Então, as semanas se passaram. Eu não poderia dizer que foram calmas ou com um ritmo constante. Alioth ainda se recuperava dos ferimentos, depois de vários dias ela conseguiu sair da cama para caminhar pelos campos junto com Thesig, a princípio apenas alguns metros antes de se desgastar o suficiente para ter que voltar rapidamente para o quarto. Então foram aumentando os metros gradativamente, até que ela continuasse forte o bastante para andar sem ficar pálida e se segurar na pequena mulher ao seu lado. Thuban também a acompanhava em algumas caminhadas. Foi um alivio ver a cor retornando ao seu rosto com o passar do tempo. Enquanto isso acontecia, eu, Manva e Garkah continuávamos nossos trabalhos nas fazendas. Depois da tarefa de cuidar dos bezerros, fomos mandados para as hortas, onde cuidávamos do solo antes das plantações e colhíamos o que fora plantado. Por algum milagre, nos deixaram usar as enxadas e pás para fazê-lo. E não ficávamos separados, já que tratávamos de uma plantação de cada vez. Manva resmungava com frequência do sol escaldante em nossas cabeças, Garkah ecoava o sentimento vez ou outra. Algumas vezes aquela garotinha aparecia ali com cantis de água para nos dar. Eu ainda não sabia onde ela morava talvez nem mesmo Garkah soubesse, apesar de sabermos quem era a mãe dela. Caeli adorava a companhia silenciosa de Garkah, pareciam se entender daquela maneira. No começo relutamos em aceitar a presença dela ali, sabendo que os thoranianos não precisariam de muito para nos acusar e condenar, mas com o tempo deixamos esses pensamentos de lado, até que nos pegávamos muitas vezes acompanhando suas brincadeiras. Mesmo os thoranianos pareciam acostumados com nossa presença ali, parando de nos encarar durante as refeições, o que era um pequeno alívio.
Em uma das tardes em que Caeli nos trouxe cantis com água e se sentou na grama que contornava as plantações, percebi que seu vestido azul estava molhado. Ergui uma sobrancelha, cravei a pá na terra e apoiei o antebraço no cabo desta.
"Por que está toda molhada?"
Ela abaixou a cabeça para olhar o próprio vestido.
"Caí no lago quando fui pegar a água", respondeu com uma risadinha travessa.
"Caiu?" semicerrei os olhos.
"Bem..." suas bochechas coraram e ela torceu as mãos levemente. "Eu caí de propósito."
Um leve sorriso esticou meus lábios e eu balancei levemente a cabeça, voltando a pegar a pá para trabalhar.
"Garkah vai ficar bravo?"
"Por que ele ficaria?" perguntei enquanto enfiava a pá na terra para abrir um pequeno buraco para as sementes serem plantadas.
"Os pais não ficam bravos quando as crianças fazem travessuras?"
Parei e ergui o olhar para ela, sem saber o que responder. Ela encarava Garkah um pouco mais distante, concentrado no trabalho.
"A senhora que cuida de mim diz isso. Que foi por isso que minha mãe nunca veio me buscar."
"Ela diz isso?"
"Sim. Ela diz que minha mãe me deixou aqui porque eu era muito levada." Seus olhos cor de cobre voltaram-se para mim. "Estou me comportando melhor, mas ela ainda não apareceu. Então, talvez o Garkah queira ser minha mãe, enquanto a minha mãe de verdade não chega."
Engoli em seco uma vez, sem saber se gargalhava ou se a pegava em meus braços para afastar aquele pensamento sujo que lhe havia sido implantado. Apertei o cabo da pá com mais força. Talvez fosse uma benção do Céu não sabermos onde Caeli morava, caso contrário, a pá estaria suja de sangue até o final do dia. Pigarreei baixo.
"Não sei se Garkah poderia ser sua mãe. Ele não fica muito bem num vestido." Falei em tom baixo, como se fosse um segredo.
Garkah se aproximou e olhou para Caeli, vendo o vestido molhado. Ergueu uma sobrancelha e sorriu um pouco. A expressão apreensiva dela ao vê-lo se aproximar se dissolveu em pura diversão. Ela balançou a cabeça para a esquerda, na direção dos rios e ergueu a mãozinha abrindo e fechando, chamando-o para ir. Garkah balançou a cabeça negativamente e olhou na direção do sol, como se dizendo a ela que ainda estava cedo e tinha trabalho a fazer. Caeli cruzou os bracinhos e ficou emburrada. Ri baixo da maneira que eles se comunicavam perfeitamente sem palavras.
