Provando do próprio veneno

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Eu continuei ainda mais perturbada, já que ele permaneceu em silêncio esse tempo todo. Continuei observando ele, sem entender nada, e enruguei a minha testa esperando a resposta do Marquinhos.

― Bem, eu... ― O Marquinhos parecia perdido, talvez estivesse procurando as palavras certas. Por fim, ele soltou o ar, suspirando e continuou. ― Não queria estar aqui ― ele enfim confessou.

Porém eu ainda tinha a minha dúvida, ele não disse nada que esclarecesse a minha pergunta.

― Mas então por que está aqui? ― perguntei confusa.

― É complicado ― ele disse tristemente.

Acho que eu estava começando a entender o que se passava aqui, e quando eu ameacei abrir a boca para falar algo, nós giramos pelo salão no mesmo momento em que o ritmo da música ressoou forte, dançando a valsa com perfeição, em seguida voltei a encará-lo.

― Por acaso seus pais estão te obrigando também? ― respondi por ele.

― Sim. ― Ele me olhou assustado. ― Como você sabe?

Eu bati com a minha mão na testa rapidamente, percebia-se de longe que ele não era a inteligência em pessoa.

― Porque estou sendo obrigada do mesmo jeito. ― Balancei a cabeça em negação.

― Não acredito. ― Ele me olhou perplexo. ― E por que você está nessa? É pelo dinheiro, não tem para onde ir?

― Basicamente os dois. Meu pai é muito influente na cidade. Não consigo me virar sem ir embora daqui.

Ele acenou com a cabeça, concordando com o que eu tinha dito.

― E você? ― perguntei com curiosidade.

― Dinheiro. Meus pais não vão liberar mesada, herança ou qualquer tipo de renda se eu não me casar. ― Ele fez uma careta. ― Eles acham que eu tenho que ter mais responsabilidades, parar de sair por aí e ficar curtinho.

― Nossa, nós ganhamos na loteria ― comentei sem animação.

― Nem me fala. O pior é que estou preso a isso. Não vou poder mais sair, já que eles não vão liberar o dinheiro. ― O Marquinhos fez uma careta, parecia indignado. ― E aí eu teria que trabalhar em algum lugar para ganhar uma merreca e eu não quero isso. Poxa, afinal o dinheiro também é meu. Eu sou jovem, quero viajar, curtir um pouco antes de me prender a alguém. ― Ele olhou sério para mim e eu balancei a cabeça concordando.

A música estava prestes a acabar, nós até diminuímos os passos no ritmo lento da valsa e eu encarei o Marquinhos ao mesmo tempo em que pensei que talvez essa situação não fosse tão ruim. Afinal nós dois não queríamos o casamento, então por que não poderíamos nos ajudar?

― Sabe, Marquinhos, eu acho que tenho a solução para o nosso problema ― eu disse alegre e ele me olhou confuso, com a testa enrugada.

― Ah é mesmo? Estava louco para encontrar uma saída, pode dizer já o que é ― o Marquinhos disse empolgado.

Eu ameacei abrir a boca para começar a falar, mas nesse meio tempo os meus olhos desviaram a atenção para um canto do salão, no qual algumas pessoas dançavam, eu experimentei um sentimento estranho, foi um misto de raiva e desespero. Ao focalizar o Ucker cheio de conversinha com uma garota desconhecida, eu fiquei chateada e possivelmente era ciúmes. Só poderia ser essa a razão de eu ter ficado emburrada.

― Marquinhos, você conhece aquela garota que está com o Ucker? ― eu perguntei sem dar muita entonação, o rapaz me encarou surpreso.

― Hã? ― ele respondeu confuso. ― Que garota? ― eu apontei com o dedo, discretamente, na direção dos dois.

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