Frida tem 17 anos e jura que sua vida é um inferno (e de fato é), mas ela é preguiçosa demais pra mover um dedo sequer pra mudar isso. Não que ela seja má, ranzinza ou reclamona, ela só está bem em sua zona de conforto onde bolos de nozes, chás de h...
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"8:45 - sexta postagem em Frida Wolf. 06/11/2017. Olá, leitor, pessoa, alienígena, animal ou o que quer que você seja. Sinta-se bem vindo ao blog da Frida Wolf. Eu sou a Frida Wolf e eu falo muita bobagem. Sério. Muita mesmo. Maisie me disse que eu precisava de um bordão, algo para começar todas as postagens, você acha que esse ficou legal? Se a resposta for "sim, Frida, seu bordão ficou ótimo": comente aqui embaixo. Se a resposta for "não, Frida, jamais fale isso novamente" : não comente nada, finja que ninguém te perguntou. Eu achei uma bosta. Mas eu precisava tentar. Assim como precisava tentar a entrevista com a tal assistente de Moda que lê meu blog (Oi, Samantha!) , mas ela, aparentemente, esqueceu que tinha um compromisso e está quinze minutos atrasada (Vou te dar um relógio de presente, Samantha). Então, eu e Maisie estamos paradas feito dois vegetais no meio do salão de entrada da enorme (e chique e cor-de-rosa com prateado) Cher's Fragments, que fica bem no meio de Sacramento. Eu sei que vocês conhecem a marca, afinal, eu sou a única que vive no mundo da Lua, e sei que alguns de vocês podem estar pensando: "O que diabos a Cher's quer com essa energúmena?" e, acreditem se quiser, eu também estou pensando exatamente a mesma coisa. O que diabos a Cher's quer comigo? Bom, acho que vou descobrir agora, afinal, uma gordinha branquela com um crachá escrito "Samantha" acaba de chegar. Conto pra vocês depois. XoXo, Frida."
- Frida, que prazer te conhecer! - Diz a Samantha. Ela não é feia, mas é completamente o contrário do que eu imaginava: gordinha, baixinha, de cabelos pretos preso num coque e com enormes olhos castanhos que parecem estar doidos para pular em mim. Ela estica sua mão direita para me cumprimentar e eu estico a minha esquerda, apertando a dela levemente. - O prazer é meu. - Me desculpem pelo atraso, a Yara estava precisando de mim. Você deve ser a Maisie. - Ela sorri para minha amiga e a cumprimenta. - Eu mesma. - Maisie sorri, mais alegre do que eu. - Venham, vou te levar ao escritório principal. Hoje, serei eu a entrevistadora, mas geralmente é a... - Não estou prestando atenção em nada que Samantha diz, então após algumas palavras dela, eu me distraio. O prédio é enorme e nós estamos no térreo, o qual, de tão bem decorado, mais parece um salão de festas que uma empresa séria. Há pessoas de terninho correndo para todos os lados, apressadas com suas pastas enormes e outras com araras lotadas de roupas de grife esperando o elevador. Começo a me perguntar se é isso que quero pra mim, mas a sensação de estar em casa faz o serviço de responder. Quando entramos no elevador, eu sussurro pra Maisie, que parece estar anotando mentalmente tudo o que Samantha diz: - Quem é Yara? - A dona de tudo isso aqui. Ela criou a marca quando tinha praticamente nossa idade, não era nada no começo, cresceu do zero. - Ela é velha? - Deve ter uns trinta. - Maisie dá de ombros e eu arregalo os olhos. - Trinta anos? Dona de um império desse sozinha?! Como é que ela da conta? - Diz que a mãe cuida da parte administrativa, o pai cuida dos eventos e o irmão cuida da estrutura dos prédios e lojas, sem contar os mais de duzentos funcionários que ela mantém. Sozinha ela não está. - Como é que você sabe de tudo isso? - Eu fiz o dever de casa, coisa que você deveria ter feito. -Ela me repreende. - Podem entrar. - Diz Samantha ao indicar uma sala branca no fim do corredor do segundo andar. Maisie se senta em uma cadeira e eu me sento em outra, encarando Samantha, que está do outro lado da mesa, me olhando esperançosa. - Então, me diga. - A mulher sorri. - Quem é Frida Wolf? Quando ela termina a pergunta, eu estou em choque. Que porcaria de pergunta é essa? - Sou eu. - Respondo e posso sentir que Maisie está revirando os olhos, mas a menina nem se atreve a abrir a boca. - Claro que é