Vimos que a constância da velocidade da luz implicaque um relógio de luz
em movimento marca o tempo mais vagarosamente do que outro estacionário. E
que pelo princípio da relatividade isso tem de ser válido para todos os relógios e não
só para os relógios de luz — ou seja, tem de ser válido para o próprio tempo. O
tempo passa mais devagar para um indivíduo em movimento do que para um
indivíduo estacionário. Se o raciocínio bastante simples que nos levou a essa
conclusão estiver correto, então isso significa queuma pessoa em movimento
viveria mais tempo que outra estacionária? Afinal, se o tempo passa mais devagar
para um indivíduo em movimento, essa disparidade deve revelar-se não só no
tempo medido pêlos relógios, mas também no tempo medido pelas pulsações
cardíacas e pelo processo de envelhecimento do corpo.
E assim é de verdade, o que já foi diretamente confirmado — não com
relação à expectativa de vida dos seres humanos, mas para certas partículas do
mundo microscópico: os múons. Há, porém, um detalheimportante, que nos impede
de proclamar a descoberta da fonte da juventude.
Em repouso, nos laboratórios, os múons se desintegram por um processo
muito semelhante ao da desintegração espontânea, emum tempo médio de cerca
de dois milionésimos de segundo. Essa desintegraçãoé um fato comprovado por um
enorme número de experiências. E como se o múon vivesse com um revólver
apontado para a própria cabeça: quando ele atinge aidade de dois milionésimos de
segundo, o gatilho dispara e o múon se despedaça emelétrons e neutrinos. Mas se
esses múons não estiverem em repouso em um laboratório, e sim viajando por meio
de um equipamento denominado acelerador de partículas, o qual os leva a
velocidades bem próximas à da luz, há um aumento expressivo na sua expectativa
de vida, verificado pêlos cientistas. Isso acontecede verdade. A 99,5 por cento da
velocidade da luz, o tempo de vida do múon é multiplicado por dez. A explicação,
segundo a relatividade especial, é que os "relógiosde pulso" usados pêlos múons
andam muito mais devagar que os relógios do laboratório, de modo que bem depois
de os relógios do laboratório indicarem o momento em que os revólveres dos múons
devem disparar, os relógios dos múons apressados ainda estão dentro do tempo
permitido. Essa é uma demonstração direta e clara do efeito do movimento sobre a
passagem do tempo. Se as pessoas pudessem viajar com a mesma velocidade
desses múons, a sua expectativa de vida aumentaria na mesma proporção. Em vez
de viver setenta anos elas viveriam setecentos.
Agora, o detalhe importante: embora os observadoresno laboratório vejam
que os múons do acelerador de partículas vivem muito mais que os seus
companheiros estacionários, isso se deve ao fato deque para os múons em
movimento o tempo passa mais devagar. A desaceleração do tempo aplica-se não
só aos relógios usados pêlos múons, mas também a todas as atividades que eles
realizam. Por exemplo, se um múon estacionário podeler cem livros durante a sua
curta vida, o seu irmão que vive às carreiras só poderá ler os mesmos cem livros,
porque embora ele pareça viver mais que o múon estacionário, o ritmo da sua leitura
— assim como o ritmo de tudo o mais que faça na vida — também se desacelera.
Da perspectiva do laboratório, é como se o múon em movimento vivesse a vida em
câmara lenta; desse ponto de vista, o múon em movimento viverá mais tempo que o
múon estacionário, mas o "total de vida" experimentado por ele será exatamente o
mesmo. A conclusão seria idêntica, é claro, para aspessoas em movimento
acelerado que tivessem uma expectativa de vida de vários séculos. Da sua
perspectiva, a vida seguiria igual. Da nossa perspectiva, elas estariam levando a
vida em câmara superlenta e, portanto, cada coisa que elas façam na vida toma uma
quantidade enorme do nosso tempo.
VOCÊ ESTÁ LENDO
O universo elegante
AléatoireEsse é um livro científico, porém eu recomendo também para leigos, por usar analogias diversas e procurar expor da maneira mais clara possível algumas das idéias dos maiores contribuintes da física e da matemática , além de expor claramente a loucur...
