Frida tem 17 anos e jura que sua vida é um inferno (e de fato é), mas ela é preguiçosa demais pra mover um dedo sequer pra mudar isso. Não que ela seja má, ranzinza ou reclamona, ela só está bem em sua zona de conforto onde bolos de nozes, chás de h...
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"Décima segunda postagem em Frida Wolf. 14/11/2017. Eu gostaria de poder explicar o misto de sensações que tomaram conta do meu corpo quando pisei naquela passarela, usando um vestido de franjas azuis e saltos altos. Foi como se o mundo todo tivesse parado apenas para olhar pra mim. A atenção de todos no local era minha. Só e completamente minha. A música começou e eu me lembro de sentir como se todo o ar do meu corpo tivesse fugido de mim. E eu me senti sufocada pela responsabilidade de estar ali. De ser Frida Wolf."
— Você vai ficar bem. - Disse Finn, esfregando meu braço direito com suas mãos magras, tentando me dar forças. — Finja que estão todos pelados. - Ele sorri. — Não finja não. - Diz Zac, com sua voz rouca.
O bastidor está escuro e as vozes femininas ecoam por todo o lugar localizado atrás da cortina de veludo preta que antecede a passarela.
— Pensei que você estaria na primeira fileira. - Sorrio. — Apenas porque sou obrigado a ficar perto dos outros acompanhantes. - Ele revira os olhos e passa a mão nos cabelos castanho claros. — Sei bem que você quer me ver de perto. - Debocho, o encarando. Sinto que estou sendo fuzilada por Athena e Charlotte, mas não consigo entender o porquê. — Claro. - Ele rola os olhos novamente e coloca suas mãos nos bolsos da calça vermelha. — Jamais perderia a oportunidade de te ver pagar mico. — Você acha que vai ser assim? - Me encolho, pensando na possibilidade de cair e me quebrar toda no meio do desfile. Estou nervosa e insegura. Zac apenas me encara por alguns segundos, balançando a cabeça de leve. — Não. - Ele sussurra.
Quando ouço Yara me apresentar, Finn começa a repetir milhares de instruções no meu ouvido, mas eu só estou concentrada em não vomitar.
— Esse vestido é muito colado e muito curto. - Digo. — Nem as franjas disfarçam! Eu não tenho corpo pra isso, as pessoas vão me achar muito magra e... — Frida, você já está dezessete segundos atrasada. Quando chegar aos trinta, Yara irá te chamar novamente. Se chegar aos cinquenta, Athena está preparada para entrar no seu lugar. — Finn me olha nos olhos seriamente. — Sem pressão. - Ele sorri.
E então eu respiro fundo e abro a cortina de veludo com o maior sorriso que consigo.
Da passarela, enquanto concentro em não cair, posso ver diversas fileiras de cadeiras enfileiradas com pessoas importantes as ocupando. Os grampos de cabelo me machucam e sinto os cílios postiços pesarem meus olhos, mas mantenho a postura. Nada pode dar errado. Na primeira cadeira, vejo Yara me encarar passivamente, enquanto Maisie e minha mãe estão na terceira fileira, sorrindo feito bobas. Zac retomou o seu lugar a apenas algumas cadeiras de distância de sua chefe, e não me olha nenhuma vez sequer. Isso não me incomoda. Talvez ele não tenha olhado para Charlotte e Annya também. Não é nada pessoal. Ele não me odeia. A música para e recomeça, mas a passarela parece não ter fim. Quando reparo nos flashes me retratando, por alguns segundos esqueço que sou a Solitária de Saint Harvey e deixo a leveza tomar conta do meu corpo. O salto já não parece tão desconfortável, o vestido já não parece tão colado, os grampos já não machucam mais. Eu estou anestesiada pela magia da moda. O palco revestido com tecido vermelho e iluminado com luzes amareladas soa como uma casa pra mim, como se esse fosse o meu propósito de uma vida inteira sem saber onde me encaixava. É aqui que eu me encaixo. É para ouvir os aplausos que eu nasci, é para ver Yara sorrir que eu nasci, é para dar orgulho para minha mãe e minha melhor amiga. É para ser alguém. É para representar Valentinna.