Depois das hortas, fomos levados para a colheita de uvas. Entre as centenas de árvores, Manva se sentiu isolado o suficiente para tirar a camisa devido ao calor. Com um dar de ombros, eu e Garkah acompanhamos. Separamos-nos voluntariamente por ser uma área maior, assim acabaríamos mais rápido. Após algumas horas, ouvi a gargalhada de Caeli ecoando de algum lugar entre as árvores, provavelmente ela havia encontrado Garkah, o que para mim também era um mistério como ela sempre o encontrava independente da distância que estivesse quando as tarefas eram designadas. Cada um de nós recebeu uma cesta grande para enchermos com as uvas maduras e um barril deixado no início das plantações. Levaria algum tempo até enchermos completamente cada um seu barril, então comecei o trabalho.
Na terceira vez em que voltei para o meio das plantações para encher de novo a cesta avistei alguém entre as árvores comendo as uvas. Semicerrei os olhos e me aproximei silenciosamente como sempre fazia. Seus cabelos negros estavam trançados, caídos sobre as costas como uma corda longa. Parei atrás dela e sorri um pouco ao prever seu susto.
"Espero que você tenha comido algumas enquanto as colhia, estão bem doces." Alioth falou sem se virar.
Fiquei parado, surpreso demais para falar. Como ela sabia que eu estava ali? Havia sido silencioso. Então se virou, com a mão cheia de uvas, esticando-a na minha direção.
"Não posso comer enquanto trabalho."
Ela ergueu uma sobrancelha e continuou com a mão erguida para que eu pegasse as uvas, até que o fiz. Ao morder a primeira, tive que conter qualquer reação vinda de meu corpo. Não me lembrava da ultima vez em que comera uma fruta fresca. Em vez de dizer alguma coisa, eu comi mais uma, e mais outra, até que minha mão ficou vazia. O tempo todo Alioth me observou. Ela havia recuperado o peso que perdera enquanto estava doente, mais um alívio sutil. Seu olhar passou do meu rosto para meu peito nu e um sorriso delineou seus lábios.
"Não deixe o suor pingar nas uvas, está bem?"
Virou-se e começou a caminhar para longe. Aquele sorrisinho me deixou enraizado no lugar, meus dedos quase rasgavam a maldita cesta que eu segurava.
Então vi um relance de dourado e verde correndo na direção em que Alioth estava indo, prestes a colidir com ela. Só então eu me coloquei em movimento, correndo até ela para que não ficasse no caminho de Caeli. No instante em que eu puxei o braço de Alioth para trás, a menina colidiu com suas pernas, o que trouxe as duas na minha direção. Por puro reflexo, consegui me abaixar e segurar Alioth antes que ela caísse e Caeli também, até que estava com as duas, uma em cada braço.
Alioth estava com os olhos arregalados e um pouco encolhida, o movimento brusco devia ter lhe causado dor, ao mesmo tempo em que Caeli encarava Alioth boquiaberta. Senti suas mãozinhas apertando meu braço com mais força, como se buscasse minha proteção. Alioth também reparou e seu olhar voltou-se para meu rosto, como se ela tentasse entender como e quando eu havia conhecido a filha de sua amiga. Sua expressão se suavizou de repente e ela deslizou a mão por meu ombro, fazendo um arrepio gélido subir por minha espinha.
"Obrigada." Ela falou baixo, então virou o rosto para Caeli, que instantaneamente se encolheu mais contra mim. "Olá", cumprimentou gentilmente.
Devagar eu me levantei e estabilizei Alioth no chão, enquanto Caeli continuava grudada em meus braços. Pigarreei e cutuquei suas costelas com o dedo quando ela virou a cabeça na outra direção, evitando o olhar da general.
"O que há? Ela disse oi." Sussurrei para Caeli.
O olhar de Alioth passou mais uma vez da menina para mim, mas seu rosto não demonstrou nada. Caeli virou a cabeça devagar e disse "oi" tão baixo que era como se ela só movesse os lábios. De repente ela se esticou completamente, ao mesmo tempo em que Garkah aparecia por entre as árvores, ao lado de Alioth. Eles se encararam por um instante, até que Caeli choramingou e esticou a mão para ele, abrindo e fechando-a várias vezes. Garkah hesitou, fechando as mãos em punho relutando em se aproximar da menina na frente de Alioth. Os olhos de Caeli encheram-se de lágrimas e ela abriu e fechou a mão com mais intensidade.
"Garkah" ela chamou com a voz embargada.
Na minha mente, a vi sentada na grama me contando que acreditava ter sido abandonada por fazer travessuras. Não a deixaria acreditar naquilo nem por um segundo, então me aproximei de Garkah e a coloquei em seus braços, mesmo que ele estivesse completamente tenso. Ela imediatamente abraçou seu pescoço com força, escondendo o rosto em seu ombro. Voltei-me para Alioth.
"Temos que falar sobre isso, Alioth."
Seus olhos verdes deixaram Garkah e Caeli para pousarem em mim.
