar para tomar uns drinques refrescantes. João

pede o de sempre — suco de mamão com gelo para ele e vodca com água tônica

para ela — e se afunda na cadeira, com as mãos atrás da cabeça, desfrutando de

um charuto recém-acendido. De repente, ao puxar umatragada, não sente mais o

charuto na boca e, perplexo, vê que ele desapareceu. Pensando que o charuto de

alguma forma escorregou de seus dentes, João se senta na ponta da cadeira,

esperando encontrar um buraco de queimadura em sua camisa ou em suas calças.

Mas não encontra nada. O charuto sumiu. Maria, reagindo ao movimento brusco de

João, corre os olhos pela sala e acha o charuto do outro lado, atrás da cadeira de

João. "Estranho", diz ele, "como é que pode ter caído ali? Só passando por dentro

da minha cabeça — mas a minha língua não se queimou, nem eu tenho nenhum

buraco novo em mim." Maria o examina bem e tem de admitir que a língua e a

cabeça parecem perfeitamente normais. O garçom trazos drinques e João e Maria

dão de ombros, incluindo o charuto caído na lista dos pequenos mistérios da vida.

Mas a loucura continua no H-Bar. João olha para o suco de mamão e repara que os

cubos de gelo não param de se mexer, chocando-se uns contra os outros e contra o

vidro do copo, como os carrinhos de batidas de parque de diversões. E dessa vez

ele não está só. Maria ergue o seu copo, bem menor do que o outro, e tanto ela

quanto ele vêem que os cubos de gelo de seu drinquese agitam ainda mais

freneticamente. Mal se podem distinguir os cubos, de tal maneira eles se

confundem, formando uma espécie de massa gélida. Mas o melhor é o que está por

vir. João e Maria ficam estáticos, diante dos gelostrêmulos, com os olhos

esbugalhados, e vêem que um dos cubos passa atravésdo vidro do copo e cai no

bar. Pegam o gelo e vêem que ele está absolutamentenormal. De algum modo

atravessou o vidro sem produzir nenhum dano. "Deve ser alucinação pós-viagem

espacial", diz João. Eles enfrentam com coragem o dinamismo dos cubinhos e

engolem os drinques de uma vez, para ir para casa descansar. Não chegam a

perceber que, na pressa de sair, tomam por verdadeira uma porta pintada na

parede. Mas os freqüentadores do H-Bar já estão acostumados a ver gente

atravessando as paredes e nem se incomodam com o súbito sumiço de João e

Maria.

Cem anos atrás, enquanto Conrad e Freud iluminavam o coração e a alma

das trevas, o físico alemão Max Planck dirigia o primeiro raio de luz sobre a

mecânica quântica, um esquema conceitual que proclama, entre outras coisas, que

— na escala microscópica — as experiências de João e Maria no H-Bar não têm por

que ser atribuídas a falhas das faculdades mentais.Acontecimentos assim, bizarros

e estranhos, são na verdade típicos da maneira comoo nosso universo se comporta

nas escalas extremamente pequenas. 

O universo eleganteHistórias para pegar e não largar. Descubra agora