O caminho da mecânica quântica começou com um problema interessante.
Imagine que o forno em sua cozinha conta com isolamento perfeito, e que você o
regula a uma temperatura, digamos, cerca de duzentos graus Celsius. Mesmo que
você tenha retirado todo o ar de dentro do forno antes de acende-lo, o aquecimento
das paredes gera ondas de radiação no interior. Trata-se do mesmo tipo de radiação
— calor e luz sob a forma de ondas eletromagnéticas— emitida pela superfície do
Sol ou por um espeto de ferro incandescente. Esse éo problema. As ondas
eletromagnéticas transportam energia — a vida na Terra, por exemplo, depende
basicamente da energia solar, transmitida à Terra por ondas eletromagnéticas. No
começo do século XX, tentou-se calcular a energia total transportada pela soma de
toda a radiação eletromagnética no interior de um forno a uma temperatura dada. O
emprego dos procedimentos de cálculo tradicionais produziu um resultado ridículo:
qualquer que fosse a temperatura, a energia total dentro do forno seria infinita.
Todos sabiam que a resposta não fazia sentido — um forno quente pode abrigar
muita energia, mas não uma quantidade infinita. Para que possamos entender bem
a solução proposta por Planck
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, vale a pena conhecer o problema com um pouco
mais de profundidade. Acontece que quando se aplicaa teoria eletromagnética de
Maxwell à radiação existente no interior de um forno, verifica-se que as ondas
geradas pelas paredes aquecidas devem ter um númerointeiro de picos e
depressões que caibam exatamente no espaço entre asparedes opostas. A figura
4.1 mostra alguns exemplos. Os físicos descrevem essas ondas por meio de três
elementos: o comprimento, a freqüência e a amplitude da onda. O comprimento da
onda é a distância entre dois picos ou duas depressões sucessivas das ondas, como
se vê na figura 4.2. Quanto maior o número de picose depressões, tanto menor será
o comprimento da onda, uma vez que eles têm de apertar-se para caber entre as
paredes do forno. A freqüência é o número de oscilações cíclicas que a onda
completa em cada segundo. Resulta que a freqüência é determinada pelo
comprimento da onda e vice-versa: quanto maior o comprimento da onda, menor a
freqüência; quanto menor o comprimento da onda, maior a freqüência. Para
entender, pense no que acontece quando você sacode uma corda cuja outra ponta
está amarrada em um poste. Para produzir um comprimento de onda grande, você
sacode a corda vagarosamente. A freqüência das ondas coincidirá com o número de
ciclos por segundo que o seu próprio braço provoca,razão por que ela é
relativamente baixa. Mas para produzir comprimentosde onda curtos, você sacode a
corda com mais vigor — pode-se dizer, com maior freqüência —, o que produz uma
onda de freqüência mais alta. Finalmente, usa-se o termo amplitude para descrever
a altura ou a profundidade máxima das ondas.
Caso você ache as ondas eletromagnéticas muito abstratas, outra boa
analogia é a das ondas que se formam quando você toca a corda de um violão. As
diferentes freqüências da onda correspondem às diferentes notas musicais: quanto
mais alta a freqüência, mais alta a nota. A amplitude de uma onda em uma corda de
violão é determinada pela força com que você a toca. Um puxão mais forte significa
que você adiciona energia ao movimento oscilatório da corda; mais energia
corresponde, portanto, a maiores amplitudes. O ouvido percebe essa alteração
como um som de maior volume. Do mesmo modo, menos energia corresponde a
menores amplitudes e a sons de menor volume.
Com os recursos da termodinâmica do século XIX, pôde-se determinar a
quantidade de energia que as paredes de um forno converteriam em ondas
eletromagnéticas para cada comprimento de onda exato e permitido, o que
corresponde à força com que as paredes "tocam", porassim dizer, as ondas. O
resultado encontrado é fácil de expor: todas as ondas permitidas —
independentemente do comprimento de onda — transportam a mesma quantidade
de energia (cujo valor é determinado pela temperatura do forno). Em outras
palavras, todos os tipos possíveis de onda no interior do forno estão em pé de
igualdade quanto à quantidade de energia que encerram. À primeira vista isso
parece interessante mas inócuo. Nada disso. Marca ofim do que veio a chamar-se
física clássica. A razão é a seguinte: embora o requisito de que todas as ondas
tenham um número inteiro de picos e depressões elimine uma enorme variedade de
tipos de onda no interior do forno, ainda persiste um número infinito de ondas
possíveis — com números inteiros cada vez maiores de picos e depressões. Como
todos os tipos de onda transportam a mesma quantidade de energia, um número
infinito de comprimentos de onda significa uma quantidade infinita de energia. No fim
do século XIX havia uma mosca gargantuana na sopa da física teórica.
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O universo elegante
AléatoireEsse é um livro científico, porém eu recomendo também para leigos, por usar analogias diversas e procurar expor da maneira mais clara possível algumas das idéias dos maiores contribuintes da física e da matemática , além de expor claramente a loucur...