"Eu sei." Ela falou enquanto dava alguns passos na minha direção e sussurrou. "Ela está vindo para cá. Talvez seja o momento de aproximarmos as duas."
Assenti uma vez e olhei para meu companheiro com a menina nos braços, acariciando suas costas para acalma-la de qualquer que fosse o medo dela ao ver Alioth.
"Fale com ela."
"Com Thesig?"
Movi o queixo na direção de Caeli sutilmente. "Ela estava com medo de você, mas não tem medo de nós. Não gostaria de saber o motivo?"
Sua cabeça se inclinou um pouco, então ela se aproximou de Garkah, falando com a menina.
"Você está bem? Não se machucou quando trombou em mim?"
Ela apenas moveu a cabeça negativamente. Alioth olhou para Garkah, que estava inexpressivo. Então ela cutucou delicadamente a menina.
"Como você se chama?" tentou novamente, mas ela se manteve em silêncio. Alioth repuxou os lábios um pouco para o lado enquanto pensava. "Sabe, eu adoro ficar aqui. Sempre posso comer muitas uvas. Você gosta de uvas?" nenhuma resposta. Ela caminhou até uma árvore e colheu um cacho maduro. "Descobri que Ghurab as adora. Ele comeu umas dez quase sem mastigar."
Caeli ergueu a cabeça e olhou para mim com um sorrisinho, achando graça. Dei de ombros, aceitando a acusação. Alioth se aproximou e ergueu o cacho de uvas em sua direção. Caeli esticou a mão devagar e pegou o cacho, tomando cuidado para não tocar nela.
"Está com medo de mim?" Alioth perguntou sem rodeios, o que fez com que eu revirasse os olhos.
Caeli assentiu enquanto comia as uvas.
"Por quê?"
Ela ergueu o olhar e falou em tom baixo. "Não quero que leve ele embora."
"Não quer que eu leve Ghurab ou Garkah embora?"
"Nenhum. Nem Manva." Sussurrou e apertou-se contra Garkah, que a aninhou melhor em seus braços.
"Por quê?"
Caeli tomou ar e falou: "Porque Garkah vai ser minha mãe enquanto a minha mãe de verdade não vem me buscar, mas o Ghurab e o Manva não vão ficar sem o Garkah, porque eles são irmãos. E eu gosto deles também, então todos eles tem que ficar."
Alioth ergueu as sobrancelhas e olhou para mim, eu assenti uma vez e dei de ombros. Depois eu explicaria a ela. Então, Thesig apareceu e ficou paralisada ao ver Caeli nos braços de Garkah mais uma vez. Pensei que ela sairia correndo como fez antes, mas Alioth a chamou para se aproximar.
"Essa é minha amiga Thesig. Thesig, essa é Caeli. Ela estava me contando como é amiga dos três brakbarianos. Ela pensa que eu vou levá-los embora, mas eu não vou."
Caeli olhou de Thesig para Alioth e um pequeno sorriso apareceu em seu rosto. "Não vai?"
Ela balançou a cabeça negativamente, então a menina abraçou Garkah com mais força, enquanto ele olhava para Thesig como se estivesse hipnotizado. Ao mesmo tempo em que ela também parecia hipnotizada. E Manva apareceu, parando ao ver todas aquelas pessoas ali. Franzi a testa. Quem mais poderia aparecer?
"Alioth? Alioth? Seu pai está aqui, onde você está?" alguém chamou ao longe. Thuban.
Pelo Céu. Era apenas uma pergunta retórica. Olhei para Manva e Garkah e falei em brakbariano.
"Temos trabalho para terminar."
Ambos assentiram. Garkah se aproximou de Thesig e se abaixou para que ela pegasse Caeli, o que ela fez mesmo que seu corpo estivesse tremendo. A menina choramingou um pouco, mas ele lhe deu um beijo no topo da cabeça e apontou para o céu. Ainda estava cedo. E apontou para Thesig, dizendo para ficar com ela. Caeli assentiu e olhou para Thesig, abrindo um sorrisinho em seguida. Alioth olhou para mim e assentiu uma vez, caminhando junto com Thesig para fora dali, indo encontrar Thuban para receber seu pai. Manva e Garkah se separaram para terminarmos o trabalho. Peguei minha cesta do chão e continuei a colher as uvas, com a minha mente voltando para aquele estranho momento em que estávamos todos ali, em como eu me senti confortável, como se estivesse em casa de novo.
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Beldarrien - A Coroa Amaldiçoada
FantasyHá mil anos uma maldição foi lançada no continente de Beldarrien, onde haveria aquele que traria o caos e reinaria juntamente da feiticeira para libertar uma criatura tão antiga quanto a Terra. Porém a maldição trouxe também, em forma de equilíbrio...