Nas primeiras décadas do século XX, muitos dos maiores teóricos da física
empenharam-se sem descanso na tarefa de encontrar uma explicação
matematicamente correta e fisicamente aceitável para essas características
microscópicas da realidade, até então ocultas. Nieis Bohr e seus colaboradores em
Copenhague, por exemplo, progrediram muito na explicação das propriedades da
luz emitida por átomos de hidrogênio incandescente.Mas os trabalhos anteriores a
meados da década de 20 eram mais uma tentativa de fazer convergir as idéias do
século XIX com os recém-descobertos conceitos quânticos do que um esquema
coerente de explicação do universo físico. Em comparação com a estrutura clara e
lógica das leis de movimento de Newton e da teoria eletromagnética de Maxwell, a
teoria quântica, ainda não totalmente desenvolvida,estava em estado caótico.
Em 1923, o jovem príncipe francês Louis de Broglie acrescentou um novo
elemento à desordem quântica, o qual, no entanto, veio a propiciar, pouco depois, o
desenvolvimento do esquema matemático da mecânica quântica moderna e lhe
valeu o prémio Nobel de Física de 1929. Inspirado em uma cadeia de raciocínio que
derivava da relatividade especial de Einstein, De Broglie sugeriu que a dualidade
onda-partícula não se aplicava somente à luz, mas sim à matéria como um todo. Por
assim dizer, ele pensou que se a equação E = me2 relaciona massa e energia e se o
próprio Einstein e Planck relacionaram a energia à freqüência das ondas, então,
combinando-se as duas coisas, a massa também deveria ter uma encarnação
ondulatória. Depois de muito elaborar essa linha deraciocínio, ele sugeriu que,
assim como a luz é um fenômeno ondulatório para o qual a teoria quântica tem uma
descrição igualmente válida em termos de partículas, os elétrons — que
normalmente imaginamos como partículas — poderiam ter uma descrição
igualmente válida em termos de ondas. Einstein aceitou imediatamente essa idéia
de De Broglie, a qual era um desdobramento natural dos seus trabalhos sobre
relatividade e fótons. Mesmo assim, nada substitui a prova experimental, e ela viria
com o trabalho de Clinton Davisson e Lester Germer.
Em meados da década de 20, Davisson e Germer, físicos experimentais da
Bell Telephone Company, estavam estudando a maneiracomo um feixe de elétrons
ricocheteia sobre uma superfície de níquel. O únicodetalhe que nos interessa aqui é
que nessa experiência os cristais de níquel agem demodo similar ao das duas
fendas da experiência ilustrada nas figuras da última seção — com efeito, é
perfeitamente cabível pensar que se trata da mesma experiência, levando-se em
conta que, em lugar da luz, emprega-se um feixe de elétrons. Esse é o ponto de
vista que adotamos aqui.
Na sua experiência, Davisson e Germer examinavam oselétrons que
passavam pelas "fendas" do níquel e atingiam uma tela fosforescente, que registrava
com um ponto brilhante a localização do impacto de cada elétron — o que,
essencialmente, é o que ocorre dentro de uma televisão. Verificaram então algo
notável. Surgiu um desenho muito semelhante ao da figura 4.8. A experiência
mostrou, assim, que os elétrons também apresentam fenômenos de interferência, o
sinal que identifica as ondas. Nos pontos escuros da tela fosforescente, os elétrons,
de alguma forma, "cancelavam-se mutuamente", tal como os picos e depressões das
ondas de água. Mesmo que o feixe de elétrons fosse tão "fino" que apenas um
elétron fosse emitido, por exemplo, a cada dez segundos, os elétrons, um por um,
iam construindo as faixas claras e escuras, ponto por ponto. De algum modo, os
elétrons, assim como os fótons, "interferem" uns com os outros, no sentido de que
cada um deles, ao longo do tempo, reconstrói o padrão de interferência associado
às ondas. Somos forçosamente levados à conclusão deque todos os elétrons, além
da sua caracterização como partículas, têm também características de ondas.
Embora tenhamos descrito apenas o caso dos elétrons, experiências similares
levam à conclusão de que todas as formas da matériaapresentam características de
ondas. Mas como conciliar isso com a nossa percepção de que a matéria é algo
sólido e concreto, de modo algum ondulatório? De Broglie estabeleceu uma fórmula
para o comprimento das ondas da matéria, que mostraque o comprimento de onda
é proporcional à constante de Planck, K (Mais precisamente, o comprimento de onda
é igual a pi dividido pelo momento do corpo material.) Como é muito diminuto, os
comprimentos de onda resultantes são também minúsculos, comparados com as
escalas normais.
Por essa razão, o caráter ondulatório da matéria sóse torna apreciável
mediante cuidadosas pesquisas microscópicas. Assim como o enorme valor de c, a
velocidade da luz, oculta, em grande medida, a verdadeira natureza do espaço e do
tempo, o valor mínimo de oculta os aspectos ondulatórios da matéria no mundo
cotidiano.
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O universo elegante
RandomEsse é um livro científico, porém eu recomendo também para leigos, por usar analogias diversas e procurar expor da maneira mais clara possível algumas das idéias dos maiores contribuintes da física e da matemática , além de expor claramente a loucur...
