O dilema do espaço, do tempo e dos quanta
Em junho de 1905, Albert Einstein, com 26 anos de idade, apresentou um
artigo técnico aos Anais da Física, no qual ele se confrontou com um paradoxo a
respeito da luz que o fascinava desde a adolescência. Ao terminar de ler a última
página do manuscrito de Einstein, o editor do periódico, Max Planck, percebeu que a
ordem estabelecida e aceita pela ciência havia sidodestruída. Sem nenhum alarde,
um funcionário do departamento de patentes de Berna, Suíça, tinha virado de
cabeça para baixo as noções tradicionais de espaço e tempo, substituindo-as por
um novo conceito cujas propriedades divergiam de tudo o que a nossa experiência
comum ensinava ser certo.
O paradoxo que perturbou Einstein por dez anos era o seguinte. Em meados
do século XIX, depois de estudar atentamente o trabalho experimental do físico
inglês Michael Faraday, o físico escocês James Clerk Maxwell conseguiu unificar a
eletricidade e o magnetismo por meio do campo eletromagnético. Se você já esteve
no alto de uma montanha logo antes de uma trovoada forte, ou seja ficou perto de
um gerador de Van de Graaf, sabe bem o que é um campo eletromagnético porque
já sentiu os seus efeitos. Mas se ainda não passou por isso, posso descrevê-lo
como algo semelhante a uma maré montante de linhas de força elétricas e
magnéticas que permeiam a região do espaço por ondepassam. Se você salpicar
fragmentos de ferro perto de um imã, por exemplo, aforma ordenada em que eles
se distribuem mostra-nos algumas das linhas invisíveis da força magnética. Quando
você tira o suéter de lã em um dia seco e ouve estalos, ou talvez sinta até um
pequeno choque elétrico, está testemunhando a existência de linhas de força
elétricas, geradas por cargas elétricas acumuladas nas fibras do suéter.
Além de unir esse e todos os demais fenômenos elétricos e magnéticos em
um esquema matemático único, a teoria de Maxwell demonstrou —
inesperadamente — que os distúrbios eletromagnéticos viajam a uma velocidade
constante e imutável, igual à velocidade da luz. A partir daí, Maxwell concebeu a
idéia de que a própria luz é um tipo específico de onda eletromagnética, uma onda,
como hoje se sabe, capaz de interagir com elementosquímicos na retina e produzir
o sentido da visão. Além disso (e isto é crucial), a teoria de Maxwell revelou também
que todas as ondas eletromagnéticas — inclusive a luz visível — são o protótipo do
viajante peripatético: nunca param. Nunca desaceleram. A luz viaja sempre à
velocidade da luz.
Tudo vai muito bem até fazermos, como fez Einstein aos dezesseis anos, a
pergunta: que acontece se sairmos perseguindo um raio de luz à velocidade da luz?
O raciocínio intuitivo, que está na base das leis de movimento de Newton, nos diz
que ficaremos emparelhados com as ondas de luz e que elas, portanto, nos
parecerão estacionárias; a luz fica parada. Mas de acordo com a teoria de Maxwell e
com todas as observações confiáveis, luz estacionária é algo que simplesmente não
existe: ninguém jamais pôde colher um punhado de luz estacionária na palma da
mão. Aí está o problema. Felizmente Einstein não sabia que muitos dos principais
físicos do mundo estavam a braços com essa questão (e andando por vários
caminhos espúrios) e pôde refletir sobre o paradoxode Maxwell e Newton na pura
privacidade dos seus próprios pensamentos.
Neste capítulo discutiremos como Einstein resolveu o conflito por meio da
teoria da relatividade especial, e com isso mudou para sempre as nossas noções de
espaço e tempo. Em certo sentido, é surpreendente que a preocupação essencial da
relatividade especial seja a de entender precisamente como o mundo se mostra aos
indivíduos, comumente chamados "observadores", que se movem uns com relação
aos outros. À primeira vista isso pode parecer um exercício intelectual de
importância mínima. Muito pelo contrário: nas mãos de Einstein, com a sua fantasia
de observadores que perseguem raios de luz, revelaram-se implicações profundas
para que possamos compreender como até mesmo as situações mais corriqueiras
são vistas por diferentes indivíduos em estado de movimento relativo.
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O universo elegante
De TodoEsse é um livro científico, porém eu recomendo também para leigos, por usar analogias diversas e procurar expor da maneira mais clara possível algumas das idéias dos maiores contribuintes da física e da matemática , além de expor claramente a loucur...
