Chamá-la de tentativa de abafar a verdade seria muito dramático. Porém, por
mais de meio século — mesmo em meio às maiores conquistas científicas da
história — os físicos conviveram em silêncio com a ameaça de uma nuvem escura
no horizonte.
O problema é o seguinte: a física moderna repousa em dois pilares. Um é a
relatividade geral de Albert Einstein, que fornece a estrutura teórica para a
compreensão do universo nas maiores escalas: estrelas, galáxias, aglomerados de
galáxias, até além da imensa extensão total do cosmos. O outro é a mecânica
quântica, que fornece a estrutura teórica para a compreensão do universo nas
menores escalas: moléculas, átomos, descendo até aspartículas subatômicas,
como elétrons e quarks. Depois de anos de pesquisa,os cientistas já confirmaram
experimentalmente, e com precisão quase inimaginável, praticamente todas as
previsões feitas por essas duas teorias.
Mas esses mesmos instrumentos teóricos levam de forma inexorável a uma
outra conclusão perturbadora: tal como atualmente formuladas, a relatividade geral e
a mecânica quântica não podem estar certas ao mesmotempo. As duas teorias que
propiciaram o fabuloso progresso da física nos últimos cem anos — progresso que
explicou a expansão do espaço e a estrutura fundamental da matéria — são
mutuamente incompatíveis.
Se você ainda não ouviu falar dessa feroz controvérsia, deve estar
perguntando qual a razão dela. A resposta não é difícil. Em praticamente todos os
casos, com exceção dos mais extremos, os físicos estudam coisas que ou são
pequenas e leves (como os átomos e as partículas que os constituem) ou enormes e
pesadas (como as estrelas e as galáxias), mas não ambos os tipos de coisas ao
mesmo tempo. Isso significa que eles só necessitam utilizar ou a mecânica quântica
ou a relatividade geral, e podem desprezar sem maiores preocupações as
advertências do outro lado. Esta atitude pode não trazer tanta felicidade quanto a
ignorância, mas anda perto.
Porém o universo está cheio de casos extremos. Nas profundezas do interior
de um buraco negro uma massa enorme fica comprimidaa ponto de ocupar um
espaço minúsculo. No momento do big-bang, o universo inteiro emergiu de uma
pepita microscópica, perto da qual um grão de areiaé algo colossal. Esses são
mundos mínimos mas incrivelmente densos, que por isso requerem o emprego tanto
da mecânica quântica quanto da relatividade geral. Por motivos que ficarão mais
claros à medida que avançarmos, as equações da relatividade geral e da mecânica
quântica, quando combinadas, começam a ratear, trepidar e fumegar, como um
carro velho. Falando de maneira menos figurativa, quando se juntam as duas
teorias, os problemas físicos, ainda que bem formulados, provocam respostas sem
sentido. Mesmo que nos resignemos a deixar envoltasem mistério questões difíceis
como o que ocorre no interior dos buracos negros oucomo se deu a origem do
universo, não se pode evitar a sensação de que a hostilidade entre a mecânica
quântica e a relatividade geral clama por um nível de entendimento mais profundo.
Será verdade que o universo, no seu nível mais fundamental, apresenta-se
dividido, requerendo um conjunto de regras para as coisas grandes e outro, diferente
e incompatível, para as coisas pequenas?
A teoria das supercordas, uma criança em comparaçãocom as veneráveis
teorias da mecânica quântica e da relatividade geral, responde a essa pergunta com
um sonoro não. Pesquisas intensas de físicos e matemáticos em todo o mundo
revelaram, na última década, que essa nova maneira de descrever a matéria no
nível mais fundamental resolve a tensão entre a relatividade geral e a mecânica
quântica. Na verdade, a teoria das supercordas revela ainda mais: a relatividade
geral e a mecânica quântica precisam uma da outra para que a teoria faça sentido.
De acordo com a teoria das supercordas, o casamentoentre as leis do grande e do
pequeno não só é feliz como também inevitável.
Essa é uma boa notícia. Mas a teoria das supercordas — ou simplesmente
teoria das cordas — leva essa união muito mais adiante. Durante trinta anos Einstein
buscou uma teoria unificada da física que entrelaçasse todas as forças e todos os
componentes materiais da natureza em um único conjunto de teorias. Ele fracassou.
Agora, ao iniciar-se o novo milênio, os proponentesda teoria das cordas proclamam
que os fios dessa difícil obra de tecelagem já foram identificados. A teoria das
cordas tem a capacidade potencial de demonstrar quetodos os formidáveis
acontecimentos do universo — da dança frenética dosquarks à valsa elegante das
estrelas binárias, da bola de fogo do big-bang ao deslizar majestoso das galáxias —
são reflexos de um grande princípio físico, uma equação universal.
Como esses aspectos da teoria das cordas requerem uma mudança drástica
nos nossos conceitos de espaço, tempo e matéria, é necessário deixar passar algum
tempo para que nos acostumemos a essas transformações. Mas logo ficará claro
que, vista no contexto correto, a teoria das cordasé uma conseqüência natural,
ainda que extraordinária, das descobertas revolucionárias da física nos últimos cem
anos. Veremos que o conflito entre a relatividade geral e a mecânica quântica na
verdade não é o primeiro, mas sim o terceiro de umasérie de choques cruciais
ocorridos no século XX, confrontos cujos resultadosprovocaram revisões
estonteantes na nossa visão do universo.
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O universo elegante
De TodoEsse é um livro científico, porém eu recomendo também para leigos, por usar analogias diversas e procurar expor da maneira mais clara possível algumas das idéias dos maiores contribuintes da física e da matemática , além de expor claramente a loucur...
