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A sala de cinema improvisada no fundo do shopping estava sempre meio vazia, meio fedida e totalmente barulhenta, exatamente o tipo de lugar perfeito pra um bando de adolescentes fazer besteira. Eu estava jogada na cadeira, tentando ignorar o cheiro de pipoca velha, quando ouvi Dustin reclamar:

— Você é o nosso responsável, Steve! Se pegarem a gente, você se ferra!

Steve deu aquele sorriso de canto que parecia dizer "eu sei que vou me ferrar, mas não ligo".

— Eu tinha esquecido que a Julie é uma garotinha. — provocou, cruzando os braços.

Eu o encarei com calma.
Com calma... e vontade de socar.

— Não me provoca que hoje eu tô fervendo. — respondi, cantando como se estivesse ameaçando com melodia.

Lucas não perdeu tempo. Claro que não.

— O Steve apaga esse fogo rapidinho. — disse olhando pra mim, e depois pro Steve, com um olhar malicioso.

Eu ri. Um riso lento, perigoso.

— Por acaso ele é domador de gatas?

Mike soltou um suspiro irritado.

— Ela tá se achando hoje.

— Oh, olha só — falei com falsos aplausos — ele falou alguma coisa! Achei que ainda tava se beijando com a On em cima da cama.

Mike arregalou os olhos.

— Como você sabe que a gente se pega em cima da cama??

Eu dei um sorriso vitorioso, triunfante.

— Te peguei.

— Ah?! — ele ficou indignado, como se o mundo tivesse acabado.

Mas algo chamou mais minha atenção.

Will.
Quieto demais.
Pálido demais.

— Will... está tudo bem?

Ele levantou a cabeça devagar, como quem volta de um transe.

— Claro... — deu um sorriso fraco, que só deixou tudo pior.

E então — tchan! — a luz apagou.

Não só a do cinema. Não só do shopping.
A cidade inteira mergulhou no escuro.

Gritos, reclamações, confusão por alguns minutos. Depois, do nada:

A luz voltou.

— Voltou! — disse Steve, com entusiasmo.

Lucas riu da forma mais irritante possível.

— Não, Sherlock, ainda tá sem luz. Não tá vendo?

— Cala a boca, Lucas! — Max reclamou.

— Vem calar! — ele respondeu, e antes que alguém dissesse algo, ele agarrou Max e a beijou.

Eles ficaram nisso até o filme acabar. Aquilo já não era beijo, era possessão demoníaca.

— Ei... gente? — tentei puxar os dois. — Gente, o filme acabou!

Nada.

Eu poderia acender um sinalizador e eles ainda iam ignorar.

[...]

O vento frio noturno bateu na minha cara assim que saímos. Hawkins parecia mais silenciosa do que o normal. Tensa. Como se estivesse esperando alguma coisa.

Will foi o primeiro a se despedir.

— Tchau, pessoal. Eu tenho que ir.

— Espera! Eu vou também. Você vem, Jul's? — Dustin me perguntou.

Stranger Things 3Onde histórias criam vida. Descubra agora