Meet JH

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Desde pequena eu sonhava em ser uma cantora de rock. Eu amava o som, a vibe, o jeito que tudo parecia mais vivo quando a música batia no peito. Mas nem tudo na vida sai como planejamos.

Minha infância era normal, uma família comum, até descobrirmos a doença da Sara. Câncer.
Eu tinha só nove anos. Sara tinha seis.
E o que se espera de uma criança de nove anos? Escola, brincadeiras, primeiro beijo, risadas... mas nada disso aconteceu comigo.

Continuei indo à escola por um tempo, até meus pais descobrirem que eu sofria bullying por causa da doença da minha irmã. Diziam que era contagioso. Entre eles estava Steve Harrington. Eu o odiava... ou achava que odiava. Era estranho: quando ele me zoava, eu sorria.

Enquanto isso, meu pai começou a beber. Voltava bêbado, minha mãe chorava trancada no quartinho de limpeza. Às vezes eu também o escutava chorar no banheiro. E as brigas... Sempre as brigas. Eu e Sara ficávamos juntas no quarto, abraçadas, esperando passar.
Eu presenciei tudo: Sara perdendo os cabelos, o medo nos olhos dela, as brigas dos meus pais, as dores, as idas ao hospital... e o dia em que ela não voltou mais.

Lembro de ter ido comprar um suquinho na maquininha do hospital, pouco depois de dar a ela um cordão da amizade. Ela era minha irmã, mas também minha melhor amiga.
Quando voltei, só ouvi gritos e choros. Minha mãe desesperada, meu pai tentando segurá-la. Meu suco caiu no chão, e eu também desmoronei. Saí correndo, esbarrei em Steve e caí. Ele me perguntou o que tinha acontecido, mas eu só consegui chorar. Corri para fora...
Rua. Buzinas. Um caminhão.
E tudo ficou escuro.

Acordei no hospital. Minha mãe estava do meu lado, chorando e sorrindo ao mesmo tempo. Mas eu senti falta de alguém.
Meu pai.
E, acima de tudo, da Sara.

Perguntei por ele: "Onde está o papai?"
Minha mãe abaixou a cabeça e disse: "Está no trabalho, querida."
Eu chorei. O médico pediu pra eu não me cansar. Tentei mexer os pés e não consegui. Chorei ainda mais, desesperada, até explicarem que estavam apenas quebrados.

Fiquei lá por uma semana e meu pai não apareceu uma única vez.

Quando voltei para casa, encontrei tudo gelado, silencioso, triste. Meu pai só aparecia para beber e brigar. Uma noite me buscou bêbado na escola, gritou comigo e me machucou. Eu mordi ele para fugir. Corri para dentro da escola e esbarrei em Steve de novo. Me tranquei no banheiro.
Ele batia na porta, gritava que eu tinha que respeitá-lo. Eu gritava para ele ir embora. A diretora o tirou de lá à força. Nancy estava do lado de fora quando me chamaram: "Ei, você pode sair agora?"
Saí, vi Nancy, Steve, Jonathan... e corri para casa.

No dia seguinte minha mãe arrumou as malas. Não pensei duas vezes: arrumei as minhas também. Nos despedimos da minha tia e do Dustin — insuportável como sempre — e fomos embora. Brasil. Pior fase da minha vida.

Quatro anos se passaram. Meu "normal" era viver sem amigos, sem festas, sem interesse por roupa bonita ou maquiagem. Até que, aos 16 anos e meio, conheci Jacob.
Bonito. Engraçado. Insistente demais.

Ele me chamou para uma festa. Recusei, mas ele insistiu até eu aceitar. O pior erro da minha vida.
Ele me ofereceu bebida. Eu disse não. Ele mentiu.
E depois me drogou.

Acordei dolorida, confusa, sem entender. Ingênua demais para reconhecer o que tinha acontecido. Continuei com ele porque não sabia o que fazer. Meses depois, meu "chifre" não foi a única coisa a crescer. Descobri que estava grávida.

Quando contei a ele, Jacob disse para eu abortar. Eu nem sabia o que era isso. Minha mãe nunca me explicou nada — nem sobre menstruação eu sabia até o dia que acordei assustada com sangue no lençol.

No dia do procedimento — meu aniversário de 17 anos — eu estava trabalhando. Quando minha mãe chegou, trouxe uma boneca e disse com ironia que tinha conquistado aquele presente. Queria pedir perdão por tudo... e ela me respondeu com nosso antigo "para sempre".

Ele me deixou ir sozinha. Entrei no lugar mais frio e horrível que já vi. Uma sala de pedra. Médico grosso. Várias garotas como eu.
"Deita."
"Vai doer, doutor?"
Nenhuma resposta.
"Você vai apagar em um, dois, três..."

Quando voltei para casa às três da manhã, minha mãe não estava. Recebi uma ligação. A ligação. Corri até o local e vi... o que nunca vou esquecer.
Ela tinha sido assaltada. E assassinada.

Fugi apavorada e acabei em um beco. E lá estavam eles. E aquele homem.
Gritar não adiantou.

Injeções. Dor. Escuridão.
Movia coisas com a mente. Ouvia pensamentos.
Fiquei presa por um mês e meio até matar muitos deles e fugir.
Sim. Eu matei.

A polícia disse que eu era louca. Um médico me encheu de remédios para alucinação.
E então me mandaram de volta para Hawkins, para morar com minha tia e o Dustin.

Conheci a On, o Will, o Mike, a Max, o Lucas.
Reencontrei Steve, Jonathan e Nancy.
Reencontrei meu pai — sóbrio, com uma filha adotiva.
Ele nos ajudou a vencer o Devorador de Mentes e os russos... mas não voltou.

Agora, meses depois, tive uma visão. Billy — irmão da Max — me disse que meu pai estava vivo. Ninguém acreditou... exceto Will, Max, On, Jonathan e tia Joyce.

E agora?
Agora estamos a caminho.
E vamos acabar com esses desgraçados.

~ Julie Henderson

Stranger Things 3Onde histórias criam vida. Descubra agora