você, bobinha, mas quero saber mais. O que você faz, o que quer fazer, quais seus planos pro futuro, suas marcas de maquiagem e roupas preferidas, o nome da sua melhor amiga... - Essa sou eu! Maisie Williams. - Maisie sorri com orgulho, mas Samantha a encara como se não quisesse mais ouvir a voz dela. - Quero saber tudo sobre você antes de te encaminhar para Yara, se for o caso. - Se for o caso? - Pergunto, curiosa. - Ora, Frida. - Samantha solta uma risada nasal e percebo que ela não é tão simpática quanto parece. - Você pode ser incrível, mas dezenas de garotas já se sentaram nessa cadeira antes de você e voltaram pra casa com o rabo entre as pernas. Eu me certifico de que apenas as melhores passem pro terceiro andar - Suponho que é onde a tal da Yara fica. - para que a Cher's continue sendo a segunda melhor Fashion Holding do país e a primeira da Califórnia. - Samantha diz as últimas frases com orgulho e é aí que percebo que ela é o tipo de funcionária que, além de gostar do que faz, defende a empresa na qual trabalha como uma torcedora fanática de baseball. Ela me assusta. - Ok. - Digo, respirando fundo. - Frida Wolf era só a excluída da escola a algumas semanas atrás, só a solitária de Saint Harvey. - Eu falo o antigo apelido como quem cospe comida estragada. - E quando foi que isso mudou? - Quem foi que disse que isso mudou? - Dou um sorriso de lado. - Eu ainda sou a mesma pessoa. - E você gosta disso? - Ela levanta uma sobrancelha como quem não está satisfeita. - Não o tempo todo, mas aprendi a me acostumar comigo mesma. Sei que faço um bom trabalho com o blog, embora seja apenas diversão, e isso levanta minha autoestima. - Dou de ombros, não estou preocupada em impressionar, apenas em ser eu mesma. - Quando sua diversão pode te fazer ganhar dinheiro, ela se torna um ganha pão incrível. - Ouço uma voz diferente atrás de mim. - É como dizem: trabalhe com o que gosta e não precisará trabalhar nenhum dia da sua vida. - Quando percebo que Samantha está olhando a dona da voz com admiração, me viro para ver quem é. - Yara Fantom, prazer. - Ela se apresenta, entrando na sala e se apoiando numa banqueta atrás dela. Yara não é muito mais alta que eu, e devemos compartilhar do mesmo peso, mas ela tem um ar de quem já passou pelas experiências mais incríveis do mundo, o que me faz querer ser exatamente como ela. Com os cabelos curtos e loiros, quase platinados, ela me analisa como quem olha para um papel em branco pensando nas diversas possibilidades de colori-lo. - Eu sou a... - Começo a me apresentar, me levantando da cadeira. - Frida Wolf. - Ela me interrompe. - Eu ouvi falar de você. - Ouviu? - Franzo a testa. - Samantha é uma grande fã do seu blog. Não que ela não tenha motivos, é claro. - Uau, obrigada, eu... - Não sei o que dizer. Yara é uma mulher, vestida com uma calça preta de couro, saltos finos, colete de plumas, brincos de ouro rosé, tem uma conta bancária que pode sustentar Saint Harvey e ela está me elogiando. Meu Deus, ser eu mesma nunca foi tão bom. - Eu quero ver como você se sai em frente às câmeras. - Ela diz, me interrompendo novamente. - Não tenho tempo para seus agradecimentos, afinal, não sou digna deles. Se você está onde está, não é por mim, mas por você mesma. Jamais agradeça alguém por algo que é mérito seu. - Ela me dá uma piscadela e sai pela porta enorme. Quando olho para Maisie, ela está boquiaberta. - O que você está esperando, garota? Vá com ela! - Samantha diz, como quem está falando com o ser humano mais burro que já pisou em Sacramento. Com Maisie atrás de mim, sigo Yara por um enorme corredor branco decorado com finas e delicadas listras prateadas pelas paredes. Ela nos leva a um elevador que nos leva ao terceiro andar. O corredor do terceiro andar é igual ao dos andares inferiores, então imagino que todos os acima também sejam. É um padrão: a Cher's Fragments foi feita para ser banhada em ouro rosé, prata e branco. - Frida, quero que conheça Jaime. - Yara sorri, enlaçando seu braço direito no esquerdo de um homem alto e sorridente. - Ele é a estrutura desse lugar, literalmente. É meu irmão de alma, vocês vão se trombar muito por aqui.