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A luz atravessava a cortina fina do meu quarto e insistia em bater direto nos olhos. Ótimo. Outro dia em Hawkins. Me levantei com o entusiasmo de um condenado indo pra forca, fiz minhas higienes e desci as escadas devagar, arrastando os pés pelo chão de madeira.

Hoje era meu primeiro dia de trabalho. Só esse pensamento já era suficiente pra me fazer querer subir de novo e fingir morte súbita.

Na cozinha, encontrei Dustin, sorrindo como um anúncio de pasta de dente... mesmo sem ter dentes suficientes pra isso.

— Bom dia! — disse ele, todo empolgado.

— Mal dia. — respondi, dando um sorriso falso que ele já tinha aprendido a interpretar.

— Grossa! — o menor reclamou, ofendido de brincadeira.

Enquanto eu pegava uma maçã, minha tia surgiu pela escada com aquela energia maternal que eu nunca tive.

— Já vai, querida?

— Acho que estou atrasada. — respondi olhando o relógio de pulso, mesmo sem saber se aquele troço funcionava direito.

— Nossa, verdade! Quer que eu te leve? — ofereceu, com a voz educada mas o corpo inteiro dizendo "por favor diga não".

— Não precisa não. Vou com a bicicleta do Dustin. — falei com um sorrisinho maldoso.

Dustin arregalou os olhos tão rápido que quase ouvi o crack do susto.

— O QUÊ? — ele virou para trás como se a bicicleta pudesse fugir.

— Tchau, Dustin! — e saí pela porta antes que alguém protestasse.

Peguei a bicicleta, que rangeu sob meu peso, e comecei a pedalar. O vento frio batia no meu rosto e, por alguns minutos, eu esqueci Hawkins, trabalho, obrigações... tudo. Só o vento, minhas mãos no guidão e a sensação de liberdade que eu achava que não sentiria mais.

Cheguei no shopping antes de perceber.

[...]

— Aqui é o Freezer, e esse é seu companheiro de trabalho, o Steve! — a gerente falou abrindo a porta como se estivesse apresentando um sabre de luz.

Steve Harrington estava ali, sentado, com aquele cabelo perfeito que parecia ter vida própria. Ele ergueu os olhos quando entrei.

— Maior de idade que eu acabei de descobrir o nome! — falei, me jogando na cadeira ao lado dele.

Os olhos dele se divertiram com a audácia.

— Garotinha rebelde... como vai seu dia? — perguntou, me encarando como se estivesse tentando decifrar algo.

— Uma merda. E o seu? — devolvi, mantendo o olhar.

— Bom... — respondeu, e por um momento ficou um silêncio estranho. Bom estranho. O tipo de silêncio que pesa no ar, como eletricidade antes de um raio.

Eu conseguia sentir o olhar dele percorrer meu rosto inteiro, como se tentasse entender por que uma menina desconhecida de repente queimava o ar ao redor dele.

A gerente tossiu.

— Olha... eu já vou indo. Tchau, Steve. Tchau, Julie!

— Tchau, Sr. Killer! — respondi, e Steve caiu na risada.

— Sr. Killer? — ele perguntou ainda rindo.

— Longa história. — dei de ombros. — Talvez eu te conte... se eu gostar de você.

Ele ergueu uma sobrancelha, claramente intrigado.

Foi assim que começou meu primeiro dia de trabalho — com risadas falsas, uniformes ridículos e uma tensão que eu fingia não notar.

Stranger Things 3Onde histórias criam vida. Descubra agora